segunda-feira, 31 de outubro de 2011

sábado, 29 de outubro de 2011

Luxo de imagens

O coração persiste em ler. Desta vez, Maria Gabriela Llansol, um excerto de diário:



"Maredret
Reflexão para um casal demasiadamente poderoso

Esta relativa tristeza é uma tristeza de separação. Não demasiadamente profunda, porque o porto está à vista como um tranquilizante quadro familiar. Sempre escrevi por não ter mais nada que fazer ou a quem amar sem o risco permanente de decepção. Ou talvez a escrita tenha sido sempre  causa, e não o efeito. Prefiro esta segunda hipótese. De qualquer modo, não é uma solidão como a anterior ao meu casamento. É uma solidão perfeitamente dominada, e sem culpabilidade. Embora persista como tristeza aliciante, propícia a que a escrita prossiga interminavelmente até ser amaldiçoada à hora da minha morte.
Impediu-me um outro casamento, verdadeiramente sexual. Foi uma porta aberta a toda a originalidade e a todas as minhas contradições e intensidades.
Hoje, por exemplo, escrevi como recurso - para ter um amante, uma casa habitada, um secreto secretário. Com ela, tenho sempre possibilidade de ir adiando a minha próxima loucura, a que poderia conduzir-me à segregação asilar definitiva.
Prefiro meditar a ser triste." (p. 44)


Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão: Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Matéria de estrelas

Na companhia das estrelas, e de Luísa Dacosta, vamos pedir um desejo:


"Somos matéria de estrelas, mas uma matéria dolorosa, capaz de sentir e de provocar dor. Tão desamparados! Tão sozinhos! É terrível que não possamos esmagar-nos ou colher-nos, que tenhamos de nos olhar neste silêncio martirizado de criaturas vivas e prisioneiras.
- Estrelas, minhas irmãs, aqueçam o meu coração no bafo do vosso fogo, não o deixem ao desabrigo da noite! E tu, estrelinha cadente, que te desprendeste como uma lágrima de luz, em frente à minha janela, bem podias satisfazer-me um desejo!"


Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1990.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Corpo suspenso

Fechar o dia de bem com a vida, embalada pelo rolar das ondas e pelas palavras de Luísa Dacosta:

"Umas mãos longas, frágeis e inquietas, como raízes fora de terra, arrastadas pelo vento corriam-lhe o rio do corpo. Devagar. Sentia-lhes não o peso, mas a fragilidade quase feminina. Enconchavam-se-lhe nos joelhos e faziam um parapeito, solto e aberto, à flor dos seios. Invenção ou desejo? Devagar recomeçavam. Devagar. A polpa quase liquefeita dos dedos, deslizava ao longo dos braços, das pernas, arrepiando-lhe a carne com um sopro, quente, vago, que bicava a ponta dos mamilos e entumescia o ninho do sexo. Que sugava, como boca sôfrega, todas as papilas da pele, chamando-as a uma sensação táctil, corrida, como que brincada e apenas lúdica.
Se abrisse os olhos tomaria consciência do espaço, do tempo, do lugar, das mãos. Obstinava-se, porém, na quietude dos olhos fechados, prolongando aquela sensação de ter o corpo suspenso sob uma lubrina de desejo. Nenhuma boca viria. A adolescência não seria reinventada. Não haveria promessas de pássaros e madrugada. Subjacente havia essa certeza. Demasiado consciente, tesoura lúcida, a cortar o fio do sonho.
Na cama apenas um corpo. Abria os olhos à manhã que clareava, que tornava mais caiado o branco das paredes e a fechava no búzio do quarto.
O rolar das ondas trazia até ali um choro do solidão."


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1980.

Não me consumas, toma o comprimido

... ou de como resistir aos chatos deste mundo, cada vez mais numerosos:






Grande António Variações!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

pequeno salto sentimental

Irene Lisboa

O poema de abertura de Um dia e outro dia... - Diário de uma mulher:

A água dos rios
costuma correr
tranquila e monotonamente.
Os dias da nossa vida
assim correm também.
Lá vem hoje,
e lá vem daqui a tempos,
um pequeno salto sentimental
que os perturba.
Mas a igualdade do seu curso
e a do curso dos rios
refaz-se sempre, teimosamente...
Como poderá um diário
deixar de ser monótono,
corrente
e vulgar?

