sábado, 19 de janeiro de 2019

Por onde andas?

Blogues de livros, blogues de pessoas amigas ou conhecidas... olho para esta matéria dos livros, e reparo na quase ausência em 2018. Por onde andei? Por que se esgotou ou adormeceu a veia diarística? Será a vida vivida, a dispersão por outras plataformas online? 
No campo profissional, multiplicam-se os sites, plataformas, redes, etc.; em casa, as plataformas continuam... 
Há uma saturação da imagem.
No outro dia, notava que, nos tempos de não trabalho, o afastamento de música gravada ou de imagens em ecrãs cada vez se acentua mais.
O ar dos tempos?...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Ler

Sem grande convicção, comecei a ler um livro sobre leitura: The reading zone. Foi uma surpresa; estou a gostar e a aprender. O livro apresenta um projeto escolar centrado na leitura e na formação de leitores "apaixonados, competentes, habituais e críticos". Claro está que, nesta escola, as práticas de leitura usuais se afastam do método analítico e do "New Criticism" ou do Estruturalismo. Em vez de responderem a questionários, os jovens escrevem cartas-ensaio, breves recensões, discutem, classificam, fundamentam, contextualizam e aprofundam as suas leituras e as ideias sugeridas pelos livros lidos. Inspirador.

Atwell & Atwell, The reading zone, New York, scholastic, 2016.


sábado, 7 de abril de 2018

Tristeza

Depois dos doces pascais, Luísa Dacosta e o gume afiado das suas palavras, belas, luminosas, incandescentes, cortantes...
Luísa DacostaLuísa Dacosta

«Não quero comprar nada. Preciso do dinheiro.» Para aquilo. Se ao menos lhe tivesse pedido ajuda! Mas não. Sozinha. Abandonada. E se morresse? Tudo aquilo lhe doía como um segundo parto, doloroso, frustrado, inútil. Mas não conseguia chorar. 

[...]

No silêncio dos seus olhos fechados percebeu os passos da mãe a encaminharem-se para ali. Ficou ainda mais quieta, esforçando-se para não pestanejar, resistindo à faixa de luz que inundava o quarto. Depois abriu devagar o canto de um olho. A mãe, de joelhos, tirava de baixo da cama da Adelaide uma bacia de toalhas ensanguentadas. Esquecida de continuar a fingir, olhava aterrada todo aquele sangue, quando a mãe se voltou:
- Que estás a ver?
Virou-se para a parede e abafou os soluços debaixo da roupa. Queria dormir. Queria dormir depressa. E, para espantar o medo e chamar o sono, pôs-se a repetir a conjugação reflexa que a professora marcara para o dia seguinte: «Eu lavo-me, tu lavas-te, ele lava-se, nós lavamo-nos...»

Luísa Dacosta, Vovó Ana, bisavó Filomena e eu, Porto, Figueirinhas, 1983.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Hino ao amor



Regresso, uma e outra vez, ao "Azul", um filme da minha vida.

Kieslowski e a maravilhosa Juliette Binoche. Para sempre, um filme, uma canção para a Europa, o rosto da mulher e um lustre azul. A face no espelho, paralisante, fascinante, inesquecível.



A canção final, em grego, adapta o capítulo 13 da 1ª Carta aos Coríntios, que aqui deixo na magnífica tradução de Frederico Lourenço:

"Se nas línguas dos humanos e dos anjos eu falar, mas amor não tenho, bronze ecoante ou címbalo ruidoso me tornei.
E se eu tiver profecia e souber todos os mistérios e todo o conhecimento; e se eu tiver toda a fé a ponto de mover montanhas, mas amor não tenho, nada sou.
E se eu transformar em comida <para os que têm fome> todos os meus bens e se eu entregar o meu corpo para que me vanglorie <da minha própria coragem>, mas amor não tenho, de nada eu sirvo.
O amor é paciente, prestante é o amor: não inveja, não fanfarrona, não se incha <de vaidade>;
não é indecoroso, não procura as coisas <que são do interesse> dele; não se irrita nem contabiliza o mal <que lhe é feito>;
não se alegra com a injustiça, mas alegra-se pela verdade.
Tudo aguenta, tudo confia, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca falha. Se <existem> profecias, elas serão anuladas. Se <existem> línguas, cessarão. Se <existe> conhecimento, será anulado.
Pois o nosso conhecimento é parcial e parcial é a nossa profecia.
Quando vier o perfeito, o parcial será anulado.
Quando eu era criança, falava como uma criança, pensava como uma criança, contava como uma criança. Mas quando me tornei homem, anulei as coisas da criança.
Pois nós vemos agora através de um espelho enigmaticamente; mas depois, <será> cara a cara. Agora conheço <as coisas> parcialmente; mas depois conhecerei na medida em que também eu fui conhecido.
O que fica agora é: fé, esperança, amor – estas três coisas. Mas destas a maior é o amor."

