sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Esplendor da Língua IX

O escuro, lá fora...


CREPUSCULAR

Ha no ambiente um murmurio de queixume,
De desejos d'amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madre-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exhalam pelo espaço
Tem deliquios de goso e de cançaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se spasmos, agonias d'ave,
Inaprehensiveis, minimas, serenas...

Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.


Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

4 comentários:

  1. Camilo Pessanha, outro exímio mestre da palavra. E como os tempos eram... a anemia, a tristeza, como factores de encantamento. Tem graça.

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  2. Sobre Camilo Pessanha não temos dúvidas: a essência da poesia, a pura beleza! Inscrita no tempo, no seu tempo, no nosso, de todos os tempos...

    Bom fim-de-semana!

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  3. Ah, Leitora, que bom: eu que gosto tanto de Pessanha sinda gosto mais de o ler assim na edição do Paulo Franchetti, com agrafia anterior ao acordo de 1911.

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  4. A grafia... parece que esta está mais próxima da poesia de Pessanha...

    Ainda bem que gostou. Seja muito bem-vinda!

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