segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Narciso e outros espelhos

James Waterhouse, "Eco e Narciso" 

É conhecida a história de Narciso e da ninfa Eco, ambos perdidos por amores nefastos: ele apaixona-se pela própria imagem, reflectida nas águas límpidas; ela ama aquele que a repudia, ao reconhecer a alteridade da sua voz. O destino dos dois é a morte, pois se da jovem restará apenas os ossos e a voz (a voz intacta, os ossos transformados em rochedo), do belo filho de Liríope e de Cefiso restará tão somente uma flor branca de corola vermelha, conhecida como narciso ou como flor-de-lis.
Eco e Narciso representam, respectivamente, o paralelismo da imagem vocal e da imagem visual e a duplicidade que estas evocam. O mito congrega ainda o amor, a beleza e a morte, pois se a beleza suscita o desejo e afecta tanto rapazes como raparigas, é ela que seca e devora Eco, primeiro, e depois o próprio Narciso. É a beleza que, inflamando os jovens de desejo e amor, provoca a sua destruição.
O espelho das águas ou o seu similar espelho de vozes constituem lugares de perigo e perdição amorosa.

A propósito deste objecto, ressalve-se que para os gregos ele era um lugar de atracção, de fascínio e de captura. Por esta razão, o espelho estava interdito aos homens, havia que os salvaguardar do perigo de fechamento sobre si e da consequente alienação. Estava, então, reservado às mulheres, cuja condição se definia precisamente pelo fechamento e pela alienação, pois que era o outro por excelência.
Todavia, se o espelho separava, também unia, uma vez que era um elemento essencial nos preparativos nupciais, deste modo constituindo-se como um símbolo erótico. É ao espelho que a mulher se prepara para suscitar o desejo masculino, sendo que antes de ser vista ela deverá ver-se, reconhecer-se sujeito e objecto do olhar, do desejo, do amor. O espelho acompanhará a mulher até que, já velha e desistente de Eros, o deposite no templo, tal como antes fizera com a sua boneca, no adeus à infância.

Sobre esta relação dos gregos com o espelho, e da mulher em particular, escrevem Jean Pierre Vernant e Françoise Frontisi-Ducroux:

"[...] Le sentiment premier qui l'anime est le soucis de sa beauté. Son désir est tourné vers elle-même. D'où la fonction du miroir, précieuse prothése visuelle, troisième oeil artificiel. La chance de l'amant est de pouvoir prendre la place de se fidèle compagnon. Et, en se faisant miroir pour offrir à sa belle um reflet rassurant et conforme d'elle-même, de l'inciter à devenir à son tour un miroir qui lui retourne docilmente son amour... et qui, un peu plus tard, pourra le dupliquer en reproduisant les images qu'il aura imprimées en son sein.
Voilá pourquoi Écho est une femme. Vivant miroir vocal. Désir voué à n'être que réponse. Voilá pourquoi Narcisse est un garçon. Narcisse étranger au désir, qui refuse de se faire miroir d'autrui, et que les dieux condamnent, pour ce refus, au désir vain de soi, qui n'est erreur et faute que parce qu'il est un homme. Quelle femme d'ailleurs s'y serait laissé prendre?"

 Françoise Frontisi-Ducroux e Jean Pierre Vernant, Dans L'Oeil du Miroir, Paris, Editions Odile Jacob, 1997.

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