quarta-feira, 31 de agosto de 2011

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Poema para Setembro

Aos Meninos e Meninas de todos os anos


Goya, Três de Maio


CARTA AOS MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda que lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse "com suma piedade e sem efusão de sangue."
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente como haviam vivido,
ou as suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham cosnciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só  a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruiram, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Lisboa, 25/06/1959

Jorge de Sena, Poesia II, Lisboa, Edições 70, Obras de Jorge de Sena, 1988.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Prémio "Best Blog"


Para grande surpresa de quem escreve, foi este blogue distinguido com o Prémio "Best Blog"! Ouvem-se ecos da infância, dos jogos "passa a outro e não ao mesmo" (que agora degeneraram em "correntes"); regressemos, então, ao tempo antigo e, ao som dos risos infantis, continuemos a brincadeira, passando a outro a alegria recebida, sem esquecer as três regras, mas com uns desviozinhos.


Regra nº 1
Revelar quem me atribuiu o Prémio


O Prémio foi atribuído pela Autora do blogue Um jeito manso. É autora de quatro blogues: Um jeito manso, Ginjal e Lisboa, a love affair, Street Photo & Co. e Historinhas da Tá. Como se pode ver, desde logo pelo número, é uma mulher multifacetada e cheia de energia; é um prazer enorme ler o que escreve, pela inteligência, pela sensibilidade, pela viveza e pela "boa onda"! Por outro lado, é a leitora mais expressiva deste "A Matéria dos Livros" e constituiu um encontro inesperado na blogosfera, muito gratificante. Muito obrigada, pelo prémio, pelas leituras, pelo que oferece!


Regra nº 2
Compartilhar sete factos pessoais


Aqui a dificuldade!  Quem sou eu? - a pergunta mais custosa desde os tempos antigos. O que escolher? Como escolher? Como apresentar? Qual o melhor espelho e qual a pose certa?
Experimentar:
- Sapatos? Também, apesar de não se equilibrar nos de salto alto; não pode ser.
- Sentido de orientação? É-lhe igualmente estranho: perdeu-se entre o Rossio e a Praça da Figueira, quando foi estudar para "Lisboa, a bela"; perdeu-se ainda em Campo de Ourique, quando iniciou a sua actividade profissional; vive com medo de se perder, pois não percebe de mapas nem tem GPS... 

Para responder ao desafio com confiança, decidiu consultar o oráculo e a Sibila, no seu habitat natural, na distante Grécia (a imagem que lhe devolve aqui ao lado é bonita...):

Oráculo de Delfos

Eis os factos encontrados:

- Inspirada nos melhores modelos, procura a pose certa para:

1- Vasculhar os saldos, em busca das melhores peças;
2- Cair, aqui tanto aprende com o poema, como com a vida, florescente;
3- Fazer as compras do lar e assim;
4- Parecer uma dama gentil, que permite que outros a auxiliem, que sejam bons;
5- Descansar enquanto aguarda transporte, público;
6- Estar em lugares de convívio; na verdade, dá-lhe grande prazer conversar à mesa, de um restaurante, de uma esplana, de "um café devasso".
7- Enfim, o que lhe ocupa a maior parte do tempo é a leitura, a literatura, a poesia, ofício e vício; prazer antigo, pois já antes de saber ler gostava de ouvir as histórias, rimas e lengalengas que as mulheres da família lhe contavam, com destaque para a Mãe e a Avó. Queridas!

Considerando aquelas orientações para escrita de blogues (a importância da imagem e afins, etc.), ficam os factos ilustrados e desenvolvidos no vídeo e na fotografia abaixo:





(O toque pessoal...)


Regra nº 3
Atribuir o Prémio "Best Blog" a outros Autores


Aqui, o maior desvio à regra, por dois motivos: não conhece assim tantos blogues, ou bloggers, a quem passar a brincadeira; não levem a mal, não leve a mal, Margarida, mas o monocromático rosa cansa-a um bocadinho, gosta de cores, é um facto. Assim, escolheu três blogues muito interessantes e muito diferentes; os Autores, queridos amigos, uns, outros que o poderiam ser, estimados todos. (Pretende fazer-lhes uma pequena homenagem, se não acharem graça, que lhe perdoem!)

Ei-los, por ordem alfabética:




domingo, 28 de agosto de 2011

Aprender; a obra de Deus

A FLOR

[...]

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor! 


José de Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro, Lisboa, Guimarães, 2010.

Casa e fantasminha bom



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Outra raiz da poesia amorosa - "Cântico dos Cânticos"


Marc Chagall



O Esposo - Como és formosa, amiga minha!
Como és bela!
Os teus olhos são como pombas.

A Esposa - Como és belo, meu amor! Como és encantador!
O nosso leito é um leito verdejante, as vigias da nossa casa são de cedro, os nossos artesonados são de cipreste.

Eu sou o narciso de Saron,
o lírio dos vales.

