Liam um poema de Pessoa, "Ela canta, pobre ceifeira", quando aquela "voz, cheia/ De alegre e anónima viuvez" evocou uma outra, a do grande poeta Camilo Pessanha. De ecos e saberes se faz a leitura, por isso desviemos a nossa atenção para este poeta de primeiríssima água.
Camilo Pessanha
Gustavo Rubim, no verbete incluído no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, inscreve Camilo Pessanha (1867-1926) nos alvores do Modernismo nacional, salientando a "desintegração do sujeito da poesia", característica que Eduardo Lourenço destacou em Pessoa, bem como a poética do desaparecimento e do vestígio, como marcas da obra de Pessanha - Clepsydra. A questão é analisada com mais profundidade e complexidade do que este apontamento sugere, mas deixemos a hermenêutica e ouçamos a palavra poética em todo o seu esplendor:
AO LONGE OS BARCOS DE FLORES
(A Ovídio de Alpoim)
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora
Na orgia, ao longe, que em clarões scintilla
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla.
E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flebil... Quem ha-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora...
Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Agua, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

Comento apenas aqui neste post para não me tornar repetitiva mas, uma vez mais, adorei ler os seus últimos 3 posts. Não é apenas o prazer da leitura em si, é o que sempre aprendo. Passo por aqui a passeio mas também com a certeza que saio daqui a saber sempre alguma coisa a mais. E também a pensar, porque o que aqui nos deixa está sempre para lá do óbvio.
ResponderEliminarMuito obrigada pela gentileza das suas palavras! Fico muito contente por saber que o meu diário oferece alguma coisa a alguém.
ResponderEliminarApareça sempre, é muito bem-vinda!