sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ervas daninhas

Ervas daninhas


Antes de morrer, o jardineiro compreendeu
quanto é inglório o esforço de erradicar
a desordem do mundo. Pela janela, viu
o canteiro pisado pelos cães, a sebe menos
simétrica, o musgo esverdeando a estátua,
o ancinho cedendo à ferrugem. Chamado
à pressa para a extrema-unção, o padre
nunca mais esqueceu aquela última frase.
"Afinal, as ervas mais formosas eram
as daninhas", disse. Ainda hoje a sua
campa parece uma pequema selva onde
nunca entraram sementes ou flores.


José Mário Silva, Nuvens & Labirintos, Gótica, 2001.

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