sábado, 29 de outubro de 2011

Luxo de imagens

O coração persiste em ler. Desta vez, Maria Gabriela Llansol, um excerto de diário:



"Maredret
Reflexão para um casal demasiadamente poderoso

Esta relativa tristeza é uma tristeza de separação. Não demasiadamente profunda, porque o porto está à vista como um tranquilizante quadro familiar. Sempre escrevi por não ter mais nada que fazer ou a quem amar sem o risco permanente de decepção. Ou talvez a escrita tenha sido sempre  causa, e não o efeito. Prefiro esta segunda hipótese. De qualquer modo, não é uma solidão como a anterior ao meu casamento. É uma solidão perfeitamente dominada, e sem culpabilidade. Embora persista como tristeza aliciante, propícia a que a escrita prossiga interminavelmente até ser amaldiçoada à hora da minha morte.
Impediu-me um outro casamento, verdadeiramente sexual. Foi uma porta aberta a toda a originalidade e a todas as minhas contradições e intensidades.
Hoje, por exemplo, escrevi como recurso - para ter um amante, uma casa habitada, um secreto secretário. Com ela, tenho sempre possibilidade de ir adiando a minha próxima loucura, a que poderia conduzir-me à segregação asilar definitiva.
Prefiro meditar a ser triste." (p. 44)


Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão: Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009.

2 comentários:

  1. É impressionante a escrita da Maria Gabriela Llansol. É uma escrita íntima, exposta, sem censura interna, sem maldade, sem vaidade. Gosto demais.

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