sábado, 31 de dezembro de 2011

Bom Ano de 2012!


A todos os leitores, desejo o melhor para o Ano Novo! (Mesmo que seja preciso muito sentido de humor, imaginação e capacidade de conciliação.)

Deixo-vos com um momento musical, a princípio, estranho, mas que, de repente, apetece.



Moonspell e Carminho

Um Abraço!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cafés

Com este tempo frio, e depois de um breve período em casa, como compete em pausa lectiva, apetece um café, mas não um café qualquer - um café de Steiner. Este maître à penser considera estes espaços um dos traços identitários da Europa, e apresenta-os de tal forma, que cria o desejo de sair da clausura doméstica e entrar nesse sedutor cronótopo. Leiamos, então, o que escreve:

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky."

George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2007, pp. 26-27.

Textos com esta densidade e clareza de ideias despertam a vontade de agir, de pegar nos livros dos autores citados e passar horas e horas em cafés estético-literários. Mas o que temos não é bem a mesma coisa, nem o tempo, nem o modo de vida...

Resta imaginar.

Correspondência

Terminada a leitura de:
António José Saraiva e Luísa Dacosta: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2011 (edição, prefácio e notas de Ernesto Rodrigues).
Este livro constitui o segundo volume do tríptico epistolar de António José Saraiva, tendo sido publicado já o livro António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2004 (selecção, edição, prefácio e notas de Leonor Curado Neves, com a colaboração de Ana Sequeira de Medeiros); o terceiro incluirá as cartas dirigidas a Teresa Rita Lopes. Assinale-se que, se o livro de 2004 reproduz algumas cartas de Óscar Lopes, ainda que em número reduzido, o de 2011 apresenta apenas as cartas de Saraiva, de 22 de Abril de 1961 a 20 de Dezembro de 1965, não sendo, assim, possível a recepção directa das palavras de Luísa Dacosta, continuamente evocadas. Explicação para esta omissão nunca é dada ao leitor, pelo que resta lamentar e esperar por uma eventual edição futura da correspondência de Luísa Dacosta.

As cartas agora lidas têm como vocativo “Minha Amiga”, o que desde logo mostra a relação que unia os dois intelectuais, relação de grande amizade e colaboração, como se evidencia a cada passo da leitura, seja através da discussão de ideias, seja pelas referências a pesquisas que Luísa Dacosta realizava em Portugal a pedido do seu amigo exilado em Paris, seja pelo constante reconhecimento do apoio moral e prático dado pela escritora.
Para além da matéria privada e particular, observam-se nestas cartas as impressões de Saraiva sobre política, literatura, política, filosofia, bem como considerações relativas aos seus trabalhos em curso. Também a crítica aos escritos de Luísa Dacosta publicados, especialmente às suas Notas de Leitura saídas n’O Comércio do Porto, surge em várias missivas, incentivando o intelectual exilado a sua Amiga a continuar. A referência à actividade literária da escritora é escassa, pois esta era igualmente escassa, no que respeita a obras publicadas (o seu primeiro livro, Província, data de 1955; o segundo, Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu, será editado em 1969), todavia citam-se, a propósito, estas passagens significativas: “E como vai a sua actividade literária? Continua a pensar no livro de contos de que em tempos falámos? Dê-me notícias a este respeito.” (p.96); “Agradeço que me tenha enviado (e que continue a enviar-me) a sua prosa de ficção. Creio que o seu caso é o de quem oscila entre o ensaio e a ficção pura, e lembro que a sua originalidade talvez esteja na possibilidade de reunir ambas as virtualidades num só texto. Estarei vendo bem? É por isso que eu a encorajaria a cultivar o modo «impressionista» que tanto me agrada nas suas críticas literárias. Não se deixe tentar pelo «raciocinantismo» (de que não consigo desembaraçar-me). Mantenha nos seus ensaios aquela frescura com que reage e o azul do mar, e até aquele género de prosa que não se embaraça com articulados.” (p. 130)

Esta correspondência constitui, então, um documento de uma época, com as suas vicissitudes políticas, económicas e sociais, estéticas, literárias e filosóficas, na Europa e em Portugal, em geral, e da mundividência do intelectual português exilado, naqueles anos sessenta do século XX. Traz mais um contributo para o retrato de uma geração. No entanto, não é este o único benefício da sua leitura; permite uma compreensão maior da obra de António José Saraiva e da sua personalidade, assim como um vislumbre do estilo e da personalidade de Luísa Dacosta. The last, but not the least,  as cartas agora publicadas revelam a importância da amizade e do diálogo fecundo entre os dois Amigos, como esta passagem deixa perceber: “O seu apoio, de você, Luísa, tem-me sido extraordinariamente bom e estimulante. Mas não maldiga nem lamente o tempo que tem gasto a escrever-me. Eu preciso de uma compreensão que vá além das ideias, porque, como digo ao Óscar, estas não são mais que um revestimento provisório, e que a gente deve sempre estar disposto a mudar de uma atitude vital, dentro da qual deve fazer-se a nossa coerência. Não calcula como lhe estou grato pela sua compreensão (que não quer dizer necessariamente concordância), para além da expressão ideológica de que me revisto.” (p. 96)

