sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dois excertos de poema

Noite fechada, já; no interior da casa lê-se Mário Cesariny de Vasconcelos:

"Saímos: seres usuais, gente-gente, olhos, narinas, bocas,
gente feliz gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas, varinas, caixeiros desempregados
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos mictórios para apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, realmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãi triste a aceitar dois bolos para a sua menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais."

"Não sou um proletário - vê-se logo
- mas odeio cordialmente a gataria
e quanto a crocodilos, nem os do Jardim Zoológico me atraem
quanto mais estes! - e aqui começa o embróglio..."

Mário Cesariny de Vasconcelos, Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, edição fac-similada, Fundação Cupertino de Miranda e Assírio e Alvim, 2008.

1 comentário:

  1. Lembra-te
    que todos os momentos
    que nos coroaram
    todas as estradas
    radiosas que abrimos
    irão achando sem fim
    seu ansioso lugar
    seu botão de florir
    o horizonte
    e que dessa procura
    extenuante e precisa
    não teremos sinal
    senão o de saber
    que irá por onde fomos
    um para o outro
    vividos

    Mário Cesariny

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