quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Férias (fim)

Últimas leituras?

É o reencontro com a literatura norte-americana (gosto tanto, tanto), a revisitação de Adriano Moreira e do seu lúcido pensamento, que transporta esperança, por fim, uma passagem por Herman Hesse. Por agora, fico com  Philip Roth, A Mancha Humana.




domingo, 21 de agosto de 2016

Regresso a casa

Vista panorâmica da exposição "As casas na coleção do CAM",
no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Vista não panorâmica de uma casa portuguesa.

domingo, 14 de agosto de 2016

Excelente - Lucia Berlin


Primeira leitura de férias - Lucia Berlin. Excelente.

Stephen Emersen reuniu neste volume os melhores contos (short stories) de Lucia Berlin; são textos de extensão variável, mas geralmente curtos, inesperados e empolgantes, de uma grande vivacidade e riqueza humana.
Lucia Berlin, Manual para mulheres da limpeza,
Lisboa, Alfaguara, 2016.
Aos olhos do leitor passam inúmeras personagens e situações, que revelam não só o sudoeste americano, com a sua diversidade cultural, mas também a massa humana que, de costa  a costa, se desloca de autocarro, atravessa as ruas em velhos automóveis, ou prefere deixar o porsche na garagem e deslocar-se a pé para aquela visita ao bairro pobre. Todos se movem entre preconceitos, violência, sofrimento, amor e alegrias; não se pense, todavia, que é um livro trágico, a tragédia está presente, mas a capacidade de rir e de sobreviver da narradora e de muitas personagens atenua o peso que algumas situações poderiam tornar insuportável - a morte da jovem que faz um aborto clandestino, as violações e os abusos, a morte de Jesus, o alcoolismo, por exemplo. A capacidade para arranjar e aceitar novos empregos, tão diversos como fazer limpezas, ser rececionista, enfermeira ou professora, também ajudam a "dar a volta por cima". Será uma característica da sociedade americana, é uma característica da protagonista, que no último conto, "Voltar a casa", se manifesta assim: "O único motivo por que vivi tanto tempo foi ter largado o meu passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento e ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração e me cega os olhos de vergonha, parte chávenas e garrafas, derruba frascos e estilhaça janelas, faz-me tropeçar, ensanguentada, em açúcar entornado e em vidro partido, sufocando de pavor até que, num último estremecimento e soluço, fecho a porta pesada. Apanho os cacos uma vez mais." (pp. 508-509).
Ressalve-se, ainda, que estes contos têm uma grande unidade entre si, seja pela recorrência de personagens, seja pelo espaço físico e social, seja pela evolução de algumas situações, seja, principalmente, pela narradora/protagonista e pelo ponto de vista. O livro poderia mesmo ser lido como uma espécie de autobiografia romanceada em fragmentos, se é que a classificação quanto ao género é possível ou pertinente.

A ler. Recomendo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Eu sou o zé das couves

«Eu já não sou tropa viva - nem morta sequer: tenho aqui umas couves galegas que vou depenando para o caldo de todos os dias com que Deus ainda acode à gente. Em a décima mo levando... a décima e o quinto, e o subsídio literário (oh meu comandante, subsídio literário para esta gente que aborrece e persegue as letras!) e a câmara municipal, e o administrador do concelho, e os enjeitados, e a côngrua do pároco, e o cruzado para as estradas... Paciência, morrerei aqui a um canto, mas não lhes hei-de pedir nada a eles: hei-de seguir o nobre exemplo do meu comandante.»

Almeida Garrett, O Arco de Santana, Porto, Lello, s.d, p. 25.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Fugas

Aos amigos doentes

SAÚL DIAS

A alegria do poeta doente

O Poeta doente
escreve versos na enfermaria.

Mesmo na dor
a sua alma é contente
se uma rima fugace 
poalha de harmonia
um verso recortado...

(O que diria
quem o encontrasse
agora
a rir perdidamente?!...)

Perdido no oriente!...

tanta, tanta alegria!...


MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

Carreirismo

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua. 
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.


LUÍS MIGUEL NAVA

Teatro

Na selva dos meus órgãos, sobre a qual foi desde sempre a pele o firmamento, ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa, onde se vê o sangue a rebentar contra os rochedos.
Do inferno, aonde às vezes o sol vai buscar as chamas, sobre ele impiedosamente jorram os projectores.

Clara Crabbé Rocha (org), A caneta que escreve e a que prescreve: doença e medicina na literatura portuguesa - Antologia, Lisboa, Verbo, 2011.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A terra remexe




«A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco na profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atrás da outra, a reflorir.»

