segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lendo, em dias de espera

Em dias de pausa pascal, lê pela primeira vez José Rentes de Carvalho - La Coca. Leitura agradável: o tráfico na aldeia,  as memórias de adolescência, um olhar amável e triste...

"Agora na torrezinha, deitado de costas na cama, embalado pelo bater das cordas de água que o vento atira contra as paredes, revivo esse tempo com a tolerância de quem tem uma vida atrás de si. [...] Nessa altura ri com os outros, sem me dar conta que a vida ao meu redor não tinha a moralidade nem a pureza que eu lhe atribuía.
Havia o mundo visível, calmo, mais ou menos harmonioso, cada um e cada coisa no seu lugar. Dos mundos subterrâneos conhecia eu o do contrabando, do qual pensava que servisse para satisfazer um real desejo de aventura e só acidentalmente tivesse a ver com lucro e ambição. Todo o resto me escapava. Ou talvez não. Talvez eu seja mais exacto, e mais sincero, se admitir que intencionalmente fechava os olhos, receando tudo o que pudesse perturbar o frágil equilibrio que aprendera a manter entre o meu corpo, o meu espírito e a minha imaginação. Uma ninharia poderia transtorná-la, uma palha poderia empurrar-me para os abismos cuja existência eu negava, e assim me comportava como o pior dos cegos: aquele que recusa ver.
Provavelmente residia aí também a causa de a todo o momento me refugiar nos livros, onde criara o universo da minha realidade, encarando o que me cercava como uma desagradável e maléfica ficção." (p. 157)

José Rentes de Carvalho, La Coca: Romance, Quetzal Editores, 2011.

Sem comentários:

Enviar um comentário