sábado, 30 de abril de 2011

Leituras de sábado: Luísa Dacosta e Herberto Helder

Busca

Procuro a palavra,
a de sílabas de luz,
que inteira nos revelaria.
Impossivelmente, busco
a nunca encontrada.
Embrionária e prisioneira,
dorme para todo o sempre
no seu ovo de silêncio.

Luísa Dacosta, A Maresia e o Sargaço dos Dias


Claro, considerávamos importantes essas palavras da linguagem, essas palavras comuns. Excitadas como matilhas, boas para caçar, farejar, ladrar, matar. Mas há outra língua, que falávamos antes de nascer. Uma língua muito antiga, não servia para nada, não era  a língua do comércio com os homens. Não era decerto uma língua de sedução, para subornar ou para dominar. Dela provinham as palavras, estas palavras: fluídos, vento, bilha, órfã, carris, dormir, coração, constelada, cisne, lasciate, vapor, contorno, opala, vem... Existiam ao mesmo tempo que a vida, não desligadas dela. Eram uma dança, uma natação, um voo, eram movimento.

Herberto Helder, Magias


- O coração -

(Stefan Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.» 
Herberto Helder, Magias


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Discussões inúteis ou não


Fala-se, diz-se, ouve-se discutir o fim dos livros, ora com o calor de quem perde uma confortável poltrona antiga, ora com a bonomia de quem se sabe já contemporâneo do futuro. Esta disputa provoca-me sempre algum enfado, não obstante a actualidade e a pertinência do tema; nesses momentos ocorrem-me ecos de encaloradas discussões sobre a qualidade do golo ou do passe do Ronaldo, sobre a frescura da couve ou do repolho, sobre o preenchimento exacto do modelo 31. Palavras soltas, que tão pouco dizem.
Afigura-se-me que o fim do livro não é uma realidade que possa vir a existir. Haverá lugar para o ipad e quejandos, mas também para outras formas de acedermos à palavra, mais corpóreas. Qual será a metamorfose da leitura, não o sei dizer; a minha certeza é apenas esta: a palavra continuará a interpelar-nos, corpo e alma, espírito e matéria, e será, por vezes terá de ser, irrecusável.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Esperar

Telefonema

Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.

Mário-Henrique Leiria

Continuar a esperar

Rifão quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Imagens - Melancolia


Francesca Woodman


Ana Vidigal


Cindy Sherman

O Esplendor da Língua III

Luísa Dacosta - entre memórias e afectos

"Não foste tu a lançar a aliança de oiro, rito que devia garantir-me felicidade para todo o sempre, na água do meu primeiro banho. Já então estavas morta. Fechada na bruma doutras idades. Eras menos que o impalpável perfume que desprendiam teus leques, tuas ligas, tuas enáguas.
Teus dias, longos, presos no fio de intermináveis e complicados bordados? Tuas noites, viúvas, afogadas em jaculatórias? Teus anseios? Tuas revoltas? Tuas penas? Tuas sufocações? Dissolvidas. Pólen, levado pelo vento dos anos. Apenas teu rosto sereno, sobrevivente e morto, olhava com doçura, ferida e dolorosa, o meu rosto que era o teu rosto, a minha boca que era a tua boca, as minhas mãos que eram as tuas mãos.
Ninguém te amou, assim, com a certeza do impossível e do irremediável e tentando, apesar disso, adivinhar-te, recriar teus gestos. A pétala dos teus lábios, porém, não tinha ficado na porcelana rosada e violeta da chávena antiga. A bolsinha com as tuas iniciais A. P. delicadamente bordada pelo salzinho, miúdo, da missanga, flácido coração, esvaído de pulsações, não do peso da melancolia, que ainda se afundava na minha palma, que alvoroços fechara? Memória doutras memórias, vinhas até mim, como balada de que se conhece a música, mas não as palavras. No teu espelho me mirava, com teus ganchos, tuas jóias: os olhinhos-gatos de topázio, a barrette, orvalhada de perolazinhas, o cordão que em voltas de gargantilha, singela, te garrotava o vestido sem enfeites. Mas outras eram as águas do tempo. Só a trama da amargura foi a mesma para ambas. E eu já não tinha os altos muros da quinta para emparedar meus desenganos. E nunca tive o teu regaço para os meus sonos de esquecimento, nunca a tua respiração para bafejar meu tremor, nunca teus dedos para desenguiçar minhas mágoas e meus cabelos.
Em vão te desejei, te sonhei nas trevas. Não vinhas. Limos de distância te impediam, te enleavam, ó diáfana, ó remota, ó para sempre perdida!"