Irene Lisboa, Um dia e outro dia.../Outono havias de vir - Poesia I, Lisboa, Presença, 1991.

domingo, 23 de outubro de 2011

Cavaleiro monge




Há anos, no curso nocturno, uma aluna cantou este poema de Fernando Pessoa; ecoou pela escola toda e, assim, a poesia esteve lá.


Do vale à montanha,
Da montanha  ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.
                                
                                 Fernando Pessoa

[Ler também o poema de Antero, "O Palácio da Ventura"]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

E agora, para mudar de registo - Joaquín Cortés

Escrever no ecrã III

Acabada a leitura de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

"Épilogue: 1999-2000"

Algumas ideias:

- A recepção na Web é, pode ser, íntima;
- O diário online levanta questões legais, nomeadamente de citação e de autoria;
- Estas questões são não apenas de direito, mas também morais, podendo justificar a autocensura, provocada tanto por timidez, como por respeito pelo outro; a autocensura também pode ocorrer no diário em papel, todavia, nessa forma de escrita a liberdade é maior;
- A escita no computador perde o traço, enquanto a escrita na Web perde a solidão;
- Contudo, na internet o grafismo e a personalização recuperam a singularidade de outro modo atribuída ao traço;
- Tanto a escrita no caderno como a escrita no ecrã revelam um ritmo interior;
- Conceito de intimidade em rede;
- Esta escrita liga-se, por vezes à doença; nesse caso, não se escreve a dor, mas sim a resistência à dor;
- Coexistência do gosto do secreto, ligado à vontade de autenticidade, e do desejo de ser lido por outrem;
- Hipertexto, índice [arquivo]: a releitura é un gesto natural do diarista, quer a escrita se faça em papel ou no ecrã;
- Manter um diário é construir-se na duração, mas demasiado diário pode "ossificar" a personalidade; são necessárias paragens;
- Diário - dialéctica do espaço e do tempo;
- Diário - libertação;
- Nome - questão importante: nome próprio, nome de família (menos), ocultação do nome, substituído por apelidos fantasiosos ou outras designações, que são como máscaras; criação de uma nova identidade;
- Desejo de popularidade, e não de celebridade - "le rêve est de se recruter un petit cercle d'amis, d'avoir son fan-club." (p. 411).

Algumas citações:

- "[...] il n'est pas naturel d'écrire sur un cahier. Du cahier à l'ordinateur, on perd l'écriture et la trace personnelle. Du cahier ou de l'ordinateur à Internet, on pert la solitude. En revanche, je ne l'ai pas assez remarqué, on récupère, à defaut de l'écriture, la trace personelle. Pas un journal que ressemble à un autre, sur Internet, chacun veut se singulariser par sa «charte graphique», ce qui m'a d'ailleurs agacé. Mais par ce biais revient quelque chose qui est de l'orde du corps... ou de la toilette..." (p. 384)

- "Ce souci de l'enchaînement des entrées entre elles, et de leurs modulations internes, je l'ai aussi quand j'écris mon journal intime. Ce n'est pas un artifice, ça se fait tout seul. C'est simplement écrire en se sentant accordé à un rythme intérieur." (p. 385)

- "Sur Internet, le journal enfin respire, il s'étend sur une chair longue, il reprend ses aises. Le fichier, comme la feuille volante, se prête à merveille à l'écriture du fragment. Le dossier, mieux que le cahier, à l'accumulation indéfinie. Et le site est un jardin avec allées, ronds-points et perspectives, qui transpose, sans le réduire, le temps dans l'espace." (p. 422)


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O tempo está estranho

... já de há muito... mas nos últimos dias... bizarro...

Que tempos são estes?

