sábado, 23 de julho de 2011

Norte/Sul

Não se pode ligar a televisão, não se pode abrir um jornal, que a oposição norte/sul aí aparece, desbragada, acintosa, a destilar xenofobias, preconceitos culturais e cromáticos q.b. Não se suporta. Auscultando memórias, folheando livros amados, a leitora procura outros olhares sobre o diverso. O livro eleito intitula-se As Magias, de Herberto Helder, mas o seu paradeiro é incerto. Apesar disso, foi possível recuperar o poema desejado, que aqui se apresenta, com o intuito de lembrar outras possibilidades da diferença entre o Norte e o Sul.


- Figos -

(D. H. Lawrence)

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando no pendúculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida, desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo sá aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é uma fruta feminina.

Os italianos apelidam de figo os orgãos sexuais da fêmea:
A fenda,  o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.

O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.

Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.

Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre secreta.

Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules húmidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.

Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,*
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e íntima,
Fruta do mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando a alma.

Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.

O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.

Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura
Como uma  ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.

Assim também morrem as mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.
Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.

Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.

Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.

Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas ecarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?

*Requeijão.

Herberto Helder, "As Magias", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

2 comentários:

  1. Bom dia,

    O que eu gostei hoje de abrir o seu site e dar com este maravilhoso poema!

    Desconhecia-o e só posso estar-lhe grata pela sua divulgação. Gostaria de poder adjectivá-lo para justificar o quanto gostei de o ler mas acho preferível não me meter nisso, ficaria sempre muito aquém da impressão que ele me causou.

    Justamente há poucas horas escrevi um pequeno texto em que refiro a minha grande figueira, carregada como uma mulher grávida, e os seus belos figos que começam a amadurecer e de que eu tanto gosto.

    Caso queira ver:

    http://umjeitomanso.blogspot.com/2011/07/tapetes-ao-sol-e-minha-figueira-ja-com.html

    Acho que o tanto que eu gosto da minha figueira, que dá uma sombra fresca e cheirosa, e dos seus figos que, quando maduros, deitam um 'pingo de mel', casam perfeitamente com este poema que tão bem se lembrou de desencantar.

    Obrigada!

    PS: É, de facto, inesgotável e maravilhosa a matéria de que é feita os livros

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  2. Muito obrigada pelas suas palavras; servem de grande incentivo para continuar a partilhar leituras! Ainda bem que gostou, fico muito contente!
    Agradeço também o cabaz de figos, belo!

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