Luísa Dacosta, Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu, Porto, Figueirinhas, 1983, pp. 9-10.

O Esplendor da Língua II

Leituras de quando o sol regressa - Luísa Dacosta - entre memórias e afectos:

"1980
Janeiro, Matosinhos

Os malmequeres tinham os olhinhos abertos a furador e as pétalas de um cheio alto, minuciosamente, pespontado à volta. As rosas? De um coração de crivo, muito trabalhado, partia um recorte fino e sinuoso, preenchido a barras de cheio baixo que um ponto arrastado sublinhava. Nas folhas de pé cheio e bainhas assimétricas, o bordado era ainda mais requintado: uma trama axadrezada e ziguezagueante de pontos sobrepostos. Malmequeres e rosas formavam duas hastes entrelaçadas, como mãos que quisessem colher um rosto, e rodeavam um L - de Letícia? de Luz? de Luísa? A letra era almofadada e o crivo entalhava-se-lhe no corpo e na volta, que terminava em volutas, texturadas e nosinhos minúsculos. Uma bainha aberta, larga, geometrizada a bastidor, e quase musical, fazia-lhe uma moldura, nos cantos rematada por um florescer de pétalas, como que colhidas em frágil teia de aranha. 
Quando aquele bordado passasse para uma gaveta das filhas, sentiriam quanto era cheio de lágrimas represadas, de frustrações e anseios pisados? Talvez invejassem apenas aquele tempo de ritmo lento, não estilhaçado por empregos e transportes, em que havia tempo para bordar. Mas a ela, que tinha tentado preencher uma grande parte da vida, vazia e solitária, com palavras, o bordado tinha-a comovido sempre. Por causa daquele L premonitório? Por toda aquela beleza, quase clandestina, destinada  a passar de gaveta em gaveta? Por todo aquele trabalho que tinha enchido dias vazios?
Qual das mulheres da família o teria bordado? Tinha sido uma dessas mulheres educadas na resignação, disso tinha certeza. Mas qual? Todas sem força de arrostar sozinhas o julgamento de uma sociedade que as condenaria. Sem a coragem de abandonar os filhos a mãos mercenárias e sem o furor, ciumento, de Medeia para os matar, porque só isso seria capaz de ferir o coração que as abandonava e lhes traía o leito vazio, onde tinham dado à luz, bordavam. Longamente, bordavam a solidão. Com agulhas, minuciosas, que passavam lentas de um para o outro lado do bastidor, e pontos miúdos, rebatidos e afeiçoados com a  unha e o dedal, na clausura provinciana de longos dias e longas noites sem aconteceres, bordavam as horas, a ausência, a longa espera, o abandono, a traição, o desespero - o pensamento a oscilar entre o folhetim e o livro de orações. Mudamente, de lábios cerrados, bordavam a solidão com arte branca que mais encegueia o linho fresco do enxoval, onde tinham deixado a chaga rubra da sua virgindade, entregue. Durante horas, dias, noites, tinahm feito surgir aquela beleza no linho, que haviam sonhado toalha para o rosto amado, mesa florida de festa e lhes era sudário, em vida. Queridas vovós!"

Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005, pp. 248-49.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril

Comemorar tempos de acreditar

25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas

Vieira da Silva

A Liberdade e a Memória:




sábado, 23 de abril de 2011

Dia Mundial do Livro

Recordaram-me que dia de Páscoa era dia de ofertar. Sendo hoje dia mundial do livro, fiz dois embrulhos: o primeiro recheado com um livro da minha vida, de tão doce memória - O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro - e com a peça Falar Verdade a Mentir, de Almeida Garrett, esta para que a menina espante colegas; o segundo, para a outra menina, cuja maioridade pede subtilezas, leva O Conde de Abranhos, do grande Eça de Queirós. Vai bem servida a cesta pascal, na expectativa  de que a beleza das histórias e o esplendor da língua adocem os recalcitrantes corações adolescentes.




sexta-feira, 22 de abril de 2011

Mulheres que lêem são perigosas

Eve Arnold, Marilyn lendo Ulisses, 1952

Deparei-me, no Facebook, com este interessante texto sobre as mulheres e a leitura: "Namora uma rapariga que lê". Recordei-me, então, de um livro lido há tempos - Stefan Bollmann, Mulheres que Lêem são Perigosas, Quetzal Editores (constituído por prefácio de Elke Heidenreich  - "Pequenas moscas!" -, introdução de Stefan Bollmann - "Mulheres que lêem" - e vários retratos de leitoras, seguidos de um texto de uma página). Já nessa altura me interroguei sobre as implicações do adjectivo "perigosas": Que perigo carregam? Contra quem? O que têm de assinalável estas mulheres? O que as instituí como grupo?
Em qualquer dos textos, livro e entrada de blogue, se reconhece a importância da leitura para a liberdade e para a constituição de uma identidade singular. Residirá nessa possibilidade de aceder a um "lugar que seja seu" o estranhamento de uma mulher leitora? Estará o perigo na evidência da liberdade individual, construída no recolhimento e, simultaneamente, na abertura ao Outro, implicados no acto de ler?  
Tantas interrogações. Afigura-se-me que tanto a leitura como os seus cultores partilham de um qualquer mistério perturbador. Quando qualificam uma parte desses amantes da palavra como "perigosa" - mulheres que lêem são perigosas -, estarão a evocar antigos mitos femininos, atraentes ou repulsivos, ambivalentes sempre? Afinal, parece que esse ancestral feminino ainda persiste, com os seus contornos de milénios, a acordar medos, a chamar seduções. (Será?!...)

terça-feira, 19 de abril de 2011

De visita a uma exposição


Exposição: Sophia, na Biblioteca Nacional

Desta exposição, destaco estas palavras:

"A poesia não é um acto gratuito mas sim um acto vital. Sabemos que um poema é justo quando ele é necessário àquele que o escreve e necessário ao mundo. O peso das sílabas do poema entrará em equlíbrio com o peso das estrelas. Pois a poesia é um acto de criação integrado em todo o processo criador do universo. Não é uma contemplação exterior às coisas mas uma participação no destino do universo." ("Arte Poética III" - inédito) 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lendo, em dias de espera

Em dias de pausa pascal, lê pela primeira vez José Rentes de Carvalho - La Coca. Leitura agradável: o tráfico na aldeia,  as memórias de adolescência, um olhar amável e triste...

"Agora na torrezinha, deitado de costas na cama, embalado pelo bater das cordas de água que o vento atira contra as paredes, revivo esse tempo com a tolerância de quem tem uma vida atrás de si. [...] Nessa altura ri com os outros, sem me dar conta que a vida ao meu redor não tinha a moralidade nem a pureza que eu lhe atribuía.
Havia o mundo visível, calmo, mais ou menos harmonioso, cada um e cada coisa no seu lugar. Dos mundos subterrâneos conhecia eu o do contrabando, do qual pensava que servisse para satisfazer um real desejo de aventura e só acidentalmente tivesse a ver com lucro e ambição. Todo o resto me escapava. Ou talvez não. Talvez eu seja mais exacto, e mais sincero, se admitir que intencionalmente fechava os olhos, receando tudo o que pudesse perturbar o frágil equilibrio que aprendera a manter entre o meu corpo, o meu espírito e a minha imaginação. Uma ninharia poderia transtorná-la, uma palha poderia empurrar-me para os abismos cuja existência eu negava, e assim me comportava como o pior dos cegos: aquele que recusa ver.
Provavelmente residia aí também a causa de a todo o momento me refugiar nos livros, onde criara o universo da minha realidade, encarando o que me cercava como uma desagradável e maléfica ficção." (p. 157)

José Rentes de Carvalho, La Coca: Romance, Quetzal Editores, 2011.