quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os limites do dinheiro

Após jornais diversos e muitos noticiários televisivos, apetece um gato branco...


Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
e vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto...
Penso que a questão é esta: a gente - certa gente - sai para a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória
 e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos!
Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com que ainda é possível pactuar -
vêm com tal desprêso esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a...
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou inteiramente o gato
mas de gato para cima - nem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira-se-me o estômago só de olhar para eles!
São creaturas, é verdade, calcule-se,
gente sensível e às vezes boa
mas tão recomplicada, tão bielo-cosida, tão ininteligível
que já conseguem chorar, com certa sinceridade,
lágrimas cem por cento hipócritas.


Mário Cesariny de Vasconcelos, Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, edição fac-similada, Fundação Cupertino de Miranda e Assírio e Alvim, 2008 (excerto).

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