Dois poemas de Luísa Dacosta e uma pintura de Marc Chagall
Marc Chagall, Cântico dos Cânticos
O TU E O EU NA PAISAGEM
Não é o restolhar do vento.
É a tua lembrança
que se ergue em mim.
Não é a rosa do sol a esfolhar-se.
É a minha boca - sede e romã -
que sangra na tarde.
Não é a noite que desce.
É a sombra dos teus olhos
a fechar o horizonte.
NÃO FOI ESTE O TEMPO
Não foi este o tempo para o amor
e agora é tarde,
abandona-me o espírito da vida.
Deixo-te os meus lábios
e a frescura, salina, da minha boca
– anémona dos jardins submersos.
A linha de seda do meu corpo
para o teu cansaço.
A água das minhas mãos
– pétala e asa no teu rosto.
Lembra-te.
Fora do espaço, do tempo e da circunstancialidade,
com o meu silêncio, labiríntico e recôndito
– enigma a decifrar...
Espero-te.
E amar-te-ei, antropofagicamente, como promete a Língua,
já que o eu se abre para te acolher,
os meus braços, fechados em X,
sobre o teu ímpeto e o teu desejo.
Procura-me.
Luísa Dacosta, A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto, Edições Asa, 2002.

Sem comentários:
Enviar um comentário