Leitora à chuva
Incrédula

(Imagem retirada de aqui)

Respirar

Um poema inspirador, para estes dias:


INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.

David Mourão-Ferreira, Obra Poética, Lisboa, Presença, 1997.

domingo, 16 de outubro de 2011

Escrever no ecrã II

Continuação da leitura de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

Já na segunda parte, "Voyage, 1999" Lejeune apresenta a sua experiência na Web - um diário de aprendizagem, em linha durante um mês. Deste, destaque para a entrada "samedi 30 octobre", em que se sistematizam algumas ideias e se iniciam as conclusões. Aqui, discutem-se duas tendências destes diários - crónica ou diário -, como se pode observar nos seguintes excertos:

1- "En gros il y a deux tendances opposées (mais parfois associées): la chronique d'humeur et le journal intime." (p. 233)

2- "La chronique d'humeur puise souvent dans les petits faits de la vie quotidienne, mais ce n'est qu'un prétexte. Cela tient du billet journalistique et de l'atelier d'écriture. Un se trouve un petit sujet chaque jour. Tendance générale plutôt libertaire. Ça va rebondir avec les courriers qu'on reçoit, opinions discutées, expériences partagées, etc." (p. 233)

3- "le journal intime, lui, est en géneral du genre factuel et systématique (emploi du temps) et parfois impudique ou indiscret" (p. 233)

4- "La chronique provoque a la discussion. Elle suppose un effort de composition, et très souvent la recherche d'un "ton" [...] On se fait une voix reconnaissable, un style plus ou moins marqué, on pousse sa personne au personnage." (p. 234)

5- "Le journal quête la sympathie. Il repose sur le laisser-aller, prenez-moi comme je suis, on veut intéresser par une peinture fidèle et détaillée de sa vie, et non séduire par le charme de sa conversation. La composition est plus lâche." (p. 234)

6- La chronique est souvent une sorte de flirt avec le journal intime, elle le frôle, elle le taquine, mais finalement l'évite, ou plutôt c'est lui qui se dérobe." (p. 234)

7- "Difficile de généraliser sur des chiffres si faibles, mais les chroniques semblent mieux survivre que les journaux intimes." (p. 235)

[Para outro dia, a leitura de "Épilogue, 1999-2000". Fica a interrogação: Que tendência segue este blogue? Crónica ou Diário?]

sábado, 15 de outubro de 2011

Às vezes é assim

Hoje, um dos mais belos poemas, um dos seus muito preferidos:

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Antero de Quental, Sonetos, Lisboa, Sá da Costa, 1984.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Desacordo

Acabada de chegar de uma sessão de esclarecimento sobre o novo acordo ortográfico.
O locutor, mui sabedor das regras de falar em público: a graçola inicial, warming, a referência ao lugar, o sumário do percurso, o suspense, o envolvimento do auditório, e as regras interactivas, com seu powerpoint, a conclusão, com nova graçola, a nuancezita semi-brejeira a fechar! Que lindo! O acordo ortográfico é lindo, as novas regras são muito mais simples, as excepções não têm explicação, o melhor é decorá-las. Para colmatar tanta lindeza só falta a facultatividade e a consagração pelo uso, que, em caso de dúvida, se resolve com o vocabulário publicado no dito site oficial, e o que faltar logo se verá.

Alguém saberá da necessidade do novo acordo ortográfico? E, já agora, dos seus custos? Haja paciência!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Como?

O alter ego da leitora está a ressequir. De manhã suores, a partir do almoço, a pele a estalar, o cabelo a estranhar-se, longe, longe do viço habitual. Agora, ao abrir o computador, o inacreditável!

[O melhor é esquecer e ir ali à procura de cremes hidratantes, paliativos...]

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Escrever no ecrã

Primeiras leituras de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

Até agora, parece interessante e com matéria para reflexão, mas já datado. Realmente, é inegável que os meios informáticos  e a Web, em particular, se desenvolvem a uma velocidade vertiginosa e que os estudos de ontem se apresentam já com atraso. Neste estudo, a  manutenção de um diário online parece ser uma coisa ainda rara, nomeadamente em França. Que distância!