O Esposo - Como o lírio entre os espinhos,
assim é a minha amiga entre as donzelas.

A Esposa - Como a macieira entre as árvores da floresta,
assim é o meu amado entre os jovens;
anelo sentar-me à sua sombra,
e o seu fruto é doce à minha boca.
Ele introduziu-me na sala do festim,
e o estandarte que desfraldou sobre mim, é estandarte de amor.
Confortai-me com uvas passas,
fortalecei-me com maçãs,
porque desfaleço de amor.
A sua mão esquerda descansa sobre
a minha cabeça,
e a sua direira abraça-me.

O Esposo - Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
pelas gazelas e corças dos campos
que não acordeis nem perturbeis a minha amada,
antes que ela queira.

[...]

A Esposa - Durante a noite, no meu leito,
busquei aquele que a  minha alma ama;
procurei-o mas não o achei.
Levantei-me e percorri a cidade,
as ruas e as praças,
em busca daquele a quem a minha alma ama;
procurei-o e não o achei.
Encontraram-me os guardas
que faziam a ronda na cidade.
«Vistes, acaso, aquele a que a minha alma ama?»
Mal passara por eles,
encontrei aquele a quem a minha alma ama.
Agarrei-me a ele e não largarei mais,
até que o tenha introduzido na casa de minha mãe,
no quarto daquela que me concebeu.

O Esposo - Conjuro-vos, ó filhas de jerusalém,
pelas gazelas e corças dos campos,
não desperteis nem perturbeis a minha amada;
antes que ela o queira.


"Cântico dos Cânticos", in Bíblia Sagrada, Lisboa, Difusora Bíblica, 1981 (excerto).

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O princípio da poesia - dois fragmentos de Safo

O BELO E O BOM

Quem é belo
é belo aos olhos
- e basta.

Mas quem é bom
é subitamente belo.



INTERDIÇÃO

Vedado
é o choro
na casa
de um poeta:
nunca
tal pesar
pesará
de nós.


Safo, Líricas em Fragmentos, Lisboa, Vega, 1991 (Tradução e apresentação de Pedro Alvim; Desenhos de Luís Alves da Costa). 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A beleza a fechar o dia - um poema de Carlos Drummond de Andrade

AMOR - POIS QUE É PALAVRA ESSENCIAL

Amor - pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.


Carlos Drummond de Andrade, O Amor Natural, Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record, 2004 (13ªedição). 

A cada um a sua





A Minha Amante

"....................... a dor
só lhe perco o som e a cor
em orgias de morfina!"

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!...
Eles sabem lá o que há de sublime,
nos meus sonhos de prazer...

De madrugada, logo ao despertar,
há quem me tenha ouvido gritar
pelo teu nome...

Dizem - e eu não protesto -
que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
para te esquecer...
E que de noite pelos corredores
quando vou passando para te ir buscar,
levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo -
não entendem deste luar de beijos...
- Há quem lhe chame tara perversa,
dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
o meu castigo...
E eu em sombras alheio-me dispersa...

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo...
Que és tu que doiras ainda,
o meu castelo em ruína...
Que fazes da hora má, a hora linda
dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos...
- Adormenta esta dor que me domina!

Junho - Poente
1922

Judith Teixeira, Poemas: Decadência, Castelo de Sombras, NVA, Conferência DE MIM, Lisboa, & etc, 1996.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dos diários e assim

"Este diário da Índia, embora a ela evidentemente se refira por diversas vezes e de diversas formas, foi, na altura em que lá vivia, um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso, e de procurar enraizar-me através de leituras, livros e recordações, noutras paisagens e gentes. Uma forma avulsa de me reencontrar.
Quantas vezes a elaboração de um diário não nos oferece a possibilidade de embarcarmos para outras paragens...?"

Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006.


Por que se escrevem diários? Porquê manter este diário de leituras? Qual a origem da compulsão da escrita diarística?

