segunda-feira, 2 de maio de 2011

Olhares sobre a cidade

"Fins de Dezembro
S. Pedro de Alcântara


O vento de Dezembro varre as folhas e arrepia a superfície, verde, do lago. Ninguém nos bancos. Nem sequer um par de namorados. As pombas debicam o emparedado, na esperança de um grão esquecido. As árvores, já de ramos nus, vestem-se de asas, mudas, que não arrulham e lembram hieráticos, sinistros, papagaios para um filme de terror, a preto e branco.
Ouve-se cair a hora solitária do Carmo e o som esvai-se, largamente, na água clara do céu.
Em frente, a cidade ondula e como que respira na crueza da luz que treme nas manchas sobretudo claras, algumas recentes, sem a marca do tempo. O calcário ossificado de S. Vicente de Fora, o castelo, as ruínas do Carmo, cavername, ao léu, de um barco a apodrecer à vista de água, referenciam o velho dos telhados, o ocre, o verdete pombalino das janelas e varandas da Baixa, onde São Domingos já sem as implorações amordaçadas pela Inquisição, se perde, apenas antiga e recoberta de preces outras, quotidianas. A cidade respira e ondula. E a ondulação torna-se abrupta e mais nítida na colina muralhada do castelo que deixa cair os telhados ao rés do Tejo – onde a Sé faz uma espécie de portal de janela ao olhar que aí se apoia, antes de se abrir ao azul espraiado.
Dois navios fixam o longe, promessa feita de fumos esgarçados da Outra Banda.
Sozinha – uma mulher olha."

 
Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005.

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