segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ekphrasis

A pintura e a poesia: Ana Marques Gastão e Paula Rego

Paula Rego, Looking Out, 1997


À Janela

A casa range por entre a espessura das lajes que lhe guardam
o segredo. Estou de fora no matizado verde das folhas em terra
cavada. No interior racionaliza-se o medo, no exterior bate o
vento no buraco de quem vai mas fica. Passa-se a minha vida
na descrição da mudez. Não precisarás mais de mim na inocência
intocada. Não te deixo, agora que sou especiaria tão mais quente
quanto o nosso viver descalço quer pisar. E escrevo na mutação
do punho, em toalha de linho espesso, na fracção do caos esfriado
sobre a mesa. Se eu soubesse qual a natureza do declive entre nós
morreria menos desta morte. Mal me movo no saibro breve de meu
contento. Sou a cela e sou o mundo, um devaneio mais ou menos
desenhado, corpo-claro doído no sentir de tua mão. Fico;
só porque se demora escasso teu amor ante mim. No jardim, de bico
urgente e obstinado, a ave despedaça-se, inerte, na solidão da tarde.

Ana Marques Gastão, Noeuds, éditions fédérop, Guardonne, 2007 (edição bilingue).

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