quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lendas da Índia

Nunca lera Luís Filipe Castro Mendes. O primeiro livro revelou-se numa visita guiada por estantes livreiras, manifestando-se a sua grande qualidade poética logo na primeira leitura, de viés, à sombra de uma simpática esplanada:

     Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.


Este livro pede uma leitura demorada, mas isso não impede que aqui se divulgue um poema, encontrado por acaso a páginas tantas, que glosa a escrita na "estratosfera", isto é, no "blog", estranho diário, que se quer simultaneamente público e privado, solidão partilhada e irredutível...


Ei-lo:


QUEM SE EU GRITAR...?


Fecho-me aqui:
um blog é uma estratosfera,
é uma maneira de não pertencer a nenhum mundo,
é uma forma mais de estar sozinho.

É certo que é suposto partilhar:
mas é como se uma mónada do Leibniz
lançasse palavras numa rede de ausências,
para o silêncio das esferas.

Nunca adiamos a solidão.


 Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.

domingo, 26 de junho de 2011

Fúlgidas tentações



Ela não resiste, e dá uma trincadela na redonda lua. Tudo porque lhe chegou um livro dionisíaco, lunar, maldito, editado por uma casa também propícia a adjectivos - Judith Teixeira, Poemas, & etc.

Poetisa respeitável, foi no seu tempo, e nas décadas seguintes, vilipendiada, rasurada das antologias e afastada de qualquer lugar público. Nasceu em Viseu, em 1880, morreu em Lisboa, em 1959. Só, diz-se. Escreveu três livros de poemas (Decadência - 1923, Castelo de Sombras - 1923, Nua: Poemas de Bizâncio - 1926) e um de novelas (Satânia - 1927); é dela a conferência De Mim (1926); em 1925 funda e dirige Europa, luxuosa revista de arte.

Sobre a sua escrita, pronunciou-se Maria Lúcia Dal Farra:
 "Seus poemas contêm um fundo decadentista com décor próprio de sedas, coxins, flores, tapeçarias, quadros, espelhos, fausto oriental, estofos, painéis, mármores, vitrais, enfim, um espaço de alcova, de intimidade, de fechamento, de calidez artificial, de fuga à luz e à natureza. Imperam nesse espaço rarefeito fantasias eróticas, tédio, narcisismos, máscaras, sentimentos bizarros e uma população excêntrica de ciganas, anões, estátuas, sultões, génios do mal, perversões, desejos confusos, taras, labirintos, sonhos - em fragmentos e dispersões. Filtra essa esquisita atmosfera a imagem do outro, apontando para uma dubiedade de género e para a sensação de emparedamento, próxima de Mário de Sá-Carneiro (a quem ela tanto admira)."
"[...] Judith Teixeira, o único nome feminino a integrar a vanguarda portuguesa - responde pela maldição de ter-se inscrito literariamente como mulher num ingrato tempo de marcada transição política, literária e moral."

in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (coord. Fernando Cabral Martins) Lisboa, Caminho, 2008.


Leiamos, então, três poemas da intrigante mulher vanguardista, dois poemas com o sol no horizonte, outro centrado na noite:


Minha Vida!

Tu estás doente meu amor, porquê?
Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus braços, mais ânsia, mais calor?

Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!

Se perdes a alegria, a minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!

Beijemo-nos, meu bem, ardentemente...
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!

Manhã de Outono nublada e fria
1925


Rosas Pálidas

Ó anémicas! Ó pálidas!
ausentou-se o sangue
das vossas veias delicadas...
Ó sombras vagas
duma vida exangue!
Ó virgens aladas!...

Nunca pôde encantar-me essa candura
da vossa serena brancura.
E jamais eu tive
um amplexo de amor
em que no meu peito
se esmagasse
a vossa carne de chorosa Madalena
sem gritos e sem cor...

Ó flébeis, doentias!
- O meu olhar procura a ardência
forte e colorida
das vossas irmãs
rubras e sadias!...
A vida é beijada pelo sol
e ungida pela dor!

Deixai que o sol fecunde o vosso seio...
e que o vento vos beije
em convulsões brutais,
em convulsões pagãs!
A luxúria, ó pálidas irmãs,
é a maior força da vida!
Sensualisai pois! a vossa carne
arrefecida...
Ó brancas, imaculadas!
Ó virgens inúteis
e decepadas...

Agosto - Sol. Meio-dia
1925


A Minha Colcha Encarnada


Perfumes estonteantes,
atiram-me embriagada
sobre os cetins roçagantes
da minha colcha encarnada!

Em espasmos delirantes,
numa posse insaciada -
rasgo as sedas provocantes
em que me sinto enrolada!

