Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Coisas que fazem mal aos olhos


"Coisas que fazem mal aos olhos

O seguinte faz mal aos olhos. Choro, fome, jejum, vinho velho, cerveja nova, turva, especialmente de centeio, demasiado macerada. Toda a embriaguez e excesso. Todo o legume, leite, queijo, e tudo o que for salgado, em fumigação ou estupefaciente, como a papoila, etc. Sono demasiado depois das refeições e vigílias imoderadas. Canto em demasia e coito frequente. Olhar em demasia para objectos brancos e luminosos. Também faz mal a flebotomia frequente e ilícita."


"Pedro Hispano" in Clara Crabbé Rocha, A caneta que escreve e a que prescreve: Doença e medicina na literatura portuguesa, Lisboa, Verbo (Babel), 2011.


[A espinhosa tarefa também não ajuda.]

Sábado, 26 de Maio de 2012

A subordinação e a coordenação

Ainda ontem, à beira da piscina onde decorria a aula de natação, se falava da escrita e do uso excessivo de "e"s. Observou-se que os presentes recorriam à hipotaxe quando escreviam textos argumentativos, tendo consciência técnica desse facto ou não; por outro lado, também era evidente que só na comunicação mais imediata, ou em casos de inaptidão, predominavam as construções paratácticas. 

Vem esta lembrança a propósito da entrevista do cardeal Gianfranco Ravasi ao Público, de hoje. Nela se reflecte sobre a relação da religião com a linguagem, nas suas múltiplas formas e possibilidades, principalmente no que respeita à arte. Todavia, o que se destaca agora são as referências à internet (Twitter e Blogue), sobre a qual o cardeal revela grande clarividência:

"É preciso coragem para entrar neste horizonte [sobre a sua conta no Twitter], que tem uma linguagem completamente diferente da tradicional, sobretudo por uma característica: a nossa linguagem religiosa, mas também a cultural ou a filosófica, usa a subordinada, ou seja, o raciocínio encadeado. Aqui, domina a coordenada: a frase breve, essencial, incisiva.
Podemos recusar esta aproximação, por simplificar as coisas. Mas sendo esta a linguagem que ocupa um espaço enorme na cultura contemporânea, sobretudo na juvenil, creio que devemos intervir, também ali, não esquecendo a nossa linguagem complexa, mas tentando esta via. Tentei fazê-lo através de dois modelos...
[...]
O blogue é já um discurso mais articulado."


Regressando às considerações iniciais, poderemos, então, pensar que um dos problemas da escrita, mormente escolar, mas não só, resulta de uma mudança no uso e na forma da linguagem, que, por sua vez, decorre de uma alteração do raciocínio lógico. É o efeito das novas tecnologias, diz-se, como antes se dizia que era o efeito dos meios audiovisuais. As razões serão diversas, o certo é que há um problema a nível da linguagem, logo a nível do entendimento do mundo e da vivência de cada dia.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Os papelinhos da professora

O ano lectivo aproxima-se do fim. Restam os apontamentos e os resumos para os anos vindouros, que a memória não é de elefante.

Memorial do Convento


Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

O Corpo Plural


"O corpo plural

«Que corpo? Temos vários.» (PIT, 39) Tenho um corpo digestivo, um corpo nauseável, um terceiro susceptível de enxaquecas, e assim por diante: sensual, muscular (a mão do escritor), secretivo e, principalmente, emotivo: que é emocionado, movido, ou calcado, ou exaltado, ou atemorizado sem que isso se note. Por outro lado, sinto-me cativado até ao fascínio pelo corpo socializado, o corpo mitológico, o corpo artificial (o dos «travestis» japoneses) e o corpo prostituído (do actor). E além desses corpos públicos (literários, escritos) tenho, se assim poderei dizer, dois corpos locais: um corpo parisiense (desperto, cansado) e um corpo campesino (repousado, pesado)."


Roland Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes, Lisboa, Edições 70, 1976.

Caligrafias






No outro dia, uma voz pedagógica dizia que os enunciados dos testes não devem ser assinados, que isso é muito mau. Que prescrição idiota! As provas que os professores preparam para os seus alunos, aos quais estes respondem diligentemente, cada um com o seu tremor, mostram um pouco das pessoas que ali se vão encontrando, semana após semana, durante um ano lectivo ou mais. De facto, não só a matéria cognitiva está em causa nesses momentos, também a incerteza ou a confiança vêm à colação, o que se manifesta, desde logo, na vibração da caligrafia, mesmo que uma das partes se manifeste apenas por uma simples assinatura, ou tão só por uma ténue rubrica.


Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Pensamento nº 560

Uma chávena de café e um pensamento, nesta Quinta-feira da Ascensão, feriado:

"560 Só à superfície de quem é superficial, já o disse, a alegria e a tristeza se distinguem. Porque na profundidade de nós elas confundem-se. Mas a sua manifestação pode diversificar-se em riso e em amargura. O riso é a forma de termos mais em conta os outros. A amargura, o modo de nos termos mais em conta a nós."

Vergílio Ferreira, Pensar, Lisboa, Bertrand, 1992.

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

As mulheres na aldeia (ou na vila, já agora)


Luísa Dacosta - A-Ver-O-Mar : Morrer a Ocidente. Póvoa de Varzim : Câmara Municipal : Edições Asa, 2001.
Notas: Com um ensaio de Maria Alzira Seixo: "Eu fui ao mar às laranjas"
Direcção gráfica de Armando Alves
Desenhos Armando Alves e Jorge Pinheiro
Caixa com 3 livros

As Crónicas de Luísa Dacosta, A-Ver-o-Mar e Morrer a Ocidente, bem como o livro de poemas A Maresia e o Sargaço dos Dias, mostram-nos a comunidade piscatória de A-Ver-o-Mar, no concelho da Póvoa do Varzim, que a narradora visita sazonalmente, ao longo de vários anos, até ao doloroso adeus. Esta mulher, culta e solitária, estabelece laços de amizade com vários habitantes daquele lugar, especialmente com as mulheres, as crianças e os velhos, aos quais dá voz, conforme esclarece numa longa entrevista dada a Isabel Ferreira:

"- Uma das coisas mais gratificantes para mim foi poder dar voz a essas mulheres, que não a teriam tido, se alguém não estivesse disposto a registá-la. Claro que não foram só as vozes das mulheres, há outras vozes importantes, algumas masculinas, como o caso do Serrinha, e até do Gueral, que era um homem mais letrado: tinha Garrett na peniqueira... Foi igualmente gratificante (e talvez por isso pense que não tem importância escrever muitos livros) escrever A-Ver-o-Mar, Morrer a Ocidente e Maresia e o Sargaço dos Dias. Ainda que tivesse só escrito essas três obras, isso bastava. Não quer dizer que bastasse para que ficasse nas letras, mas bastava-me a mim como consolação, por ter sido capaz (não quer dizer que eu tenha conseguido inteiramente) de dar maior vivaciadde, maior veracidade também, à vida daquelas mulheres. E acho que é um conhecimento que não se perde, porque quando se quiser fazer a história das mulheres portuguesas, mesmo ainda no final do século XX, as mulheres de A-Ver-oMar têm qualquer coisa a dizer." (Isabel A. Ferreira, Luísa Dacosta: "no sonho a liberdade", 2006)

Ainda a propósito desta relação com aquelas gentes marítimas, a escritora refere, noutro lugar, os "tabus sexuais" impeditivos de prolongadas conversas com os homens, com excepção dos velhos, que, pela sua condição, "ganhavam um estatuto, quase mulheril, fazendo mesmo certos trabalhos, geralmente reservados às mulheres"  (Luísa Dacosta, "Autobiografia: Ego, alter-egos e outras alteridades na minha obra" in Escrever a vida, verdade e ficção - Act 16 -, 2008).

A obra desta escritora e os livros mencionados, em particular, são excelentes do ponto de vista literário e, naturalmente, não tratam apenas de questões de género (como as citações recorrentes neste blogue o evidenciam),  e mesmo estas têm uma representação mais complexa do que este breve apontamento sugere. Todavia, estas leituras são hoje um ponto de partida para uma reflexão sobre os papéis das mulheres nas comunidades rurais e para a recepção que uma forasteira pode ter nesse espaço social. A mulher que visita a aldeia nortenha cria ninho entre as gentes, pese embora a diferença socio-cultural, isto porque o respeito e a estima mútuos são uma constante, não sendo indiferente para esta convivência o reconhecimento e a aceitação das restrições sexuais locais.
Que condicionamentos são estes? Que papéis estão reservados às mulheres? Naquela comunidade, ou noutras marcadas pela ordem patriarcal, comum a toda a sociedade portuguesa, mas muito acentuada nos meios pequenos, mesmo no século XXI, são os mais conhecidos: mãe, esposa, monja, meretriz. Estará esta leitora a olhar preconceituosamente para a realidade? Estará a ler Luísa Dacosta de forma pouco rigorosa, é certo, mas não crê tresler a rusticidade lusa. De facto, basta ler, ver, ouvir, estar atenta, que logo as palavras e as histórias brotam, sem freio. O trabalho feminino é ainda menosprezado, o poder que eventualmente algumas senhoras adquiram tem ainda de se mascarar, a palavra feminil é ainda recebida com escárnio ou condescendência, o comportamento sexual é ainda marcante para o respeito que uma mulher possa ter ou deixar de ter. Talvez, excepcionalmente, a sua presença e a sua voz sejam aceites na ágora; porém, nesse caso, exigem-lhe a evidência da castidade. Se ela for uma forasteira, investida de poder, usufruirá de alguma tolerância: perdoar-lhe-ão a visitação de um seu semelhante, igualmente extra-terrestre, quiçá uma representação do santo espírito, um terráqueo é que nunca, e muito menos se for ave de capoeira local. São regras, são excepções, o código é que é sempre o mesmo. "É a vida.", assim dizia o homem das boas palavras.

Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

Tristão e Isolda

G. considera MC mais adequado às «Massas» e a leitora não pode deixar de concordar, embora lhe custe. Transige na clareza da luta de classes, bem como na inequívoca «verdade» do amor, sem dúvidas, sem culpa, sem sombra de remorso ou amargura... tão longe desse extraordinário mito que ilumina os amores no Ocidente: o romance de Tristão e Isolda.

A narrativa de Bédier inicia-se assim:

"Quereis ouvir, senhores, um belo conto de amor e de morte? É de Tristão e Isolda, a rainha. Ouvi como em alegria plena e em grande aflição eles se amaram, depois morreram no mesmo dia, ele por ela, ela por ele."

Joseph Bédier, O Romance de Tristão e Isolda, S. Paulo, Martins Fortes, 1998 (trad. Luís Cláudio de Castro e Costa).

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

Leituras obrigatórias

Até 2004, os professores do ensino secundário podiam escolher o romance do século XX que leriam com os seus alunos; esta escolha não era completamente livre, uma vez que tinha de ser consensual na escola, para além de estar limitada às obras indicados no programa, mas, ainda assim, havia alguma abertura. Não me lembro de todos os títulos, somente daquele que leccionei mais vezes - Aparição, de Vergílio Ferreira - e daquele que muitas escolas preferiam e que agora é de leitura obrigatória para todos. O Prémio Nobel atribuído a um escritor português veio, afinal, impor o elogio do mesmo, em vez de promover o gosto do diverso.

Deixo aqui uma passagem desse grande romance que é Aparição, cujo protagonista é Alberto, um jovem professor que se conhece a si mesmo, na nova cidade onde foi "colocado", Évora, através do convívio com as pessoas com as quais se cruza, especialmente as irmãs Moura: Ana, Sofia e Cristina. De todas, destaco a primeira, porque é a minha preferida  e porque o "folhetim" que ainda agora começou em Um jeito manso tem como protagonista uma outra misteriosa Ana.


"E contou, contou largamente, mas como um estranho, os silêncios de Ana, as horas sem fim à janela da pensão, suspensa dos horizontes de neve, os passeios solitários pela estrada entre pinheiros (não queria que o marido a acompanhasse «e eu, é claro, submeto-me sempre às suas ordens»). Depois foram para a Rocha, mas sem passarem por Lisboa nem por Évora. Aí recomeçou a sua meditação. Vagueava pela praia, às vezes mesmo de noite, sentava-se nas falésias, ouvindo o mar. «Eu dizia-lhe: - Aninhas, não precisas de nada? Sentes-te doente? E ela só me respondia: - Deixa-me.»
- Até que apareceu o Chico. Tinha ido ao Algarve em serviço e passou pela Rocha. Mas desta vez achou-se ao engano: a Aninhas mandou-o bugiar.
Olhei o bom Alfredo: ria largamente com o seu riso oco, como de um desdentado, a bochechinha vermelha. Tenho a certeza de que jamais Chico interessou a Ana. Alfredo sabia-o possivelmente também. Mas uma hipótese contrária parecia dar-lhe prazer - o velho prazer da humilhação. Mas teria Chico ilusões? Talvez: Alfredo era um convite a isso, até porque parecia admiti-lo e quase aceitá-lo. Mas tu, Ana, eras tão grande, tão bela na tua vigorosa afirmação, que é estranho ter Chico imaginado sobre ti o que não eras. Chico? Não o terei eu imaginado, não bem, embora, sob a forma de «traição» da tua parte, mas de uma forma clara e humana de «comunhão» comigo?
Era evidente que Ana sofria de uma «crise». Gostava de estar com ela, Ana sabe as palavras do abismo..."


Vergílio Ferreira, Aparição, Lisboa, Bertrand, 1996 (1ª ed. 1959).