sábado, 10 de setembro de 2011

Amar os livros

Hoje lê-se um ensaio luminoso e esclarecedor de Paula Morão: "A leitura - Cidadãos e peso, obrigação e prazer". Um excerto:

"[...]
Na mesma direcção se situa o primeiro fragmento d' "O livro", a abrir A Invenção do dia claro, que Almada Negreiros publicou m 1921; sigamo-lo:

Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve certamente haver outras formas de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

Anote-se o carácter salvífico do livro e da leitura, espécie de condenação feliz, tarefa jubilosa de uma vida inteira. A livraria - e a biblioteca (acrescentamos nós) - configura-se como um limbo a caminho do paraíso: a multidão de livros salva ou condena, mas seja como for ocupa toda a duração de uma vida, como uma actividade constante. Para além da ironia deste fragmento, podemos vislumbrar aqui uma concepção de leitor, como aquele cujo percurso vital é marginado por livros da mais variada índole e de variegadas funções, desde a companhia à aprendizagem de um qualquer saber, desde a descoberta do Outro à confirmação do mundo que já se conhece e à abertura a mundos imaginários, ou a mundos outros, utópicos, com os quais os escritores e os artistas constroem alternativas ao real, sonhando-o diferente e melhor. Por isso são tão atraentes os livros de ficção que falam de mundos muito diversos daquele que nos é familiar - pense-se por exemplo no encanto das epopeias, dos heróis carismáticos com que sonhamos por neles nos reconhecermos; ou pense-se nos romances de aventuras passadas em cenários que temos de inventar e modelar diante dos nossos olhos universos que ultrapassam o que nos é familiar. Eis aqui, precisamente, uma das principais funções do livro e em especial da literatura (mas também do livro científico), a de estimular a imaginação, criando cada leitor, em suplemento ao que lê, figuras e cenários. Daí que muitas vezes seja decepcionante ver, em adaptações para cinema ou outras formas artísticas, as nossas personagens incarnadas por actores muito diferentes do que tínhamos imaginado - é este o Rei Artur?, é este o rosto de Heathcliff, de Orlando, de Camões, de D'Artagnan, de Guinevere, de Natacha Rostova, de Tadzio? É esta a figura de Carlos da Maia, é este o inspector Elias com seu lagarto Lizardo, é este Aquiles, é este Ulisses? É este o vulto de Pessoa, é esta a sua voz?
Cada um multiplicará os exemplos em função da sua enciclopédia e da sua memória pessoal. O que quero sugerir é que personagens e cenários como os que aqui evoco são parte do que o leitor-pessoa que eu sou se foi fazendo, ao longo dos anos que cada sujeito leva de amador de livros, neles criando mundo e se constituindo como ser pensante e como cidadão do mundo. Falo de um leitor que incorpora e faz seu um conjunto de personagens que vive como suas, que decorrem naturalmente da sua vida, a moldam e lhe dão sentido, surgindo nas suas frases como entes familiares. Falo de um leitor espesso, de um leitor com uma memória tecida de seres de papel e "das emoções linguísticas" (como lhes chama Gastão Cruz), falo, em suma, daquele leitor que nem tem consciência de carregar consigo e dentro de si uma tradição, uma linhagem que lhe definem o retrato bem desenhado. [...]"

[Nesta citação, omitiram-se as notas presentes no texto]

Paula Morão, "A Leitura - Cidadãos e pessoas, obrigação e prazer" in O Secreto e o Real: Ensaios sobre Literatura Portuguesa, Lisboa, Campo da Comunicação, 2011.

3 comentários:

  1. Vou à procura deste livro. Cada vez mais me interessa conhecer a relação das pessoas com os livros, com as palavras, com o conhecimento. Cada vez mais acho que nessa relação reside uma parte fundamental da matriz da cidadania.

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  2. excelente! mais uma citação e excerto para guardar! grato pela divulgação!

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  3. Um jeito manso, Zoninho,

    Este livro da Professora Paula Morão é mesmo muito bom, recolhe ensaios já publicados,quase todos, mas também tem inéditos. Para quem ama os livros, a leitura, a literatura portuguesa. Recomendo vivamente!

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