quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Esplendor da Língua II

Leituras de quando o sol regressa - Luísa Dacosta - entre memórias e afectos:

"1980
Janeiro, Matosinhos

Os malmequeres tinham os olhinhos abertos a furador e as pétalas de um cheio alto, minuciosamente, pespontado à volta. As rosas? De um coração de crivo, muito trabalhado, partia um recorte fino e sinuoso, preenchido a barras de cheio baixo que um ponto arrastado sublinhava. Nas folhas de pé cheio e bainhas assimétricas, o bordado era ainda mais requintado: uma trama axadrezada e ziguezagueante de pontos sobrepostos. Malmequeres e rosas formavam duas hastes entrelaçadas, como mãos que quisessem colher um rosto, e rodeavam um L - de Letícia? de Luz? de Luísa? A letra era almofadada e o crivo entalhava-se-lhe no corpo e na volta, que terminava em volutas, texturadas e nosinhos minúsculos. Uma bainha aberta, larga, geometrizada a bastidor, e quase musical, fazia-lhe uma moldura, nos cantos rematada por um florescer de pétalas, como que colhidas em frágil teia de aranha. 
Quando aquele bordado passasse para uma gaveta das filhas, sentiriam quanto era cheio de lágrimas represadas, de frustrações e anseios pisados? Talvez invejassem apenas aquele tempo de ritmo lento, não estilhaçado por empregos e transportes, em que havia tempo para bordar. Mas a ela, que tinha tentado preencher uma grande parte da vida, vazia e solitária, com palavras, o bordado tinha-a comovido sempre. Por causa daquele L premonitório? Por toda aquela beleza, quase clandestina, destinada  a passar de gaveta em gaveta? Por todo aquele trabalho que tinha enchido dias vazios?
Qual das mulheres da família o teria bordado? Tinha sido uma dessas mulheres educadas na resignação, disso tinha certeza. Mas qual? Todas sem força de arrostar sozinhas o julgamento de uma sociedade que as condenaria. Sem a coragem de abandonar os filhos a mãos mercenárias e sem o furor, ciumento, de Medeia para os matar, porque só isso seria capaz de ferir o coração que as abandonava e lhes traía o leito vazio, onde tinham dado à luz, bordavam. Longamente, bordavam a solidão. Com agulhas, minuciosas, que passavam lentas de um para o outro lado do bastidor, e pontos miúdos, rebatidos e afeiçoados com a  unha e o dedal, na clausura provinciana de longos dias e longas noites sem aconteceres, bordavam as horas, a ausência, a longa espera, o abandono, a traição, o desespero - o pensamento a oscilar entre o folhetim e o livro de orações. Mudamente, de lábios cerrados, bordavam a solidão com arte branca que mais encegueia o linho fresco do enxoval, onde tinham deixado a chaga rubra da sua virgindade, entregue. Durante horas, dias, noites, tinahm feito surgir aquela beleza no linho, que haviam sonhado toalha para o rosto amado, mesa florida de festa e lhes era sudário, em vida. Queridas vovós!"

Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005, pp. 248-49.

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