quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Alcachofras e exames

Estamos sempre a falar de exames. Que bom seria calarmo-nos todos, para lermos e aprendermos com gosto e de forma profunda. Ou então para saltarmos fogueiras e queimarmos alcachofras. Ainda se lembram?

(Imagem retirada da internet)


Não sendo possível fugir, nem a provas nem a outras provações, talvez as palavras de um escritor, que se diz de "um optimismo difícil", nos possam ajudar a calcorrear os dias com mais leveza:


"Pedi à Rosalia que cortasse algumas alcachofras para as queimarmos logo em boémia de S. João.
Tentativa de deixar alguma sedução do Passado ao Alexandre...

*
Já em Lisboa, a Maria põe entraves:
- Mas, Sr. Doutor: não há fogueira, para queimarmos as alcachofras.
- Não faz mal! Temos de acompanhar o progresso... Queimam-se no fogão de gás.
Para acompanhar outra evolução, o Alexandre, preocupado, propõe queimar a alcachofra que lhe compete, para saber se passará, ou não, no exame do 5º ano.
Protestamos todos em nome das nossas infâncias, quando o amor dependia de forças encantadas que arrancavam flores de espinhos.
- Que tem o amor com os exames, Alexandre?
(Os exames são só ódio.)"


"Sensação imprevista.
O ponto de exame de francês do 5º ano inclui um trecho da Enseada Amena do Abelaira, para verter para francês!
O Carlos:
- Os rapazes vão passar a odiá-lo, como odeiam o Camões e o Pessoa.
O Abelaira esfregava as mãos, de feliz:
- Que publicidade! Desta nem o Cardoso Pires se pode gabar!
[...]"

José Gomes Ferreira, Dias Comuns V: Continuação do Sol, Lisboa, D. Quixote, 2010 (Diário - 1 de Junho de 1968 a 22 de Setembro de 1968).

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

a palavra poética, poetas e tradutores


[Poema retirado da colecção Poetas em Mateus, resultante de um encontro de poetas -  "seminário de tradução colectiva", cujo princípio é simples: dois poetas estrangeiros são convidados da Fundação da Casa de Mateus durante cinco dias e, com eles, poetas e tradutores portugueses. O encontro realiza-se a partir da tradução colectiva de um conjunto de textos, cuja versão se publica, revista e, por vezes, completada por um dos participantes." (da contracapa)]

Poeta, dizem do apaixonado,
poeta dizem de quem chora ao anoitecer
e de manhã se levanta em desespero.
Mas também se diz poeta quem alegra,
quem sabe falar bem, beber, comer,
e o que canta as mulheres, poeta ainda,
a juventude extasiada.
Mas os que matam nos outros a poesia
fechada à chave, e os afogam
no grande livro da vida... paciência!
Não são poetas, homens de bem não são.
São massa informe, e pronto, e assim seja.

Franco Loi, Memória, Lisboa, Quetzal Editores, 1993 (tradução colectiva, revista e apresentada por António Osório - Mateus, Março de 1992).

Exercício escrito [com ruído]

DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA

Para a Beatriz Vieira



Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso di-
zer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira – lembro-me sempre da Benilde do
Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel – o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)

Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.


João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora – Segunda Parte, Lisboa, Presença, 1988.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ondas revoltas

Arrumando esquecidas gavetas, eis que se encontra este belo texto, uma entrada de um antigo diário (2006):


Há muitos anos, M. ...

 As ondas revoltas, Op. 46, Nº 1

Nicolai Rimsky-Korsakov

Texto de Alexei Tolstoi

 
As ondas revoltas rebentam tão alto. Os meus olhos ardem com a sua espuma salgada. Sentado, sozinho na praia selvagem e rochosa, sinto voltar toda a minha coragem. As ondas, no seu penoso fluxo e refluxo, as suas cristas correndo e espumando tempestuosamente. Oh! Oceano, terei que suportar sempre a derrota? Ou alcançarei a felicidade?
O meu coração parece pressenti-lo. A vida é tão bela e toda a minha dor foi por vós, ondas, afastada. A vossa paixão tempestuosa fundiu-se com a minha. Amanhã encontrarei o meu amor.
 
...

[Do registo musical não há vestígio; nem na internet se encontrou uma versão grátis. Alguém tem por aí, à mão, um link para que possa completar esta lembrança?]

Generosa oferta de -pirata-vermelho-, estas duas ligações:

- Youtube


- Classical Archives.

sábado, 19 de novembro de 2011

Espelhos repentinos

"Uma gata no Ginjal"
(Fotografia da autora de Um jeito manso)


As pessoas são deveras cativantes e ainda mais. Vamos pela rua, entregues aos nossos pensamentos centrípetos, quando de repente, não mais que de repente, somos despertados, quase absorvidos, por um súbito olhar, que (se) nos revela. A face reflecte a alegria, a cintilação da simpatia... os olhos abrem-se ao susto da luz, que brilha no cinzento outonal e fixa o instante...
Depois, são correrias ao longo de incertas paredes musgosas, danças de esconde-esconde, dizeres de faz-de-conta. Até que
                                                             Até que um vulto se perde na distância, orelhas baixas, olhos de névoa e fechamento.
Caiu em si e na sua condição, regressa a habituais andamentos, procura espelhos outros? Como sabê-lo, se tudo é ausência e cerração?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

poesia 61 - a voz dos poetas

Hoje, a ouvir Gastão Cruz e Casimiro de Brito sobre a poesia 61, e a lembrar tantos poemas lidos com tanto gosto!

poesia 61: Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta.