Todavia, registem-se algumas questões levantadas a propósito da escrita no ecrã:

- Traço;
- Distância;
- Correcção;
- Confidencialidade;
- Releitura;
- Virtualidade;
- Comunicação.

Na primeira parte do livro, Lejeune analisa as ligações entre o caderno (escrito à mão, em papel) e o ficheiro digital; só na segunda parte reflecte sobre a escrita online, considerando que, em muitos casos, esta escrita "intimista" evoluiu do caderno e da caneta ou lápis para o ecrã, primeiro guardado em ficheiros, depois publicado, o que não impede que, por vezes, ocorra em vários suportes e registos...

Qual terá sido o percurso dos leitores deste espaço? Primeiro o caderno, depois o ficheiro secreto, e só recentemente o blogue?...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ligações



"O menino de sua mãe", de Pessoa, e "Guernica", de Picasso, evocaram outro poeta e outro. Aqui fica Carlos de Oliveira:



CRISTAL EM SÓRIA



Sumário

Nas colinas de António Machado
Descrição da guerra em Guernica
Rio, despedida



[...]


[Descrição da guerra em Guernica - Excerto]

X

O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar;
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura;
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos; com o suor da estrela
tatuada na testa.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1998.

domingo, 9 de outubro de 2011

Mestres

O psicanalista tem de fazer psicanálise, diz-se.
Quem ensina tem de aprender e ver-se a aprender, diz.

Manuel da Fonseca e o Neo-realismo




Sabe bem aprender. Foi o que aconteceu no congresso internacional Manuel da Fonseca: Por todas as estradas do mundo. Conferências e comunicações interessantíssimas, que deram à leitora outra possibilidade de entendimento do poeta e do escritor, bem como do Neo-realismo, período em que se insere. O resultado é a vontade de reler o pouco que conhece deste autor - O Fogo e as Cinzas, quase nada - e de descobrir a sua poesia. Deu uma volta às estantes, e nada!

Têm por aí algum poema de Manuel da Fonseca? Um vosso preferido, que aconselhem?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Leituras partilhadas

G. reagiu à última entrada. Tão amáveis as suas palavras, e tão evocativas!
Foram tempos intensos, a vários andamentos; por vezes, o caos. Houve fios a marcar o caminho - as mensagens, as chamadas...

São mais leves as leituras partilhadas.

[Esperemos que, ao invés, não se reabram feridas não cicatrizadas.]

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Diário íntimo - diário pessoal

Escrever no ecrã ou escrever no caderno...