A fechar estas notas de leitura, destaque-se um apontamento de António José Saraiva sobre o seu tempo e o papel dos intelectuais na realidade então vivida, pela pertinência que parece ter para os depressivos tempos actuais: "A que ritmo bate o coração português? Sabíamo-lo em 1940; não o sabemos hoje. Tudo tem de ser repensado. E, por isso, talvez o dever mais urgente do intelectual português seja o de pensar seriamente a nova realidade, pensar asceticamente, sem concessões de oportunidade, sem considerações que não sejam as do próprio vigor do pensamento. A época é de transformação e desintegração, e, por isso, também de consciencialização de uma situação nova." (p. 91)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Oferecer livros



Vista aérea da Biblioteca de Alexandria 
(fotografia retirada do site oficial)

Em qualquer momento se oferecem livros, mas a época natalícia é especialmente indicada para se presentarem os amigos com estes fantásticos objectos. Todos os leitores o fazem.

Há leitores, todavia, que vão mais longe, e decidem dar os volumes que já não cabem nas suas estantes também às bibliotecas escolares. É um gesto de cultura e de amor aos livros que deve ser reconhecido, pois enriquece aquelas bibliotecas e os seus frequentadores, jovens leitores, a crescer, a abrir horizontes, a aprofundar raízes...

Hoje a generosa oferta foi de G.

Amanhã? Quem os lerá? Quem os multiplicará?

Lisboa, a bela



Hoje o passeio foi pela Baixa. A azáfama pelas ruas, pelas lojas já em saldos. Agradáveis as compras, a caminhada e, em especial, o almoço. À mesa com D.: os pratos lindos ("trouxinha" de bacalhau espiritual com salada a condizer, pão com salmão fumado em muitas e saborosas cores, óptima tarte de maçã com gelado, café e vinho, claro), boa a conversa, o espaço elegante, sem exageros. Bela tarde. Só Lisboa, com este sol de Inverno esplendoroso!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

É Natal


A todos os leitores deste blogue, um Feliz Natal e um Ano Novo cheinho de Alegria!



John Melhuish Strudwick,
Madonna and Child with attendant Angels


"- Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe em soluços:
- Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia e curta é a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança mumurou:
- Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
- Aqui estou."

Eça de Queirós, "Suave milagre" in Contos, Porto, Anagrama, s.d. (colecção Clássicos Anagrama- 22) 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Leituras em tempos contrários

De regresso aos bons livros

Início da leitura de um livro interessante e consolador, nestes tempos tão contrários a qualquer esperança, consolador pela inteligência, pela cultura e pela coerência de uma vida conturbada.

Mário Soares, Um político assume-se: ensaio autobiográfico, político e ideológico, Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011.

Do Prefácio:

"De momento, e no seguimento do último livro que publiquei, Elogio da Política, vou apenas descrever-vos o meu itinerário político e ideológico - que vale o que vale; pouco, provavelmente - sujeito às circunstâncias do lugar e do tempo, nesta terra que sempre amei apaixonadamente, Portugal. O mar, a terra, a História, as pessoas, nas suas qualidades e defeitos, a luz e as paisagens, tudo isso me influenciou. Para além dos grandes eventos nacionais e mundiais, que segui com atenção - e em alguns participei - e me marcaram, a língua portuguesa, a única que falo corretamente, e a importância da Lusofonia."

"É uma reflexão sobre esse longo e conturbado caminho, com altos e baixos, acertos e desacertos, vitórias e derrotas, ao serviço do Povo Português, a que me honro de pertencer, que vos ofereço neste livro: uma espécie de autobiografia política e ideológica, orientada por valores humanistas e princípios éticos e políticos, que nunca abandonei." 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Olhar de leitura


(Imagem retirada de A Livreira Anarquista)

Há textos que fazem bem ao ego das Leitoras, como este, encontrado no blogue O Jardim Assombrado:

Namora uma rapariga que lê

"Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)

[Este texto já tinha sido lido nesta sala.]

Um livro nunca acaba



(Retirado da internet)


sábado, 10 de dezembro de 2011

Keep young, beautiful and charming




Annie Lennox - excelente cantora, intérprete fantástica

out of Elsinore


Odilon Redon, Ophelie



"Queen: There is a willow grows askant the brook,
That shows his hoar leaves in the glassy stream,
Therewith fantastic garlands did she make
Of crow-flowers, nettles, daisies, and long purples
That liberal shepherds give a grosser name,
But our cold maids do dead men's fingers call them,
There on the pendent boughs her crownet weeds
Clamb'ring to hang, an envious sliver broke,
When down her weedy trophies and herself
Fell in the weeping brook. Her clothes spread wide,
And mermaid-like awhile they bore her up,
Which time she chanted snatches of old lauds,
As one incapable of her own distress,
Or like a creature native and indued
Unto that element. But long it could not be
Till that her garments, heavy with their drink,
Pulled the poor wretch from her melodious lay
To muddy death."


