sábado, 1 de outubro de 2011

O Esplendor da língua VIII

Liam um poema de Pessoa, "Ela canta, pobre ceifeira", quando aquela "voz, cheia/ De alegre e anónima viuvez" evocou uma outra, a do grande poeta Camilo Pessanha. De ecos e saberes se faz a leitura, por isso desviemos a nossa atenção para este poeta de primeiríssima água.



Camilo Pessanha


Gustavo Rubim, no verbete incluído no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, inscreve Camilo Pessanha (1867-1926)  nos alvores do Modernismo nacional, salientando a "desintegração do sujeito da poesia", característica que Eduardo Lourenço destacou em Pessoa, bem como a poética do desaparecimento e do vestígio, como marcas da obra de Pessanha - Clepsydra. A questão é analisada com mais profundidade e complexidade do que este apontamento sugere, mas deixemos a hermenêutica e ouçamos a palavra poética em todo o seu esplendor: 


AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

(A Ovídio de Alpoim)

 Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões scintilla
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla.

E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flebil... Quem ha-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Agua, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

2 comentários:

  1. Comento apenas aqui neste post para não me tornar repetitiva mas, uma vez mais, adorei ler os seus últimos 3 posts. Não é apenas o prazer da leitura em si, é o que sempre aprendo. Passo por aqui a passeio mas também com a certeza que saio daqui a saber sempre alguma coisa a mais. E também a pensar, porque o que aqui nos deixa está sempre para lá do óbvio.

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  2. Muito obrigada pela gentileza das suas palavras! Fico muito contente por saber que o meu diário oferece alguma coisa a alguém.

    Apareça sempre, é muito bem-vinda!

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