Raul Brandão, Húmus, Lisboa, Frenesi, 2000, p.41 (1ª ed.: 1917).

domingo, 8 de maio de 2016

She walks in poetry


She Walks in Beauty

Related Poem Content Details

She walks in beauty, like the night 
Of cloudless climes and starry skies; 
And all that’s best of dark and bright 
Meet in her aspect and her eyes; 
Thus mellowed to that tender light 
Which heaven to gaudy day denies. 

One shade the more, one ray the less, 
Had half impaired the nameless grace 
Which waves in every raven tress, 
Or softly lightens o’er her face; 
Where thoughts serenely sweet express, 
How pure, how dear their dwelling-place. 

And on that cheek, and o’er that brow, 
So soft, so calm, yet eloquent, 
The smiles that win, the tints that glow, 
But tell of days in goodness spent, 
A mind at peace with all below, 
A heart whose love is innocent!

Lord Byron

sábado, 7 de maio de 2016

Comecei a ler o romance Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes, e não consigo deixar de pensar na ilha de Böcklin, seja pela paisagem, seja pela ideia de exílio (a ilha de Santa Helena foi o lugar de exílio e morte de Napoleão), seja pela aproximação de Anna W., a protagonista que o narrador imagina "com a aparência, a voz e as maneiras da actriz sueca Alicia Vikander" (p. 19).

Arnold Böcklin, A ilha dos mortos, 1880.
Eis algumas referências a Santa Helena, para já muito informativas e sugestivas: 

"[...] Mas, como não sabe quase nada de Santa Helena, é-lhe impossível relacionar aquilo que vai sentindo com os sentimentos de todos os viajantes que a antecederam e deixaram disso registo escrito.
Anna W. sabe que a ilha foi descoberta pelo navegador português João da Nova em 1502, que os portugueses a utilizaram durante muito tempo como ponto de aguada ou reparações na viagem da Índia, e que o primeiro habitante de Santa Helena - e, ao mesmo tempo, o primeiro Robinson Crusoe da história da expansão europeia - foi um português, Fernão Lopes, cuja história extraordinária, contada por fontes portuguesas do século XVI, daria um filme esplêndido, assim houvesse um realizador com capacidade para enfrentar o horros e a solidão de algumas vidas, os seus momentos de alívio e desespero, a maldade e a bondade dos seres humanos.
[...]
Atente a leitora ainda em fontes de outro género: as imagens e gravuras datadas do final do século XVIII ou do princípio do século XIX. Existem dezenas de gravuras e desenhos de Santa Helena vista do mar. Têm um aspecto em comum, a representação da ilha como um conjunto de falésias como que mergulhada no oceano em diagonal, camadas e mais camadas de lajes de um tamanho sobre-humano, paralelas e inclinadas, separadas umas das outras por veios ou enclaves profundos e virados ao céu com a expressividade agressiva de uma dentadura de crocodilo."

Paulo Varela Gomes, Passos Perdidos, Lisboa, Tinta da China, 2016, pp. 22-24.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Café com letras: revista de literatura

Sempre atrasada, só agora consegui ler o primeiro número da revista Café com letras: revista de literatura (abril, 2016), surpreendente e oportuna publicação mensal. Estão de parabéns a sua diretora, Maria João Cantinho, e a equipa que com ela colabora. A revista não segue o Acordo Ortográfico de 1990.
Como o título e o subtítulo indicam, dedica-se às letras, à literatura, à crítica literária e à filosofia, incluindo nas suas páginas entrevistas, ensaios / recensões  e crónicas. O «dossier» do mês de abril é dedicado à «Literatura portuguesa e resistência». De todos os textos, destaco o excelente ensaio de Vítor Viçoso, «Ler hoje o neo-realismo português» e a entrevista a Manuel Gusmão (por Maria João Cantinho e João Oliveira Duarte). Relevo desta última o carácter dialógico da poesia e a sua inscrição no mundo: «Nós nascemos como um diálogo, ou seja, a capacidade da linguagem é em nós inata, estamos preparados para a linguagem e, por isso, a linguagem faz-nos e, ao fazer-nos, nada impede que aquilo que eu faço seja partilhável. E, nesse aspecto, se nós existimos nesta dupla condição de esperados sobre esta terra e de preparados para uma linguagem, como diz Benjamin, está encontrado o quadro para pensar a relação da poesia com o mundo.».


O número dois, de maio, já está nas bancas.