domingo, 11 de setembro de 2011

O Esplendor da língua VI

Constantin Brancusi, A Musa Adormecida (1910)


Hoje, ver e ver-se:

"Mulher diante do Espelho

[...] A vida retirava-se dela... Até o seu corpo a tinha abandonado, como um rio cujas nascentes se tivessem exaurido. Concha morta, onde a sua alma se debatia, agitadamente, como uma borboleta ou uma ave prisioneira, cega e exausta. O seu corpo! Tão de seda ainda... e já uma arquitectura de água, a esgarçar-se no vento. As faces não já de maçã de pardo lindo. Os lábios desmaiados, não fita de escarlate. Os mamilos dos seios sem a rijeza da cereja bical, frutos passados a emurchecer. O ventre outrora lago de águas lisas, pragueado, como se a pedrada do umbigo o enrugasse em ondinhas, sobrantes. O sexo não já ameixa, madura e sumarenta, o ninho negro e crespo a acinzar-se, a rarefazer-se. Só as pernas conservavam o desenho, firme, de colunas, mas nas junturas, e também nas dos braços, a pele fazia pequenas bolsas, como borracha de balão de menino, muito soprado. As mãos, ainda entre pétala e asa, manchadas já de flor de cemitério. Um corpo não apenas morto para o desejo, mas sem impulsos de vida e de exuberância que, antigamente, a faziam correr, escalar os cimos, para ganhar horizontes e amplidão, meter-se no rio ou no mar, como se a placenta da água a revigorasse, sacudindo-se como um cachorro feliz. Já não corria, andava apenas, ainda não arrastadamente, mas talvez em breve... Não dançava sozinha, não trauteava, súbito, uma melodia, o corpo cumpria somente funções vegatativas. Era, agora, apenas uma cabeça, uma cabeça-fruto, como a da musa adormecida de Brancusi, caída, sem corpo (finalmente sem corpo) fora do tempo. [...]

[...] Essa era a realidade que tinha diante dos olhos. Sem anestesia. E a do seu próprio rosto no espelho. Na esmaecida flacidez mate, só reconhecia o voo negro, como que desenhado a pincel, das sobrancelhas. Que difícil durar para além da beleza! Onde estava o rosto de sibila délfica que Miguel Ângelo tinha, premonitoriamente, fixado? Perdido. E para sempre, "porque toda a carne é como erva e toda a sua glória como flor d'erva, erva que seca e flor que cai".

 [Excertos do Prefácio]

Luísa Dacosta, O Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, Lisboa, Quimera, 2000. 

2 comentários:

  1. Outro excelente excerto, outro texto fantástico. Leio e fico presa, com vontade de gravar estas palavras dentro de mim.

    Outro livro que terei que procurar.

    Mas quando, Leitora, quando o tempo para ler todos os livros...?

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  2. É um texto esplendoroso, não é?
    O tempo é voraz, como resistir? Mergulhar e abandonar, por momentos, outras urgências?
    Na entrada acima deixo mais alguns excertos deste livro magnífico; talvez incandescente seja o adjectivo menos insuficiente para o classificar.

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