A incumbência era a escrita do diário, com regularidade, em qualquer suporte, mas hoje foram introduzidas restrições: distinguir e problematizar a dicotomia público / privado e... escrever à mão!
Que estranheza! Enquanto as vozes soavam, a leitora reparou que há muito não escreve à mão. Antigamente, até ao ano de 2002, o mais íntimo, diário e cartas, pedia uma caneta ou um lápis e seguia o movimento da mão sobre a folha de papel, desenhava-se uma caligrafia ora trémula e hesitante, ora corrida e urgente... Significa esta alteração menos autenticidade? Por que aderiu a leitora tão facilmente à escrita no ecrã, com a sua formatação pré-definida? Talvez isso se deva àquela característica que José Cardoso Pires reconheceu ao computador: é uma máquina de apagar. O lápis, tão seu preferido, tem como correlato estas sombras que facilmente se emendam, se rasuram, se movem; mudaram os instrumentos, não se alterou a pulsão correctora. E depois, que bom é olhar para o escrito, limpinho, certinho, tão acabado e tão simples (na aparência), sem vestígios de dificuldade, essas cicatrizes que o grafite, por mais macio, sempre deixava.
Quanto ao secretismo e à sua oposta exposição, esta última característica do blogue, muito há a analisar. Desde logo, duvida-se que a oposição seja assim tão evidente. De facto, se o acesso público ao ecrã é inegável, isso não significa que não haja segredo. A leitora que aqui se mostra é uma representação, constituída por diversos fragmentos que a aproximam e, simultaneamente, a afastam daquela que manipula as teclas.
Não existem nomes próprios, dela ou dos seus conhecidos corpóreos? Não existem referências concretas ao curso dos dias, às suas horas e aos seus afazeres? Só uma parte da vida aqui se espelha? Mas se é a melhor parte! É o lado do sonho, da evasão, das amadas palavras, aquele que aqui se regista e procura. Não cabem neste lugar maledicências, notas mesquinhas ou desabafos verrinosos, tentativas vãs de escapar ao mal dos dias. Não quer conspurcar o seu diário com a usura do quotidiano e a náusea, com o medo, o maior veneno, ainda que aqui e ali toda a pequenez e toda a dor se manifestem, tingindo de escuro os fundos dos separadores...
Apesar de tudo, é evidente que o facto de a criatura saber que pode ser vista por qualquer um influencia a escrita. Será este diário menos íntimo do que outro que ficasse fechado na gaveta ou no ficheiro pessoal? Sim, por certo. A possibilidade de público também motiva a divulgação de textos de diferentes géneros, versando temas e motivos que, crê-se, poderão interessar a terceiros. O diálogo, concretizado através de comentários escritos ou de viva voz, institui outra diferença em relação a essas folhas escondidas no compartimento secreto, inacessíveis.
O blogue perde em intimidade, mas continua a ser pessoal. Há uma autoria, há uma identidade (já não diz um estilo; isso é que seria o supremo encanto!)

[A reflectir: diferença entre os conceitos de diário pessoal e diário íntimo]


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Jogos de lágrimas e neurastenia

Leituras de Manuel Laranjeira (1877-1912):

"1908
1ª Agenda

[...]

Terça, 18 de Agosto

A Augusta também tem a suas horas de desfalecimento e tédio. Hoje - seria impressão minha apenas? - falou-me como se fala a um estranho, a alguém que nos não compreende.
Isso amargou-me. Não pude conter-me e disse-lhe: - Augusta, não mates este amor. Deixa-o morrer...
Começou a suster as lágrimas, a sustê-las, a sustê-las, e rompeu a soluçar despedaçadamente. Saí e fui deitar-me encolhido, a sofrer, a sofrer geladamente...

[...]

Terça, 6 de Outubro

Chego a casa da Augusta muito tarde. Está acordada e a chorar...
- Por que choras?
- Tu vingas-te tão secamente, tão cruelmente!
- Vingo-me!
- Pois não estás zangado comigo?
- Eu não!
Afago-a muito: ela aperta-me muito, num choro nervoso, convulso, como querendo impregnar-me o corpo, a carne de carinho... E eu pergunto a mim mesmo, maravilhado, se não estarei em face duma criatura rara, daquelas que só desejam viver a vida com um pedaço de pão e muitas ilusões..."


Manuel Laranjeira, "Diário Íntimo", in Obras de Manuel Laranjeira, vol. I, Porto, Edições Asa, 1993 (organização, prefácio e notas introdutórias de José Carlos Seabra Pereira). 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

o melhor, enfim

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

[...]

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

[...]

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

Calor de Outono

A disciplina trouxe-a aqui, mas hoje nem leituras nem meditações, só calor, calor, calor! Outonal torpor!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Narciso e outros espelhos

James Waterhouse, "Eco e Narciso" 

É conhecida a história de Narciso e da ninfa Eco, ambos perdidos por amores nefastos: ele apaixona-se pela própria imagem, reflectida nas águas límpidas; ela ama aquele que a repudia, ao reconhecer a alteridade da sua voz. O destino dos dois é a morte, pois se da jovem restará apenas os ossos e a voz (a voz intacta, os ossos transformados em rochedo), do belo filho de Liríope e de Cefiso restará tão somente uma flor branca de corola vermelha, conhecida como narciso ou como flor-de-lis.
Eco e Narciso representam, respectivamente, o paralelismo da imagem vocal e da imagem visual e a duplicidade que estas evocam. O mito congrega ainda o amor, a beleza e a morte, pois se a beleza suscita o desejo e afecta tanto rapazes como raparigas, é ela que seca e devora Eco, primeiro, e depois o próprio Narciso. É a beleza que, inflamando os jovens de desejo e amor, provoca a sua destruição.
O espelho das águas ou o seu similar espelho de vozes constituem lugares de perigo e perdição amorosa.