Tomo o cetim às mãos-cheias...
Sinto latejar as veias
na minha carne abrasada!

Torcem-me o corpo desejos...
mordendo o cetim com beijos
numa ânsia desgrenhada!

Noite de Dezembro - Horas de Febre
1922

Judith Teixeira, Poemas: Decadência, Castelo de Sombras, NVA, Conferência DE MIM, Lisboa, & etc, 1996. 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Horríveis invenções linguísticas

R. apresenta-nos um excerto da crónica de Luís Miguel Queirós, no Público. Pertinente reflexão, a ter em conta na resistência ao ridículo de certas invenções linguísticas:

Peribiblio: Presidenta ?: "Da crónica de hoje de Luís Miguel Queirós, « Assunção Esteves é presidente ou presidenta?»: […] Na terça-feira, o novo ministro dos As..."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Dizer Poesia

Esta semana, a Andante Associação Artística apresentou um poema de Luísa Dacosta, no seu desafio poético semanal "Poema escrito por Quem?":

Entardecer





Já não há perfumes de vida na taça do meu sexo.
Se quisesses conhecer, agora, o meu sabor mais íntimo,
terias de beber, com os teus lábios,
a água das minhas lágrimas.



LUÍSA DACOSTA
A maresia e o sargaço dos dias
Ed. Asa

voz - Cristina Paiva

sonoplastia - Fernando Ladeira

(Ver aqui)


A Andante desenvolve uma acção interessantíssima em prol da divulgação da poesia, que pode ser acompanhada através da sua página.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Prazeres contemplativos

Aos Meninos e Meninas de outrora, e de sempre


Foi este blogue acusado de excesso de peso. Como quem escreve procura a harmonia, a elegância suave, o reparo não lhe foi indiferente. Assim, desvia, por momentos, o olhar da doce lua, para contemplar o sol - recorda este poema de João Miguel Fernandes Jorge, há muitos anos lido em conjunto com queridos Meninos e Meninas: 


SUNBAKER

Nadara longas braçadas e o mar estava
revolto. Veio, sobre a areia,
até onde esta se tornava o domínio do sol.

Deixou-se cair de bruços, lentamente
deixou os membros a maior amplidão.
Respirava. Os cabelos negros

eram uma fina película brilhante e as
gotas de água do mar corriam p'las
espáduas e ombros, p'los graves músculos

dos braços. A cabeça poisava-a sobre
uma das mãos e entrava no invisível
escuro do rosto.

A outra mão descansava à frente, recebia
plena luz as horas nascentes que
prudentemente componho para uma viva,

nova amizade.
E que queres tu? Que vais querer ó novo
amigo, irmão da minha alma futura?

João Miguel Fernandes Jorge, Um Nome Distante, Lisboa, Contexto, 1984.

domingo, 12 de junho de 2011

À janela, a ver a procissão

... ou outras vistas, mais e menos interiores...


Helena Almeida

Melancolia, mal do Eu

Em dias assim...

Matéria lírica, a dor
e o amor. Amados
sofremos porque
não o somos bastante.
Melancolia, mal do Eu.

Ana Marques Gastão, Nocturnos, Lisboa, Gótica, 2002.  


Erik Satie, Nocturnes


Frédéric Chopin, Nocturnes

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Voar

Uma fotografia e um poema que ensinam a cair:


Helena Almeida



QUASE


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Então nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...  

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro, Poesia, Lisboa, Edições Ática, 1989.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Num sinistro terceiro andar

Lê Ana Luísa Amaral, em vez de   ***


AS ANÓDINAS BOLAS DE SABÃO

Hoje, fiz bolas de sabão ao longo
da varanda, sem me importar do
tempo de crescer, sem me importar
de ter comprado instrumentos de tal.

Em criança, uma cana se bastava,
mas agora é o luxo embevecido:
cilindro colorido todo pronto,
com água preparada em detergente.

Munida de universo, fiz bolas de
uma transparência atroz, de um brilho
tão urgente como era a minha dor.
E ao longo da varanda, espalhei cor,

sabendo que rimar assim: o mais
fugaz: coisa desnecessária e
irrelevante. E ainda que encontrar
a bola certa em paciência adulta:

tarefa de uma imensa ambivalência.
Então, peguei sem calma no cilindro,
adicionei ao líquido sem perigo
de explodir: uma ligeira gota

do perfume que ponho de manhã.
E segredei-lhe um sonho a nitro-
glicerina. E deixei-o a sonhar ao
longo da varanda. Esperando que

amanhã: bombas de uma eficácia
nunca vista. Tão prontas a rimar
na minha rua.
                      Que eu moro num
sinistro e recuado terceiro andar -

Ana Luísa Amaral, Imagias, Lisboa, Gótica, 2002.