quarta-feira, 13 de julho de 2011

A permanência dos mitos

Afrodite e Vénus - perspectivas

Sabemos da deusa que que era filha de Zeus e de Dione ou, então, que não nasceu da união do masculino e do feminino, mas apenas de Úrano, cujos orgãos sexuais, cortados por Crono, cairam no mar e a geraram. A etimologia reforça esta segunda tradição, pois a raiz do seu nome -  aphros - significa espuma. Sabemos também que esta divindade grega estava ligada à vegetação e aos jardins, pelo que os Romanos não tiveram dificuldade em associá-la a Vénus, deusa itálica próxima do mesmo mundo natural. A raiz do nome latino é uanah, que significa desejo. Deste modo, facilmente podemos concluir que a deusa (ou a reunião das duas divindades) traz consigo, desde cedo, a graça e a sedução, ingredientes importantes para a fertilidade e a continuidade da vida e que, portanto, se incluia no culto da fecundidade. Assim se compreende que as festas de Vénus, que se realizavam na Primavera, em Roma, incluissem banhos purificatórios e preparassem tanto para o casamento como para o acto sexual. Os episódios vividos por Afrodite reforçam a sua força amorosa e o valor tutelar que adquiriu na nossa memória: o casamento forçado com Hefesto, os amores vividos com Ares, Anquises e Adónis; ficaram igualmente célebres as cóleras e as maldições da deusa, bem como as terríveis consequências dos seus favores.

Aqui se fez  uma breve síntese da narrativa que podemos encontrar nos dicionários. Todavia quem é a deusa? Que atracção exerce sobre nós? O que mostra aos milhares de olhos que a procuram na clausura do museu? É o seu mistério que continua a seduzir-nos. É dentro de nós que os seus braços decepados regressam à plenitude do corpo. É dentro de nós que o esplendor da vida irrompe e floresce, com a promessa de completude e de reencontro, e, simultaneamente, com a certeza de que a navalha do tempo virá, para cortar a alegria pela raiz. Mas continuamos às voltas, de cabeça levantada, buscando o melhor ângulo.

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