domingo, 26 de junho de 2011

Fúlgidas tentações



Ela não resiste, e dá uma trincadela na redonda lua. Tudo porque lhe chegou um livro dionisíaco, lunar, maldito, editado por uma casa também propícia a adjectivos - Judith Teixeira, Poemas, & etc.

Poetisa respeitável, foi no seu tempo, e nas décadas seguintes, vilipendiada, rasurada das antologias e afastada de qualquer lugar público. Nasceu em Viseu, em 1880, morreu em Lisboa, em 1959. Só, diz-se. Escreveu três livros de poemas (Decadência - 1923, Castelo de Sombras - 1923, Nua: Poemas de Bizâncio - 1926) e um de novelas (Satânia - 1927); é dela a conferência De Mim (1926); em 1925 funda e dirige Europa, luxuosa revista de arte.

Sobre a sua escrita, pronunciou-se Maria Lúcia Dal Farra:
 "Seus poemas contêm um fundo decadentista com décor próprio de sedas, coxins, flores, tapeçarias, quadros, espelhos, fausto oriental, estofos, painéis, mármores, vitrais, enfim, um espaço de alcova, de intimidade, de fechamento, de calidez artificial, de fuga à luz e à natureza. Imperam nesse espaço rarefeito fantasias eróticas, tédio, narcisismos, máscaras, sentimentos bizarros e uma população excêntrica de ciganas, anões, estátuas, sultões, génios do mal, perversões, desejos confusos, taras, labirintos, sonhos - em fragmentos e dispersões. Filtra essa esquisita atmosfera a imagem do outro, apontando para uma dubiedade de género e para a sensação de emparedamento, próxima de Mário de Sá-Carneiro (a quem ela tanto admira)."
"[...] Judith Teixeira, o único nome feminino a integrar a vanguarda portuguesa - responde pela maldição de ter-se inscrito literariamente como mulher num ingrato tempo de marcada transição política, literária e moral."

in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (coord. Fernando Cabral Martins) Lisboa, Caminho, 2008.


Leiamos, então, três poemas da intrigante mulher vanguardista, dois poemas com o sol no horizonte, outro centrado na noite:


Minha Vida!

Tu estás doente meu amor, porquê?
Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus braços, mais ânsia, mais calor?

Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!

Se perdes a alegria, a minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!

Beijemo-nos, meu bem, ardentemente...
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!

Manhã de Outono nublada e fria
1925


Rosas Pálidas

Ó anémicas! Ó pálidas!
ausentou-se o sangue
das vossas veias delicadas...
Ó sombras vagas
duma vida exangue!
Ó virgens aladas!...

Nunca pôde encantar-me essa candura
da vossa serena brancura.
E jamais eu tive
um amplexo de amor
em que no meu peito
se esmagasse
a vossa carne de chorosa Madalena
sem gritos e sem cor...

Ó flébeis, doentias!
- O meu olhar procura a ardência
forte e colorida
das vossas irmãs
rubras e sadias!...
A vida é beijada pelo sol
e ungida pela dor!

Deixai que o sol fecunde o vosso seio...
e que o vento vos beije
em convulsões brutais,
em convulsões pagãs!
A luxúria, ó pálidas irmãs,
é a maior força da vida!
Sensualisai pois! a vossa carne
arrefecida...
Ó brancas, imaculadas!
Ó virgens inúteis
e decepadas...

Agosto - Sol. Meio-dia
1925


A Minha Colcha Encarnada


Perfumes estonteantes,
atiram-me embriagada
sobre os cetins roçagantes
da minha colcha encarnada!

Em espasmos delirantes,
numa posse insaciada -
rasgo as sedas provocantes
em que me sinto enrolada!

Tomo o cetim às mãos-cheias...
Sinto latejar as veias
na minha carne abrasada!

Torcem-me o corpo desejos...
mordendo o cetim com beijos
numa ânsia desgrenhada!

Noite de Dezembro - Horas de Febre
1922

Judith Teixeira, Poemas: Decadência, Castelo de Sombras, NVA, Conferência DE MIM, Lisboa, & etc, 1996. 

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