William Shakespeare, Hamlet: The Tragedy of Hamlet, Pince of Denmark, Cambridge, Cambridge University Press, 1980 (ed. John Dover Wilson).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

You are welcome to Elsinore

Mário Cesariny, grande, grande poeta!



you are welcome to elsinore


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte    violar-nos   tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores vevenosas    portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados,
e entre nós e as palvras, o nosso dever falar


Mário Cesariny, pena capital, Lisboa, Assírio e Alvim, 1982.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Diário de Maria Amélia II



Jacek Yerka, Boudoir


Vêm chegando, uma a uma, em pequenos grupos, todas envoltas nos seus cachecóis de lã, ora lisos, ora de múltiplas cores, nos seus sobretudos aprumados, nas suas calças de mulher ou saias de andar. Vêm chegando, na sua nuvem de perfume e cinzentismo. Vêm chegando e sentam-se a esmo, trocando dizeres, até que o burburinho se desvie para a sala combinada.
Aí, perfilam-se, canetas em riste, cadernos abertos, a prontidão para o apontamento, para a palavra conveniente. Como perder a necessária orientação para o movimento do espanador? Limpar o pó é uma tarefa assaz complexa e importante. Dela depende a harmonia da casa, o uniforme semear de ácaros, o competente brilho, o justo entendimento da escrita na areia, frases em letra de imprensa a duas colunas, o mistério a abrir-se. Mas nem só de poeira se faz a lida. É preciso compor as jarras com as flores que cada uma trará do seu jardim, assegurar que condizem com o lavrado do tapete, garantir que a natureza está no seu devido lugar e na medida certa, q.b. Ah! e as cores, não esquecer o cromatismo e o jogo de contrastes! E o ritmo? Como marcar o ritmo? Foi muito pertinente a intervenção. Máquina de costura, máquina de lavar, passos de chinelo, o crepitar das chamas, nada é esquecido, nada será deixado ao acaso. Até o cantar de galo e o carrinho de linhas têm o seu sítio exacto.
Só a pequena trupe esquipática destoa de tão concertado ambiente. Querem almofadas para espalhar suas cabeleiras, águas horizontais para licenciosos banhos, querem espelhos de fixar medusas e outras excentricidades. No entanto, seja qual for a sua vontade, a tarefa futura já lhes está destinada - contar os espinhos do cacto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Claridade

Para C.


Às vezes, reparamos no correr vivo e humano dos dias...
Se a cerrada névoa obscurecia tudo, hoje a ingenuidade e o movimento do aprender clarearam a paisagem. Fez-se sentir uma temperatura amena e boa.

Eis que surgem pedidos inesperados: a selecção de excertos do conto "O Homem", de Sophia de Mello Breyner Andresen. Aqui fica.

"A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana."

"Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. [...] No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.
Como contar o seu gesto?
Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta."

"Agora eu penso no que poderia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas."

"Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:
- Pai, Pai, por que me abandonaste?
Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começava a prova do último suplício: o silêncio de Deus."

"Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas."


Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Homem" in Contos Exemplares, Porto, Figueirinhas, 1991(24ª edição).


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Corpo Recusado - Magnífico livro (aqui, um excerto)

"Exercícios de Imaginação

- Tu, porquê tu?
- E por que não eu? Em que falto eu ao teu sonho?
- Em nada. Só que nunca imaginei haveres de ser tu a doer-me, nem que vinha de tão longe a tua ausência.
- Afinal não para um encontro...
- Bem o sei, contento-me em respirar-te, em saber-te, longe...
- Cada vez mais longe...
- Perto, cada vez mais perto, uma vez que de longe o sabemos.
- Desde sempre?
- Desde sempre...


[...]


- A tua boca sabe a laranja, é um fruto de mil sabores.
- É o teu desejo que tem mil papilas...
- Não, não, é a minha boca que só existe na tua. Só na tua se abre e se sente.
- Por isso sou a tua margem, sem ti não tenho inquietas marés.
- Um dia esquecer-me-ás...
- E como é possível perder um sonho, tecido dia-a-dia?
- O tempo se encarregará de destecê-lo... Um dia virá em que os teus dedos já não saberão o toque breve e frio da minha boca... Um dia virá em que não saberei mais a tua timidez, quase sem gestos... não saberei mais. Ter-te-ei perdido para sempre. Para sempre.
- E quando será esse quando?
- Ambos temos o poder da destruição, um de nós o fará nascer.
- Tu?
- Tu."

Luísa Dacosta, Corpo Recusado, Porto, Figueirinhas, 1985.