A propósito deste objecto, ressalve-se que para os gregos ele era um lugar de atracção, de fascínio e de captura. Por esta razão, o espelho estava interdito aos homens, havia que os salvaguardar do perigo de fechamento sobre si e da consequente alienação. Estava, então, reservado às mulheres, cuja condição se definia precisamente pelo fechamento e pela alienação, pois que era o outro por excelência.
Todavia, se o espelho separava, também unia, uma vez que era um elemento essencial nos preparativos nupciais, deste modo constituindo-se como um símbolo erótico. É ao espelho que a mulher se prepara para suscitar o desejo masculino, sendo que antes de ser vista ela deverá ver-se, reconhecer-se sujeito e objecto do olhar, do desejo, do amor. O espelho acompanhará a mulher até que, já velha e desistente de Eros, o deposite no templo, tal como antes fizera com a sua boneca, no adeus à infância.

Sobre esta relação dos gregos com o espelho, e da mulher em particular, escrevem Jean Pierre Vernant e Françoise Frontisi-Ducroux:

"[...] Le sentiment premier qui l'anime est le soucis de sa beauté. Son désir est tourné vers elle-même. D'où la fonction du miroir, précieuse prothése visuelle, troisième oeil artificiel. La chance de l'amant est de pouvoir prendre la place de se fidèle compagnon. Et, en se faisant miroir pour offrir à sa belle um reflet rassurant et conforme d'elle-même, de l'inciter à devenir à son tour un miroir qui lui retourne docilmente son amour... et qui, un peu plus tard, pourra le dupliquer en reproduisant les images qu'il aura imprimées en son sein.
Voilá pourquoi Écho est une femme. Vivant miroir vocal. Désir voué à n'être que réponse. Voilá pourquoi Narcisse est un garçon. Narcisse étranger au désir, qui refuse de se faire miroir d'autrui, et que les dieux condamnent, pour ce refus, au désir vain de soi, qui n'est erreur et faute que parce qu'il est un homme. Quelle femme d'ailleurs s'y serait laissé prendre?"

 Françoise Frontisi-Ducroux e Jean Pierre Vernant, Dans L'Oeil du Miroir, Paris, Editions Odile Jacob, 1997.

sábado, 1 de outubro de 2011

O Esplendor da língua VIII

Liam um poema de Pessoa, "Ela canta, pobre ceifeira", quando aquela "voz, cheia/ De alegre e anónima viuvez" evocou uma outra, a do grande poeta Camilo Pessanha. De ecos e saberes se faz a leitura, por isso desviemos a nossa atenção para este poeta de primeiríssima água.



Camilo Pessanha


Gustavo Rubim, no verbete incluído no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, inscreve Camilo Pessanha (1867-1926)  nos alvores do Modernismo nacional, salientando a "desintegração do sujeito da poesia", característica que Eduardo Lourenço destacou em Pessoa, bem como a poética do desaparecimento e do vestígio, como marcas da obra de Pessanha - Clepsydra. A questão é analisada com mais profundidade e complexidade do que este apontamento sugere, mas deixemos a hermenêutica e ouçamos a palavra poética em todo o seu esplendor: 


AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

(A Ovídio de Alpoim)

 Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões scintilla
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla.

E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flebil... Quem ha-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Agua, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

Enigma

Andam às voltas com o insondável, o enigmático, o esquivo EU.

Para ajudar, aqui fica o poema de Mário de Sá-Carneiro, curto mas incisivo:


                       7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio;
      Pilar de ponte de tédio
     Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.