Frederico Lourenço. 2017. Bíblia. vol II - Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Lisboa: Quetzal


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

2077 - 10 Segundos Para o Futuro - Episódio 1 - RTP Play - RTP

2077 - 10 Segundos Para o Futuro - Episódio 1 - RTP Play - RTP

Um documentário muito interessante, com excelente qualidade.

Sinopse:
"Inteligência Artificial. Nanotecnologia. Fusão Homem/Máquina. Genética
Estamos no ponto de partida de uma mudança tecnológica exponencial. Nas próximas décadas viveremos a desmaterialização da tecnologia. Os computadores abandonarão as secretárias para se instalar nos olhos, nas paredes e em tudo o que nos rodeia. Os chips estarão integrados em praticamente tudo à nossa volta, transmitindo informação vital. A qualidade e a esperança média de vida aumentarão espantosamente e o envelhecimento será retardado. Teremos capacidade de escolher genes para os nossos filhos e criar novas formas de vida.
Em 2007, um smartphone tinha mais potência do que os computadores da NASA que levaram o homem à Lua em 1969. Em 2077 é provável que controlaremos os objetos à nossa volta através do pensamento. É unânime a opinião de que a revolução em curso é a maior e mais rápida de todas, com a interceção da genética, da nanotecnologia e da inteligência artificial. As consequências são inúmeras e transversais, com grande impacto na saúde.
No entanto, a ascensão da máquina lança desafios sem precedentes, até a possibilidade de extinção da própria Humanidade.
No ano em que a cadeia de televisão pública portuguesa comemora 60 anos, vamos à descoberta do Futuro, através de uma série documental de prestígio com 4 episódios: "2077 - 10 Segundos Para o Futuro". 
O Futuro a 60 anos. Em cada episódio contamos com um testemunho imaginário em 2077 e com as opiniões de grandes futuristas e cientistas internacionais sobre as grandes inovações e desafios que a Humanidade tem pela frente. 
Onde e como vamos estar daqui a 60 anos? As próximas décadas vão sofrer a maior e mais veloz transformação de sempre. Na tecnologia, na ciência, no ambiente, nas relações interpessoais. Vivemos numa espécie de grande acelerador de ciência, em que o ritmo das descobertas não pára de surpreender. Nas últimas décadas acumulou-se mais conhecimento científico do que em toda a história da Humanidade. Em 2077 esse conhecimento científico terá duplicado várias vezes. 
Vale a pena dar um salto ao Presente e perguntar: de que forma os nossos atos de hoje vão ter consequências no futuro? As nossas escolhas mudam o mundo."

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Últimas leituras de 2017, releituras em 2018

Conversas entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière conduzidas por Jean-Philippe de Tonnac: 

«As variações em torno do objecto livro não lhe modificaram a função, nem a sintaxe, há mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não se pode fazer melhor.» (Umberto Eco)

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. Não contem com o fim dos livros. Gradiva, 2017


João Lobo Antunes, "Ouvir com Outros Olhos":
"De todas as experiências que marcam a nossa jornada por este mundo, é a experiência da doença que nos ameaça a vida que grava incisão mais profunda na essência do que somos, na «fraternelle jointure» da alma e do corpo de que fala Montaigne. Não o faz com o gume de uma lâmina, mas como se um monstruoso insecto de múltiplos ferrões injectasse em nós, por cada um deles, um veneno diferente que ataca uma parte específica do todo."
João Lobo Antunes, "O consolo das Humanidades" In Ouvir com Outros Olhos, Lisboa, Gradiva, 2015, p. 35.