domingo, 8 de maio de 2011

Leituras dominicais

"Manhã de 25 de Abril, Outono cinza em São Paulo. Uma rua nos Jardins, bairro chique, prédios com grades, uma torre. Esta já era a morada de Lygia Fagundes Telles quando aquilo aconteceu, uma noite.
Foi a meio dos anos 90. Ela voltava do cinema a pé e sozinha. Seu grandíssimo amor, Paulo Emílio Sales Gomes, morrera havia muito. Inverno, ruas desertas, dois quarteirões para chegar a casa. Eis senão quando uma moto lhe rugiu pelas costas. Lygia teve medo de virar a cabeça, apressou o passo, ouvindo como o motoqueiro abrandava para a seguir. No último quarteirão começou a correr. Estava certa de que ia levar um tiro, mas pelo menos lutaria. Até que a moto a ultrapassou, parando em frente. Então, em vez do tiro, veio um grito:
- Eu te amo Lygia Fagundes Telles!
Um miúdo, cara escondida por um capacete.
- Eu te amo, Lygia! Eu te amo!
E com um rugido desapareceu.
Em casa, Lygia afundou-se numa poltrona a soluçar. Mas de repente viu naquele encontro o nó da escrita: medo e paixão. O motoqueiro era o seu leitor."

Alexandra Lucas Coelho (texto), "Lygia Fagundes Telles: Noite escura mais ela", Pública, 8/05/2011.

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