quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Diário de Maria Amélia II



Jacek Yerka, Boudoir


Vêm chegando, uma a uma, em pequenos grupos, todas envoltas nos seus cachecóis de lã, ora lisos, ora de múltiplas cores, nos seus sobretudos aprumados, nas suas calças de mulher ou saias de andar. Vêm chegando, na sua nuvem de perfume e cinzentismo. Vêm chegando e sentam-se a esmo, trocando dizeres, até que o burburinho se desvie para a sala combinada.
Aí, perfilam-se, canetas em riste, cadernos abertos, a prontidão para o apontamento, para a palavra conveniente. Como perder a necessária orientação para o movimento do espanador? Limpar o pó é uma tarefa assaz complexa e importante. Dela depende a harmonia da casa, o uniforme semear de ácaros, o competente brilho, o justo entendimento da escrita na areia, frases em letra de imprensa a duas colunas, o mistério a abrir-se. Mas nem só de poeira se faz a lida. É preciso compor as jarras com as flores que cada uma trará do seu jardim, assegurar que condizem com o lavrado do tapete, garantir que a natureza está no seu devido lugar e na medida certa, q.b. Ah! e as cores, não esquecer o cromatismo e o jogo de contrastes! E o ritmo? Como marcar o ritmo? Foi muito pertinente a intervenção. Máquina de costura, máquina de lavar, passos de chinelo, o crepitar das chamas, nada é esquecido, nada será deixado ao acaso. Até o cantar de galo e o carrinho de linhas têm o seu sítio exacto.
Só a pequena trupe esquipática destoa de tão concertado ambiente. Querem almofadas para espalhar suas cabeleiras, águas horizontais para licenciosos banhos, querem espelhos de fixar medusas e outras excentricidades. No entanto, seja qual for a sua vontade, a tarefa futura já lhes está destinada - contar os espinhos do cacto.

4 comentários:

  1. Que belo texto, Leitora. Que bem descreve e recria a situação, que bem sugere, que alusiva soube ser. Parabéns. Gostei imenso de ler.

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  2. Olá!

    Muito obrigada pelas suas palavras. Ainda bem que gostou, queria escrever sobre aqueles momentos característicos, mas sem magoar ninguém, obviamente. Se o consegui, fico contente. O humor é sempre a melhor resposta, creio.
    Já tinha sentido a sua falta, aqui na matéria dos livros. Espero que continue inspirada, aí, sobre as nuvens!

    Um abraço

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  3. Abaixo o cinzentismo. Obrigada pela cor das tuas palavras e pela beleza que desenhas em teu redor.
    Beijinhos,
    Gisela

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  4. Um abraço, querida amiga!
    A tua presença também matiza o cinzentismo com as cores da inteligência e da sensibilidade. Persiste, persistamos.

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