O primeiro encontro, em 91 - Gastão Cruz, As Leis do Caos:

I'm far from being a pessimist. I see life
as a gorgeously-ironical, beautifully-indifferent,
splendidly suffering bit of chaos.

Eugene O'Neill (carta; 1923)

[Epígrafe do livro]


O ADJECTIVO

Na superfície o adjectivo brilha
O seu rosto reflecte a luz do dia
e cobre os nomes com um céu proibido


Gastão Cruz, As Leis do Caos, Lisboa, Assírio e Alvim, 1990.

sábado, 12 de novembro de 2011

Olhai e vede como se estivésseis presentes

Hipotipose

Uma das mais belas figuras de estilo, ontem relembrada. O E-Dicionário de Termos Literários (Carlos Ceia) define-a assim:

"Descrição entusiástica, dinâmica e animada de uma pessoa, coisa ou acção, em regra ausente no momento da descrição, mas cuja presença é assumida de forma fantástica. Quintiliano prefere designar esta figura como ilustração vívida (Institutio Oratoria, IX, ii, 40-44), atribuindo a Celso a designação grega, que traduziria qualquer representação enérgica de factos, de tal forma que se criaria uma ilusão óptica de realidade. [...]"

Sonho

Com confiança na linguagem e na sua capacidade de nos tornar presentes mundos oníricos, voemos para lá da noite, na companhia de um belo pássaro lunar e destas palavras mágicas:

"Magicamente, o pássaro transformou-se. Deviam ser assim  as aves do paraíso. Eram com certeza. O corpo lunar recolhia, agora, todos os reflexos da luz da manhã clara e devolvia-os numa brita lantejoulada, de arco-íris. E a menina pôs-se a amá-lo tanto que sempre que o seu coração anoitecia entrava no corpo luarento e espelhado e voava pela janela.

Que estranhas eram as noites! E que bom era voar! Não havia limites: tudo era amplo, liberto, sem fim. Espaços ora sombrios e nevoentos, ora floridos de estrelas, sucediam-se num deslumbramento. Aos pontos luminosos da noite, respondiam outros pontos, luminosos, na Terra. Eram as casas, os navios, as cidades dos homens que, vistas assim de cima, pareciam enormes teias de aranha, preciosamente orvalhadas. Os faróis dos carros, os comboios riscando as trevas, semelhavam estrelas cadentes. E a menina aventurava-se cada vez mais e mais. Subia e respirava aquela liberdade única: a do sonho."


Luísa Dacosta, Menina Coração de Pássaro, Porto, Asa, 2002.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.

Chegou a casa acompanhada de um tom desarmonioso. A crise lá fora, o desconforto dentro da sua alma, um gosto amargo a quotidiano a rasgar a boca. Mas, felizmente, há palavras que oferecem bálsamos - as sugestões e partilhas de Um jeito manso, a vivência da poesia, alma e corpo, duas faces da mesma vida.

Foi assim que se lembrou de Maria do Rosário Pedreira e das mais belas palavras: casa, livros, perfume, amante, silêncio, noite, aves, corpo, genciana, flor de laranjeira, o teu nome suave, voo...


A Clean Miss
(imagem retirada de aqui)



Contam que as sombras permanecem agora mais tempo sobre
as dunas e que a flor de laranjeira rebentou pelos caminhos,
encantando as viagens; que os morangos crescem, se os dedos
se aproximam, e que já se ouve, ao longe, um rumor de asas
contrário a qualquer vento. Falam de um perfume estranho
que paira pela cidade e das palavras soltas que os rapazes
andaram a escrever pelos muros em segredo. E eu não sei nada

disto que me contam, nem me aquece a luz quente que,
como dizem, afaga de manhã os ombros de quem passa e vai
a outro lugar sentir o mesmo lume. E eu também já não sinto

a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite
à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-me
dos gatos. Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.


Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros, Lisboa, Gótica, 2002.

domingo, 6 de novembro de 2011

Sagesse

Há momentos, a fechar o Câmara Clara, foram mais ou menos estas as palavras de Rui-Mário Gonçalves:

"Os artistas são muito generosos, porque se exprimem, e ao exprimirem-se dão-se, entregam-se. Nós só os entendemos se nos entregarmos também."


Fugas

Enquanto ela se entrega a árdua tarefa, deixemos a leitora com os seus pequenos prazeres: Música.


Johann Sebastian Bach


[É tão antiquada, a nossa escola. Ainda e sempre as mesmas provas, quaisquer que sejam as mudanças. Como há décadas, desconsiderando continuamente a vertente artística, esquecendo o tempo...]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Esplendor da Língua IX

O escuro, lá fora...


CREPUSCULAR

Ha no ambiente um murmurio de queixume,
De desejos d'amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madre-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exhalam pelo espaço
Tem deliquios de goso e de cançaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se spasmos, agonias d'ave,
Inaprehensiveis, minimas, serenas...

Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.


Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

Poesia...

 (Índios Comanches, EUA)

Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i nai ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná


Herberto Helder, "Magias", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.