segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Corpo Recusado - Magnífico livro (aqui, um excerto)

"Exercícios de Imaginação

- Tu, porquê tu?
- E por que não eu? Em que falto eu ao teu sonho?
- Em nada. Só que nunca imaginei haveres de ser tu a doer-me, nem que vinha de tão longe a tua ausência.
- Afinal não para um encontro...
- Bem o sei, contento-me em respirar-te, em saber-te, longe...
- Cada vez mais longe...
- Perto, cada vez mais perto, uma vez que de longe o sabemos.
- Desde sempre?
- Desde sempre...


[...]


- A tua boca sabe a laranja, é um fruto de mil sabores.
- É o teu desejo que tem mil papilas...
- Não, não, é a minha boca que só existe na tua. Só na tua se abre e se sente.
- Por isso sou a tua margem, sem ti não tenho inquietas marés.
- Um dia esquecer-me-ás...
- E como é possível perder um sonho, tecido dia-a-dia?
- O tempo se encarregará de destecê-lo... Um dia virá em que os teus dedos já não saberão o toque breve e frio da minha boca... Um dia virá em que não saberei mais a tua timidez, quase sem gestos... não saberei mais. Ter-te-ei perdido para sempre. Para sempre.
- E quando será esse quando?
- Ambos temos o poder da destruição, um de nós o fará nascer.
- Tu?
- Tu."

Luísa Dacosta, Corpo Recusado, Porto, Figueirinhas, 1985.

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