Queixa

Não é o frio do Inverno, não é o cansaço;
são os meus braços vazios, as veias exangues...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vozes amadas - da poesia trovadoresca aos cantares populares

O primeiro poema é uma cantiga de amigo, uma das mais belas; as quadras também cantam o amor e os seus perigos, e desafios, pois então!


Sedia-m'eu na ermida de San Simion
e cercaron-mi as ondas, que grandes son:
     eu atendend'o meu amigo,

     eu atendend'o meu amigo!

Estando na ermida ant'o altar,
(e) cercaron-mi as ondas grandes do mar:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi as ondas, que grandes son,
non ei (i) barqueiro, nen remador:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi as ondas do alto mar,
non ei (i) barqueiro, nen sei remar:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

Non ei i barqueiro, nen remador,
morrerei fremosa no mar maior:

      eu atendend'o meu amigo,
      eu atendend'o meu amigo!
    
Non ei (i) barqueiro, nen sei remar,
morrerei fremosa no alto mar:

      eu atendend'o meu amigo,
      eu atendend'o meu amigo!

Mendinho

Alexandre PInheiro Torres, Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, Porto, Lello & Irmãos Editores, 1987.



Estimo e estimarei,
sentada numa almofada,
a fiar continhas de ouro,
salta cá, minha esposada!


Uma quarta de sabão
pra lavar o coração.
Uma faquinha amarela
para cortar a goela.


O meu amor é José
e eu queria um Joaquim.
Com tanto home no mundo
algum há-de ser pra mim.


(Luísa Dacosta)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Diário de Maria Amélia


(Eduardo Mãos-de-Tesoura - imagem retirada da internet)


É tão bom rapaz, tão bonito! Aquele olhar carente, a necessitar da nossa ajuda. Sim, pois, só nós ambas e duas o podemos compreender, se o aguardamos de há tanto tempo, desde que, meninas ainda, bordávamos sonhos, às escondidas. Quem mais? Temos de ver o que está para além, sim, de considerar todo o contexto, para o ajudarmos a ter sucesso. Tão jovem, tão promissor, tão querido, basta-lhe o nosso auxílio generoso, é evidente. A ausência de diálogo, a escassez de afecto. Ai, coitadinho!

Diz-me, espelho meu, estou linda, não estou? Este corte fica-me mesmo bem, não fica? Sou mais bonita do que ela, não sou? Hã?... Vejam bem isto, quer uma pessoa ajudar, ser boa, e depois, zás, ISTO! 

[Foge, foge, Menino, que te querem matar!]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Alcachofras e exames

Estamos sempre a falar de exames. Que bom seria calarmo-nos todos, para lermos e aprendermos com gosto e de forma profunda. Ou então para saltarmos fogueiras e queimarmos alcachofras. Ainda se lembram?

(Imagem retirada da internet)


Não sendo possível fugir, nem a provas nem a outras provações, talvez as palavras de um escritor, que se diz de "um optimismo difícil", nos possam ajudar a calcorrear os dias com mais leveza:


"Pedi à Rosalia que cortasse algumas alcachofras para as queimarmos logo em boémia de S. João.
Tentativa de deixar alguma sedução do Passado ao Alexandre...

*
Já em Lisboa, a Maria põe entraves:
- Mas, Sr. Doutor: não há fogueira, para queimarmos as alcachofras.
- Não faz mal! Temos de acompanhar o progresso... Queimam-se no fogão de gás.
Para acompanhar outra evolução, o Alexandre, preocupado, propõe queimar a alcachofra que lhe compete, para saber se passará, ou não, no exame do 5º ano.
Protestamos todos em nome das nossas infâncias, quando o amor dependia de forças encantadas que arrancavam flores de espinhos.
- Que tem o amor com os exames, Alexandre?
(Os exames são só ódio.)"


"Sensação imprevista.
O ponto de exame de francês do 5º ano inclui um trecho da Enseada Amena do Abelaira, para verter para francês!
O Carlos:
- Os rapazes vão passar a odiá-lo, como odeiam o Camões e o Pessoa.
O Abelaira esfregava as mãos, de feliz:
- Que publicidade! Desta nem o Cardoso Pires se pode gabar!
[...]"

José Gomes Ferreira, Dias Comuns V: Continuação do Sol, Lisboa, D. Quixote, 2010 (Diário - 1 de Junho de 1968 a 22 de Setembro de 1968).

