domingo, 31 de julho de 2011

Vozes que fazem falta: Helena Carvalhão Buescu

No Público de hoje, lê-se um artigo da Professora Helena Carvalhão Buescu  sobre os exames nacionais e o ensino do Português, em que se salienta o essencial do desastre evidente. Transcrevem-se algumas passagens, para reflexão ou tomada de consciência:

"[...]
Ora, a realidade é esta: desde 2002 que (como demonstrou Maria do Carmo Vieira) o ensino do Português tem vindo consistentemente a diminuir e até a excluir a dimensão literária, para acentuar textos informativos e sobretudo técnicos, como abundantemente se sabe (e os pais, em particular, deviam saber). E, em vez de privilegiar o uso da língua, tem vindo a ganhar espaço uma estratégia que passa pelo incremento da metalinguagem, de forma absolutamente desproporcionada e sobretudo desadequada aos vários níveis de aprendizagem. [...]
Os resultados estão à vista de todos. A diminuição do ensino da literatura (e o correspondente facilitismo) tem trazido melhores resultados aos nossos alunos, senhora presidente da Associação de Professores de Português? Todos vêem que não. Há, pois, que deixar de manipular os resultados e os factos, há, pois, que ter a coragem de dizer que os últimos dez anos têm produzido piores alunos, com maiores deficiências ao nível da compreensão e da escrita e, por isso, com maiores dificuldades de pensamento. Isto significa em Português - o que, em Portugal, significa também em todas as outras disciplinas. E em todas as vertentes da vida como lugar de cidadania, de cultura e de arte.
[...]
Perguntei uma vez, torno a perguntar agora: que perfil queremos para os nossos filhos? Queremos apenas que saibam elaborar actas? Ou queremos que, ao serem confrontados com as alegrias e as dificuldades do saber pensar, possam estar à altura do futuro que para eles preparamos?
Não é dever do ensino básico e secundário preparar o difícil, para que cada um, em seu momento, possa "passar além da Taprobana"? Ah, pois é, Camões falou também para nós..."

Helena Carvalhão Buescu, "Há que deixar de manipular os resultados e os factos", Público, 31/07/2011

2 comentários:

  1. Na minha vida profissional recebo muitos mails e muitos relatórios de colaboradores e colegas.

    Ora já trabalho há tempo suficiente para me dar conta da triste evolução na qualidade da escrita, mesmo que se trate de uma escrita rudimentar. Cada vez está pior mas mesmo muito pior.

    Em actas ou power-points é frequente verem-se 'pérolas' como "para que possa-mos", "pudé-se" e, na oralidade, é banal ouvir-se "quaisqueres", "há-dem" - e apenas estou a falar de licenciados.

    Uma pessoa nem sabe como reagir face a tamanha impreparação. Presumo que grande parte deles ache que sou eu que não sei ler nem falar pois há reuniões em que a grande maioria é assim que fala.

    Literatura? Zero. Lêem facebooks uns dos outros, graçolas das que circulem na net, títulos de jornais, vá lá um ou outro artigo, geralmente os económicos, e depois, claro, o que circula na empresa, relatórios, etc. Geralmente papagueiam expressões que ouvem uns aos outros, expressões que nascem nas consultorias e que depois também são repetidas nos jornais.

    O seu contacto, presumo, seja com jovens da área das 'letras' pelo que imagino que nem sonhe com a indigência cultural que por aí vai.

    Eu digo muitas vezes que todos os cursos superiores, sejam quais forem, deveriam ter em permanência cadeiras ligadas à língua e à literatura portuguesa.

    Parto-me toda por dentro quando vejo que grande parte dos jovens não sabe nem falar, nem escrever - e o pior é que vão deixando de ser jovens sem aprenderem nada e, então, assistimos a pessoas com cargos já de responsabilidade a repetirem os mesmos atentados à cultura, à língua, à pátria (entenda-se o conceito de pátria sem a habitual conotação conservadora). Uma vergonha a que tantas vezes me tem custado assistir.

    Por isso, cara 'Leitora de Areia', o mal é pior, muito, muito pior do que talvez presuma.

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  2. Li o seu comentário com atenção e verifico que é, realmente, pior do que imaginava. Como não conheço o mundo empresarial (o meu contexto é o ensino secundário), pensava que aí a concorrência era grande e que para progredirem nas respectivas carreiras as pessoas, pelo menos as licenciadas, teriam não só de saber pensar, como também de saber ler e escrever. Afinal, nem actas sabem fazer...
    Mas... já agora, por que me surpreendo? Porquê pensar que os jovens aprenderiam a escrever e a valorizar a cultura, em geral, e a do seu país, em particular, mais tarde, à saída da universidade?
    Que tristeza!
    Talvez pessoas como a autora de Um jeito manso e do Ginjal possam dar o seu contributo para melhorar o universo dos iletrados que por aí andam! Continue, minha cara, a partilhar a sua cultura e inteligência, não só nos blogues, mas também na sua empresa, atrevo-me a pedir-lhe...

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