quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Corpo suspenso

Fechar o dia de bem com a vida, embalada pelo rolar das ondas e pelas palavras de Luísa Dacosta:

"Umas mãos longas, frágeis e inquietas, como raízes fora de terra, arrastadas pelo vento corriam-lhe o rio do corpo. Devagar. Sentia-lhes não o peso, mas a fragilidade quase feminina. Enconchavam-se-lhe nos joelhos e faziam um parapeito, solto e aberto, à flor dos seios. Invenção ou desejo? Devagar recomeçavam. Devagar. A polpa quase liquefeita dos dedos, deslizava ao longo dos braços, das pernas, arrepiando-lhe a carne com um sopro, quente, vago, que bicava a ponta dos mamilos e entumescia o ninho do sexo. Que sugava, como boca sôfrega, todas as papilas da pele, chamando-as a uma sensação táctil, corrida, como que brincada e apenas lúdica.
Se abrisse os olhos tomaria consciência do espaço, do tempo, do lugar, das mãos. Obstinava-se, porém, na quietude dos olhos fechados, prolongando aquela sensação de ter o corpo suspenso sob uma lubrina de desejo. Nenhuma boca viria. A adolescência não seria reinventada. Não haveria promessas de pássaros e madrugada. Subjacente havia essa certeza. Demasiado consciente, tesoura lúcida, a cortar o fio do sonho.
Na cama apenas um corpo. Abria os olhos à manhã que clareava, que tornava mais caiado o branco das paredes e a fechava no búzio do quarto.
O rolar das ondas trazia até ali um choro do solidão."


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1980.

4 comentários:

  1. Belíssimo texto. As mulheres escrevem textos assim, vindas de dentro do corpo - Luísa Dacosta, Gabriela Llansol, Clarice Lispector.

    Apetece ficar a olhar, decorar as palavras.

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  2. Ainda bem que gostou. É tão intensa a escrita destas mulheres. Clarice Lispector conheço menos, mas vou procurar alterar esta situação, até pelas referência que lhe tem feito.

    A força deste texto é, de facto, imensa. Sabe que suscitou algumas estranhas reacções, que me levaram a "temer" pela minha respeitabilidade ou pelo decoro deste blogue?!

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  3. Sabe, Leitora, são as pessoas capazes de suscitar reacções que são interessantes. A luísa Dacosta ao escrever, a Leitora ao divulgar - pessoas interessadas e interessantes.

    O corpo existe e tem voz e isso é natural e saudável. Ser capaz de nomear a voz do corpo não está ao alcance de todos, pelo que todo o mérito deve ser reconhecido a quem o consegue. Se ainda por cima, o sabe fazer com uma sensibilidade inteligente, com uma sábia escolha de palavras, então, é caso para festejar - jamais para condenar ou censurar.

    A respeitabilidade e o decoro que interessam são os da própria consciência e os do próprio carácter.

    De resto, que siga a carruagem porque sorte têm os que vão lá dentro.

    Continue, Leitora, com as suas excelentes escolhas, com os seus interessantes textos.

    E tenha um belo fim-de-semana. (com o AO já nem se deve escrever assim, com tanto hífen, não...?)

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  4. Muito obrigada pelas palavras de incentivo!

    A literatura continua a tocar o humano, digam o que disserem, mesmo os que percorrem outros caminhos... Ainda Bem! Vou seguir o seu conselho e prosseguir a divulgação das minhas leituras. (Até porque gosto de provocar reacções, se forem a bem do esplendor da língua e da grande literatura...)

    Bom fim-de-semana!

    (Parece que agora já não leva hífen. Já nem sei escrever! Abaixo o AO!!!!)

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