sexta-feira, 3 de junho de 2011

Num sinistro terceiro andar

Lê Ana Luísa Amaral, em vez de   ***


AS ANÓDINAS BOLAS DE SABÃO

Hoje, fiz bolas de sabão ao longo
da varanda, sem me importar do
tempo de crescer, sem me importar
de ter comprado instrumentos de tal.

Em criança, uma cana se bastava,
mas agora é o luxo embevecido:
cilindro colorido todo pronto,
com água preparada em detergente.

Munida de universo, fiz bolas de
uma transparência atroz, de um brilho
tão urgente como era a minha dor.
E ao longo da varanda, espalhei cor,

sabendo que rimar assim: o mais
fugaz: coisa desnecessária e
irrelevante. E ainda que encontrar
a bola certa em paciência adulta:

tarefa de uma imensa ambivalência.
Então, peguei sem calma no cilindro,
adicionei ao líquido sem perigo
de explodir: uma ligeira gota

do perfume que ponho de manhã.
E segredei-lhe um sonho a nitro-
glicerina. E deixei-o a sonhar ao
longo da varanda. Esperando que

amanhã: bombas de uma eficácia
nunca vista. Tão prontas a rimar
na minha rua.
                      Que eu moro num
sinistro e recuado terceiro andar -

Ana Luísa Amaral, Imagias, Lisboa, Gótica, 2002.

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