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

a palavra poética, poetas e tradutores


[Poema retirado da colecção Poetas em Mateus, resultante de um encontro de poetas -  "seminário de tradução colectiva", cujo princípio é simples: dois poetas estrangeiros são convidados da Fundação da Casa de Mateus durante cinco dias e, com eles, poetas e tradutores portugueses. O encontro realiza-se a partir da tradução colectiva de um conjunto de textos, cuja versão se publica, revista e, por vezes, completada por um dos participantes." (da contracapa)]

Poeta, dizem do apaixonado,
poeta dizem de quem chora ao anoitecer
e de manhã se levanta em desespero.
Mas também se diz poeta quem alegra,
quem sabe falar bem, beber, comer,
e o que canta as mulheres, poeta ainda,
a juventude extasiada.
Mas os que matam nos outros a poesia
fechada à chave, e os afogam
no grande livro da vida... paciência!
Não são poetas, homens de bem não são.
São massa informe, e pronto, e assim seja.

Franco Loi, Memória, Lisboa, Quetzal Editores, 1993 (tradução colectiva, revista e apresentada por António Osório - Mateus, Março de 1992).

Exercício escrito [com ruído]

DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA

Para a Beatriz Vieira



Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso di-
zer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira – lembro-me sempre da Benilde do
Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel – o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)

Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.


João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora – Segunda Parte, Lisboa, Presença, 1988.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ondas revoltas

Arrumando esquecidas gavetas, eis que se encontra este belo texto, uma entrada de um antigo diário (2006):


Há muitos anos, M. ...

 As ondas revoltas, Op. 46, Nº 1

Nicolai Rimsky-Korsakov

Texto de Alexei Tolstoi

 
As ondas revoltas rebentam tão alto. Os meus olhos ardem com a sua espuma salgada. Sentado, sozinho na praia selvagem e rochosa, sinto voltar toda a minha coragem. As ondas, no seu penoso fluxo e refluxo, as suas cristas correndo e espumando tempestuosamente. Oh! Oceano, terei que suportar sempre a derrota? Ou alcançarei a felicidade?
O meu coração parece pressenti-lo. A vida é tão bela e toda a minha dor foi por vós, ondas, afastada. A vossa paixão tempestuosa fundiu-se com a minha. Amanhã encontrarei o meu amor.
 
...

[Do registo musical não há vestígio; nem na internet se encontrou uma versão grátis. Alguém tem por aí, à mão, um link para que possa completar esta lembrança?]

Generosa oferta de -pirata-vermelho-, estas duas ligações:

- Youtube


- Classical Archives.

sábado, 19 de novembro de 2011

Espelhos repentinos

"Uma gata no Ginjal"
(Fotografia da autora de Um jeito manso)


As pessoas são deveras cativantes e ainda mais. Vamos pela rua, entregues aos nossos pensamentos centrípetos, quando de repente, não mais que de repente, somos despertados, quase absorvidos, por um súbito olhar, que (se) nos revela. A face reflecte a alegria, a cintilação da simpatia... os olhos abrem-se ao susto da luz, que brilha no cinzento outonal e fixa o instante...
Depois, são correrias ao longo de incertas paredes musgosas, danças de esconde-esconde, dizeres de faz-de-conta. Até que
                                                             Até que um vulto se perde na distância, orelhas baixas, olhos de névoa e fechamento.
Caiu em si e na sua condição, regressa a habituais andamentos, procura espelhos outros? Como sabê-lo, se tudo é ausência e cerração?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

poesia 61 - a voz dos poetas

Hoje, a ouvir Gastão Cruz e Casimiro de Brito sobre a poesia 61, e a lembrar tantos poemas lidos com tanto gosto!

poesia 61: Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta.

O primeiro encontro, em 91 - Gastão Cruz, As Leis do Caos:

I'm far from being a pessimist. I see life
as a gorgeously-ironical, beautifully-indifferent,
splendidly suffering bit of chaos.

Eugene O'Neill (carta; 1923)

[Epígrafe do livro]


O ADJECTIVO

Na superfície o adjectivo brilha
O seu rosto reflecte a luz do dia
e cobre os nomes com um céu proibido


Gastão Cruz, As Leis do Caos, Lisboa, Assírio e Alvim, 1990.

sábado, 12 de novembro de 2011

Olhai e vede como se estivésseis presentes

Hipotipose

Uma das mais belas figuras de estilo, ontem relembrada. O E-Dicionário de Termos Literários (Carlos Ceia) define-a assim:

"Descrição entusiástica, dinâmica e animada de uma pessoa, coisa ou acção, em regra ausente no momento da descrição, mas cuja presença é assumida de forma fantástica. Quintiliano prefere designar esta figura como ilustração vívida (Institutio Oratoria, IX, ii, 40-44), atribuindo a Celso a designação grega, que traduziria qualquer representação enérgica de factos, de tal forma que se criaria uma ilusão óptica de realidade. [...]"

Sonho

Com confiança na linguagem e na sua capacidade de nos tornar presentes mundos oníricos, voemos para lá da noite, na companhia de um belo pássaro lunar e destas palavras mágicas:

"Magicamente, o pássaro transformou-se. Deviam ser assim  as aves do paraíso. Eram com certeza. O corpo lunar recolhia, agora, todos os reflexos da luz da manhã clara e devolvia-os numa brita lantejoulada, de arco-íris. E a menina pôs-se a amá-lo tanto que sempre que o seu coração anoitecia entrava no corpo luarento e espelhado e voava pela janela.

