quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Diário íntimo - diário pessoal

Escrever no ecrã ou escrever no caderno...

A incumbência era a escrita do diário, com regularidade, em qualquer suporte, mas hoje foram introduzidas restrições: distinguir e problematizar a dicotomia público / privado e... escrever à mão!
Que estranheza! Enquanto as vozes soavam, a leitora reparou que há muito não escreve à mão. Antigamente, até ao ano de 2002, o mais íntimo, diário e cartas, pedia uma caneta ou um lápis e seguia o movimento da mão sobre a folha de papel, desenhava-se uma caligrafia ora trémula e hesitante, ora corrida e urgente... Significa esta alteração menos autenticidade? Por que aderiu a leitora tão facilmente à escrita no ecrã, com a sua formatação pré-definida? Talvez isso se deva àquela característica que José Cardoso Pires reconheceu ao computador: é uma máquina de apagar. O lápis, tão seu preferido, tem como correlato estas sombras que facilmente se emendam, se rasuram, se movem; mudaram os instrumentos, não se alterou a pulsão correctora. E depois, que bom é olhar para o escrito, limpinho, certinho, tão acabado e tão simples (na aparência), sem vestígios de dificuldade, essas cicatrizes que o grafite, por mais macio, sempre deixava.
Quanto ao secretismo e à sua oposta exposição, esta última característica do blogue, muito há a analisar. Desde logo, duvida-se que a oposição seja assim tão evidente. De facto, se o acesso público ao ecrã é inegável, isso não significa que não haja segredo. A leitora que aqui se mostra é uma representação, constituída por diversos fragmentos que a aproximam e, simultaneamente, a afastam daquela que manipula as teclas.
Não existem nomes próprios, dela ou dos seus conhecidos corpóreos? Não existem referências concretas ao curso dos dias, às suas horas e aos seus afazeres? Só uma parte da vida aqui se espelha? Mas se é a melhor parte! É o lado do sonho, da evasão, das amadas palavras, aquele que aqui se regista e procura. Não cabem neste lugar maledicências, notas mesquinhas ou desabafos verrinosos, tentativas vãs de escapar ao mal dos dias. Não quer conspurcar o seu diário com a usura do quotidiano e a náusea, com o medo, o maior veneno, ainda que aqui e ali toda a pequenez e toda a dor se manifestem, tingindo de escuro os fundos dos separadores...
Apesar de tudo, é evidente que o facto de a criatura saber que pode ser vista por qualquer um influencia a escrita. Será este diário menos íntimo do que outro que ficasse fechado na gaveta ou no ficheiro pessoal? Sim, por certo. A possibilidade de público também motiva a divulgação de textos de diferentes géneros, versando temas e motivos que, crê-se, poderão interessar a terceiros. O diálogo, concretizado através de comentários escritos ou de viva voz, institui outra diferença em relação a essas folhas escondidas no compartimento secreto, inacessíveis.
O blogue perde em intimidade, mas continua a ser pessoal. Há uma autoria, há uma identidade (já não diz um estilo; isso é que seria o supremo encanto!)

[A reflectir: diferença entre os conceitos de diário pessoal e diário íntimo]


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