Estas perguntas são de difícil resposta e requerem leituras, pois que de um género de escrita complexo se trata. No entanto, fiquemo-nos por uma reflexão impressionista, mais ajustada à canícula recém-chegada.
Se atendermos às palavras de Marcello Duarte Mathias, um diário é uma forma de evasão - "possibilidade de embarcarmos para outras paragens" - e de enraizamento noutra paisagem - "outras paisagens e gentes"-,  através de "leituras, livros e recordações". Recorremos, então, ao papel ou ao rectângulo branco para nos libertarmos do mal-estar quotidiano ("um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso"), achando morada no território dos afectos, novo e antigo. Assim, recolhemos fragmentos vários, palavras, imagens, sons, com a intenção de criarmos uma paisagem a habitar, por nós e por outros. Sim, por outros, pois que os diários aqui lembrados não se escondem na gaveta, antes se oferecem aos mais diversos e incertos olhares.
Nesta terra oscilante, somos o espelho, o rosto e o retratista, que move a cabeça com as mãos, buscando a melhor pose: com inclinação, sem inclinação, de perfil mais ou menos pronunciado, à medida da velatura desejada... A nomeação faz-se por meio de perífrases, palavras compostas, pronomes vários, muitas vezes na terceira pessoa, também há quem recorra a letras maiúsculas seguidas de pontinho. Não raro, convocam-se máscaras sugestivas da face oculta. Estratégias para esconder e revelar a identidade. Quem escreve, afinal, é e não é aquele que se toma por autor. O diarista, afinal, quer criar o novo feliz, mas reunindo o vivido (lido). O diarista, afinal, é um colector, que quer voar, mas levando nas asas todo o mundo conhecido. Quem escreve, afinal, procura-se a si e ao outro...
... Afinal?
E, então, quando o diarista tem a compulsão de APAGAR tudo (quase tudo...) o que escreve/coloca no blogue, no diário? Vê-se que o diálogo é constante, não só com o mundo das palavras, mas também com os leitores do dito blogue-apagando-se, que, nota-se, comentam de viva voz o que vai surgindo e servem tanto de interlocutores como de inspiradores. Talvez seja isso: o centramento no presente! Mas... Todos os diários se centram no presente, ou não?
A verdade é que esta leitora, armada em diarista, não sabe o que é um diário, não sabe por que razão mantém este blogue ( não quererá saber bem...), o que sabe é que gosta de escrever estas entradas e das respostas que lhe vão chegando. Descobriu sobre si que é uma colectora, por isso não entende Jocardo / Peribiblio, com a sua ânsia de apagar!

Três poemas de amor para Lisboa


CANTIGA DE AMIGO

JOAN ZORRO


   En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
   Ai mia senhor velida!

   En Lixboa, sobre lo ler,
barcas novas mandei fazer,
   ai mia senhor velida!

   [B]arcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
   ai mia senhor velida!

   [B]arcas novas madei fazer
e no mar as mandei meter,
   ai mia senhor velida!




LISBOA

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver




POENTES DE LISBOA

MANUEL ALEGRE


Os poentes de Lisboa sabem a
Ocidente
há neles um barco antigo a partir para
o reino ausente.

Os poentes de Lisboa trazem um
sentimento de grande nostalgia
há neles alguém que vem de mar nenhum
carregado de Tejo e de melancolia.

Os poentes de Lisboa são quer se
queira quer não
uma canção partindo-se partindo-se.

Os poentes de Lisboa intensamente
são
o Ocidente.




Mário Cláudio, Nas Nossas Ruas, Ao Anoitecer: Antologia de Poesia sobre Lisboa com um pormenor de uma pintura de Carlos Botelho, Porto, Edições Asa, 2002.

sábado, 6 de agosto de 2011

Leitora-Colectora / O encanto das ruínas

"Colector /ô/ adj.s.m. (1375 cf. IVPM) 1 que ou aquele que colecta, que reúne. que faz compilação [...]  ETIM lat. collector, oris, do rad. de collectum, supn. de colligere 'reunir, juntar, apanhar" - Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores: 2007)

No blogue de Ana Vidigal, aqui ao lado, recolheu a leitora o vídeo que abaixo apresenta. O blogue e a obra da artista constiuem um lugar a visitar regularmente. Descoberta tardia, só aquando da exposição na Gulbenkian, o conjunto da obra foi uma espaço de acolhimento para Ela. Um dia gostaria de ler e escrever sobre a colcha feita de cartas, sobre as colagens, sobre a reunião de tantos objectos e fragmentos tão significativos e inquietantes, pela banalidade de que parecem provir e antes pelo contrário... O reconhecimento e a estranheza. O impacto foi grande e continua a ser. 




O Encanto das Ruínas

Acompanhar a câmara através desta casa em ruínas é um passeio belíssimo! As paredes, com restos de tinta e de estuque, os azulejos, o ausente telhado, vestígios de uma vida, as pedras. O que não é, mas existe no movimento do olhar, que adivinha o possível e corre com a erva, plantada a esmo pelo tempo. Quartos esventrados, corredores ao abandono, salas de estar ocupadas pelo sol. Portas, arcadas, escadas para nenhures. Apetece mesmo correr para a praia aqui ao lado e voltar para casa!



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Poema para Agosto

(Fica melhor aqui...)


O AMANTE

Onde o amante
se insinua
é dia

como um insecto procria
Vejo-lhe asas de vampiro

vagueia
amantemente
no circuito
aberto ao corpo
e à alma

Luiza Neto Jorge, poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001.

Renovescer*

(* Este verbo, encontrou-o algures num livro. Os dicionários consultados não o incluem. Não se reencontra a fonte, mas fica pela sua expressividade e sonoridade.)



Nova, nova, nova, nova!

Não era a minha alma que eu queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma alma nova.
Decidida, capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, tortu-
rada, de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter...
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!

Irene Lisboa, Poesia I: Um dia e outro dia... e Outono havias de vir, Lisboa, Editorial Presença, 1991.

Pranto