Que estranhas eram as noites! E que bom era voar! Não havia limites: tudo era amplo, liberto, sem fim. Espaços ora sombrios e nevoentos, ora floridos de estrelas, sucediam-se num deslumbramento. Aos pontos luminosos da noite, respondiam outros pontos, luminosos, na Terra. Eram as casas, os navios, as cidades dos homens que, vistas assim de cima, pareciam enormes teias de aranha, preciosamente orvalhadas. Os faróis dos carros, os comboios riscando as trevas, semelhavam estrelas cadentes. E a menina aventurava-se cada vez mais e mais. Subia e respirava aquela liberdade única: a do sonho."


Luísa Dacosta, Menina Coração de Pássaro, Porto, Asa, 2002.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.

Chegou a casa acompanhada de um tom desarmonioso. A crise lá fora, o desconforto dentro da sua alma, um gosto amargo a quotidiano a rasgar a boca. Mas, felizmente, há palavras que oferecem bálsamos - as sugestões e partilhas de Um jeito manso, a vivência da poesia, alma e corpo, duas faces da mesma vida.

Foi assim que se lembrou de Maria do Rosário Pedreira e das mais belas palavras: casa, livros, perfume, amante, silêncio, noite, aves, corpo, genciana, flor de laranjeira, o teu nome suave, voo...


A Clean Miss
(imagem retirada de aqui)



Contam que as sombras permanecem agora mais tempo sobre
as dunas e que a flor de laranjeira rebentou pelos caminhos,
encantando as viagens; que os morangos crescem, se os dedos
se aproximam, e que já se ouve, ao longe, um rumor de asas
contrário a qualquer vento. Falam de um perfume estranho
que paira pela cidade e das palavras soltas que os rapazes
andaram a escrever pelos muros em segredo. E eu não sei nada

disto que me contam, nem me aquece a luz quente que,
como dizem, afaga de manhã os ombros de quem passa e vai
a outro lugar sentir o mesmo lume. E eu também já não sinto

a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite
à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-me
dos gatos. Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.


Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros, Lisboa, Gótica, 2002.

domingo, 6 de novembro de 2011

Sagesse

Há momentos, a fechar o Câmara Clara, foram mais ou menos estas as palavras de Rui-Mário Gonçalves:

"Os artistas são muito generosos, porque se exprimem, e ao exprimirem-se dão-se, entregam-se. Nós só os entendemos se nos entregarmos também."


Fugas

Enquanto ela se entrega a árdua tarefa, deixemos a leitora com os seus pequenos prazeres: Música.


Johann Sebastian Bach


[É tão antiquada, a nossa escola. Ainda e sempre as mesmas provas, quaisquer que sejam as mudanças. Como há décadas, desconsiderando continuamente a vertente artística, esquecendo o tempo...]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Esplendor da Língua IX

O escuro, lá fora...


CREPUSCULAR

Ha no ambiente um murmurio de queixume,
De desejos d'amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madre-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exhalam pelo espaço
Tem deliquios de goso e de cançaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se spasmos, agonias d'ave,
Inaprehensiveis, minimas, serenas...

Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.


Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

Poesia...

 (Índios Comanches, EUA)

Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i nai ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná


Herberto Helder, "Magias", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

sábado, 29 de outubro de 2011

Luxo de imagens

O coração persiste em ler. Desta vez, Maria Gabriela Llansol, um excerto de diário:



"Maredret
Reflexão para um casal demasiadamente poderoso

Esta relativa tristeza é uma tristeza de separação. Não demasiadamente profunda, porque o porto está à vista como um tranquilizante quadro familiar. Sempre escrevi por não ter mais nada que fazer ou a quem amar sem o risco permanente de decepção. Ou talvez a escrita tenha sido sempre  causa, e não o efeito. Prefiro esta segunda hipótese. De qualquer modo, não é uma solidão como a anterior ao meu casamento. É uma solidão perfeitamente dominada, e sem culpabilidade. Embora persista como tristeza aliciante, propícia a que a escrita prossiga interminavelmente até ser amaldiçoada à hora da minha morte.
Impediu-me um outro casamento, verdadeiramente sexual. Foi uma porta aberta a toda a originalidade e a todas as minhas contradições e intensidades.
Hoje, por exemplo, escrevi como recurso - para ter um amante, uma casa habitada, um secreto secretário. Com ela, tenho sempre possibilidade de ir adiando a minha próxima loucura, a que poderia conduzir-me à segregação asilar definitiva.
Prefiro meditar a ser triste." (p. 44)


Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão: Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Matéria de estrelas

Na companhia das estrelas, e de Luísa Dacosta, vamos pedir um desejo:


"Somos matéria de estrelas, mas uma matéria dolorosa, capaz de sentir e de provocar dor. Tão desamparados! Tão sozinhos! É terrível que não possamos esmagar-nos ou colher-nos, que tenhamos de nos olhar neste silêncio martirizado de criaturas vivas e prisioneiras.
- Estrelas, minhas irmãs, aqueçam o meu coração no bafo do vosso fogo, não o deixem ao desabrigo da noite! E tu, estrelinha cadente, que te desprendeste como uma lágrima de luz, em frente à minha janela, bem podias satisfazer-me um desejo!"


Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1990.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Corpo suspenso

Fechar o dia de bem com a vida, embalada pelo rolar das ondas e pelas palavras de Luísa Dacosta:

"Umas mãos longas, frágeis e inquietas, como raízes fora de terra, arrastadas pelo vento corriam-lhe o rio do corpo. Devagar. Sentia-lhes não o peso, mas a fragilidade quase feminina. Enconchavam-se-lhe nos joelhos e faziam um parapeito, solto e aberto, à flor dos seios. Invenção ou desejo? Devagar recomeçavam. Devagar. A polpa quase liquefeita dos dedos, deslizava ao longo dos braços, das pernas, arrepiando-lhe a carne com um sopro, quente, vago, que bicava a ponta dos mamilos e entumescia o ninho do sexo. Que sugava, como boca sôfrega, todas as papilas da pele, chamando-as a uma sensação táctil, corrida, como que brincada e apenas lúdica.
Se abrisse os olhos tomaria consciência do espaço, do tempo, do lugar, das mãos. Obstinava-se, porém, na quietude dos olhos fechados, prolongando aquela sensação de ter o corpo suspenso sob uma lubrina de desejo. Nenhuma boca viria. A adolescência não seria reinventada. Não haveria promessas de pássaros e madrugada. Subjacente havia essa certeza. Demasiado consciente, tesoura lúcida, a cortar o fio do sonho.
Na cama apenas um corpo. Abria os olhos à manhã que clareava, que tornava mais caiado o branco das paredes e a fechava no búzio do quarto.
O rolar das ondas trazia até ali um choro do solidão."


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1980.

Não me consumas, toma o comprimido

... ou de como resistir aos chatos deste mundo, cada vez mais numerosos:






Grande António Variações!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

pequeno salto sentimental

Irene Lisboa

O poema de abertura de Um dia e outro dia... - Diário de uma mulher:

A água dos rios
costuma correr
tranquila e monotonamente.
Os dias da nossa vida
assim correm também.
Lá vem hoje,
e lá vem daqui a tempos,
um pequeno salto sentimental
que os perturba.
Mas a igualdade do seu curso
e a do curso dos rios
refaz-se sempre, teimosamente...
Como poderá um diário
deixar de ser monótono,
corrente
e vulgar?

Irene Lisboa, Um dia e outro dia.../Outono havias de vir - Poesia I, Lisboa, Presença, 1991.

domingo, 23 de outubro de 2011

Cavaleiro monge




Há anos, no curso nocturno, uma aluna cantou este poema de Fernando Pessoa; ecoou pela escola toda e, assim, a poesia esteve lá.


Do vale à montanha,
Da montanha  ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.
                                
                                 Fernando Pessoa

[Ler também o poema de Antero, "O Palácio da Ventura"]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

E agora, para mudar de registo - Joaquín Cortés

Escrever no ecrã III

Acabada a leitura de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

"Épilogue: 1999-2000"

Algumas ideias:

- A recepção na Web é, pode ser, íntima;
- O diário online levanta questões legais, nomeadamente de citação e de autoria;
- Estas questões são não apenas de direito, mas também morais, podendo justificar a autocensura, provocada tanto por timidez, como por respeito pelo outro; a autocensura também pode ocorrer no diário em papel, todavia, nessa forma de escrita a liberdade é maior;
- A escita no computador perde o traço, enquanto a escrita na Web perde a solidão;
- Contudo, na internet o grafismo e a personalização recuperam a singularidade de outro modo atribuída ao traço;
- Tanto a escrita no caderno como a escrita no ecrã revelam um ritmo interior;
- Conceito de intimidade em rede;
- Esta escrita liga-se, por vezes à doença; nesse caso, não se escreve a dor, mas sim a resistência à dor;
- Coexistência do gosto do secreto, ligado à vontade de autenticidade, e do desejo de ser lido por outrem;
- Hipertexto, índice [arquivo]: a releitura é un gesto natural do diarista, quer a escrita se faça em papel ou no ecrã;
- Manter um diário é construir-se na duração, mas demasiado diário pode "ossificar" a personalidade; são necessárias paragens;
- Diário - dialéctica do espaço e do tempo;
- Diário - libertação;
- Nome - questão importante: nome próprio, nome de família (menos), ocultação do nome, substituído por apelidos fantasiosos ou outras designações, que são como máscaras; criação de uma nova identidade;
- Desejo de popularidade, e não de celebridade - "le rêve est de se recruter un petit cercle d'amis, d'avoir son fan-club." (p. 411).

