quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ekphrasis III

Ela também possui o livro, do qual não se acercava há muito tempo. Lá estava, a um canto da estante, aquela que tem portas de vidro e guarda os livros escolhidos, lá estava. Um poema, um dos pintores que mais a emocionam - "Os Noivos Voadores de Chagall".

Chagall, O Aniversário, 1915

OS NOIVOS VOADORES DE CHAGALL

como se escrevesse um poema pinto a mulher
que irrompe da plumagem azulínea do galo
por cima das pontes anoiteceu onde flutuam
o bode e os noivos lancei por terra barreiras
entre elementos e leis físicas
para que o meu país se tornasse mais real
mais próximo de mim quando no exílio pouso
os lábios nas cores da avelã ou das nozes e
fico com o sabor dela na boca

recordo assim a casa paterna em vitebsk os nevões
de s. petersburgo daquela criança no mercado
apanhando moedas atiradas ao tapete e a cabra triste
em equlíbrio - bailando - em cima do gargalo da garrafa
os músicos de acordeão e violino sob o clarão da lua
estes noivos que toda a minha vida esvoaçaram felizes
de pintura em pintura pelos nocturnos céus de paris

Al Berto, A Secreta Vida das Imagens, Lisboa, Contexto, 1991.

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