segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Esplendor da língua VII

Ainda ao espelho, outro momento...


"[...] E olhou-se longamente, o corpo lunar, ligado ainda a uma flexibilidade de junco – haste solitária na água do espelho. Apelando a quê? Aos desejos que aquele beijo tinha acendido e ela quisera que tivesse pertencido a outro, ao desconhecido, que se espera e fantasia, para libertá-la daqueles sopros de incesto? Ficaria a sua imagem presa no espelho? Quem a encontraria para lá do tempo? Quem para adivinhar o peso dos seus cabelos negros, presos nos ganchos de tartaruga? Aquela trança a cingir-lhe o rosto, como um diadema negro? O voo, inquieto, das sobrancelhas, desenhadas a pincel? Aquele luar de seda e camélia do seu corpo, quem viria sabê-lo?
[...]
Para além da janela, a noite eram braçadas de luz, de imensas constelações sem nome que não podia abarcar, embora desejasse incorporá-las a si. Fechou as portadas de madeira, tentando ensurdecer o perfume da laranjeira e, exausta, deitou-se sobre a cama. Desejava uns lábios que a percorressem, lhe bebessem a boca e o sexo, lhe fossem manto de ternura, sobre a pele. Desejava umas mãos que lhe desenhassem a linha do corpo, lhe corressem os flancos, quebrados, e a cingissem, fortes. Desejava um rosto que se lhe afogasse entre as magnólias dos seios, que a procurasse e lhe fizesse nascer pássaros no sangue e apagasse aquela violação do marido, que não a conhecera, lhe não soubera o corpo, que se cevara, brutal, no próprio desejo, saciando-se rapidamente e afastando-se dela, depois de lhe ter acendido anseios que agora não controlava. Sentia dentro de si uma pulsão, sequiosa, de água, a abrir-lhe a anémona do sexo em pétalas carnudas e vorazes, um desejo de potro jovem, incontentado, um sangue selvagem de astros que ceifavam a noite, a fogo...
O seu corpo nu era uma haste latejante, que se oferecia, caída na solidão de caminhos, que não viriam a ser cruzados.
Coração de romã, o desejo crepitava no silêncio e na ausência.

 [...] O silêncio parecia acumular-se como uma poeira sobre tudo, em camadas. Sentia-se afogada naquela quietude, como num mar, e os cabelos, que a trança cingia, era como se estivessem soltos e flutuassem na ausência de sons, algas numa corrente marinha. A sensação era tão opressiva como se fosse realmente a afogar-se, perder-se em águas insondadas, respirando pela última vez, sabendo-se a descer, impossivelmente, a uma profundidade irremediável que a ia submergir. Sentia que se afogava na própria solidão, ao mesmo tempo que um desejo, que espiava essa solidão, crescia dentro dela, tomando-a, desde a raiz do sexo à vibratilidade dos nervos."


Luísa Dacosta, O Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, Lisboa, Quimera, 2000, pp. 48-50 e 56.

Que beleza!
Mergulhar e ser feliz.

3 comentários:

  1. Uma coisa quase excessiva, daqueles em que quase consigo avançar na leitura, fico presa, agarrada às palavras.

    Andei na Fnac à procura deste e do outro, o da Paula Mourão, e não encontrei. Se calhar terei que encomendar ou ir à Bertrand. Espero que não sejam daqueles de edições pequenas que esgotam e azarinho para quem vem depois.

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  2. Fico muito contente que tenha gostado!

    Não é fácil encontar estes livros, não, mas não estão esgotados. Acabo de ver que estão disponíveis, por exemplo, em www.wook.pt.

    Boas leituras!

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  3. Tem graça que vejo muito este site e nunca me tinha lembrado de recorrer a ele para comprar livros. Habituei-me à Fnac e sou um verdadeiro animal (de hábitos, claro).

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