Algumas citações:

- "[...] il n'est pas naturel d'écrire sur un cahier. Du cahier à l'ordinateur, on perd l'écriture et la trace personnelle. Du cahier ou de l'ordinateur à Internet, on pert la solitude. En revanche, je ne l'ai pas assez remarqué, on récupère, à defaut de l'écriture, la trace personelle. Pas un journal que ressemble à un autre, sur Internet, chacun veut se singulariser par sa «charte graphique», ce qui m'a d'ailleurs agacé. Mais par ce biais revient quelque chose qui est de l'orde du corps... ou de la toilette..." (p. 384)

- "Ce souci de l'enchaînement des entrées entre elles, et de leurs modulations internes, je l'ai aussi quand j'écris mon journal intime. Ce n'est pas un artifice, ça se fait tout seul. C'est simplement écrire en se sentant accordé à un rythme intérieur." (p. 385)

- "Sur Internet, le journal enfin respire, il s'étend sur une chair longue, il reprend ses aises. Le fichier, comme la feuille volante, se prête à merveille à l'écriture du fragment. Le dossier, mieux que le cahier, à l'accumulation indéfinie. Et le site est un jardin avec allées, ronds-points et perspectives, qui transpose, sans le réduire, le temps dans l'espace." (p. 422)


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O tempo está estranho

... já de há muito... mas nos últimos dias... bizarro...

Que tempos são estes?

Leitora à chuva
Incrédula

(Imagem retirada de aqui)

Respirar

Um poema inspirador, para estes dias:


INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.

David Mourão-Ferreira, Obra Poética, Lisboa, Presença, 1997.

domingo, 16 de outubro de 2011

Escrever no ecrã II

Continuação da leitura de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

Já na segunda parte, "Voyage, 1999" Lejeune apresenta a sua experiência na Web - um diário de aprendizagem, em linha durante um mês. Deste, destaque para a entrada "samedi 30 octobre", em que se sistematizam algumas ideias e se iniciam as conclusões. Aqui, discutem-se duas tendências destes diários - crónica ou diário -, como se pode observar nos seguintes excertos:

1- "En gros il y a deux tendances opposées (mais parfois associées): la chronique d'humeur et le journal intime." (p. 233)

2- "La chronique d'humeur puise souvent dans les petits faits de la vie quotidienne, mais ce n'est qu'un prétexte. Cela tient du billet journalistique et de l'atelier d'écriture. Un se trouve un petit sujet chaque jour. Tendance générale plutôt libertaire. Ça va rebondir avec les courriers qu'on reçoit, opinions discutées, expériences partagées, etc." (p. 233)

3- "le journal intime, lui, est en géneral du genre factuel et systématique (emploi du temps) et parfois impudique ou indiscret" (p. 233)

4- "La chronique provoque a la discussion. Elle suppose un effort de composition, et très souvent la recherche d'un "ton" [...] On se fait une voix reconnaissable, un style plus ou moins marqué, on pousse sa personne au personnage." (p. 234)

5- "Le journal quête la sympathie. Il repose sur le laisser-aller, prenez-moi comme je suis, on veut intéresser par une peinture fidèle et détaillée de sa vie, et non séduire par le charme de sa conversation. La composition est plus lâche." (p. 234)

6- La chronique est souvent une sorte de flirt avec le journal intime, elle le frôle, elle le taquine, mais finalement l'évite, ou plutôt c'est lui qui se dérobe." (p. 234)

7- "Difficile de généraliser sur des chiffres si faibles, mais les chroniques semblent mieux survivre que les journaux intimes." (p. 235)

[Para outro dia, a leitura de "Épilogue, 1999-2000". Fica a interrogação: Que tendência segue este blogue? Crónica ou Diário?]

sábado, 15 de outubro de 2011

Às vezes é assim

Hoje, um dos mais belos poemas, um dos seus muito preferidos:

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Antero de Quental, Sonetos, Lisboa, Sá da Costa, 1984.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Desacordo

Acabada de chegar de uma sessão de esclarecimento sobre o novo acordo ortográfico.
O locutor, mui sabedor das regras de falar em público: a graçola inicial, warming, a referência ao lugar, o sumário do percurso, o suspense, o envolvimento do auditório, e as regras interactivas, com seu powerpoint, a conclusão, com nova graçola, a nuancezita semi-brejeira a fechar! Que lindo! O acordo ortográfico é lindo, as novas regras são muito mais simples, as excepções não têm explicação, o melhor é decorá-las. Para colmatar tanta lindeza só falta a facultatividade e a consagração pelo uso, que, em caso de dúvida, se resolve com o vocabulário publicado no dito site oficial, e o que faltar logo se verá.

Alguém saberá da necessidade do novo acordo ortográfico? E, já agora, dos seus custos? Haja paciência!