sábado, 31 de dezembro de 2011

Bom Ano de 2012!


A todos os leitores, desejo o melhor para o Ano Novo! (Mesmo que seja preciso muito sentido de humor, imaginação e capacidade de conciliação.)

Deixo-vos com um momento musical, a princípio, estranho, mas que, de repente, apetece.



Moonspell e Carminho

Um Abraço!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cafés

Com este tempo frio, e depois de um breve período em casa, como compete em pausa lectiva, apetece um café, mas não um café qualquer - um café de Steiner. Este maître à penser considera estes espaços um dos traços identitários da Europa, e apresenta-os de tal forma, que cria o desejo de sair da clausura doméstica e entrar nesse sedutor cronótopo. Leiamos, então, o que escreve:

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky."

George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2007, pp. 26-27.

Textos com esta densidade e clareza de ideias despertam a vontade de agir, de pegar nos livros dos autores citados e passar horas e horas em cafés estético-literários. Mas o que temos não é bem a mesma coisa, nem o tempo, nem o modo de vida...

Resta imaginar.

Correspondência

Terminada a leitura de:
António José Saraiva e Luísa Dacosta: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2011 (edição, prefácio e notas de Ernesto Rodrigues).
Este livro constitui o segundo volume do tríptico epistolar de António José Saraiva, tendo sido publicado já o livro António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2004 (selecção, edição, prefácio e notas de Leonor Curado Neves, com a colaboração de Ana Sequeira de Medeiros); o terceiro incluirá as cartas dirigidas a Teresa Rita Lopes. Assinale-se que, se o livro de 2004 reproduz algumas cartas de Óscar Lopes, ainda que em número reduzido, o de 2011 apresenta apenas as cartas de Saraiva, de 22 de Abril de 1961 a 20 de Dezembro de 1965, não sendo, assim, possível a recepção directa das palavras de Luísa Dacosta, continuamente evocadas. Explicação para esta omissão nunca é dada ao leitor, pelo que resta lamentar e esperar por uma eventual edição futura da correspondência de Luísa Dacosta.

As cartas agora lidas têm como vocativo “Minha Amiga”, o que desde logo mostra a relação que unia os dois intelectuais, relação de grande amizade e colaboração, como se evidencia a cada passo da leitura, seja através da discussão de ideias, seja pelas referências a pesquisas que Luísa Dacosta realizava em Portugal a pedido do seu amigo exilado em Paris, seja pelo constante reconhecimento do apoio moral e prático dado pela escritora.
Para além da matéria privada e particular, observam-se nestas cartas as impressões de Saraiva sobre política, literatura, política, filosofia, bem como considerações relativas aos seus trabalhos em curso. Também a crítica aos escritos de Luísa Dacosta publicados, especialmente às suas Notas de Leitura saídas n’O Comércio do Porto, surge em várias missivas, incentivando o intelectual exilado a sua Amiga a continuar. A referência à actividade literária da escritora é escassa, pois esta era igualmente escassa, no que respeita a obras publicadas (o seu primeiro livro, Província, data de 1955; o segundo, Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu, será editado em 1969), todavia citam-se, a propósito, estas passagens significativas: “E como vai a sua actividade literária? Continua a pensar no livro de contos de que em tempos falámos? Dê-me notícias a este respeito.” (p.96); “Agradeço que me tenha enviado (e que continue a enviar-me) a sua prosa de ficção. Creio que o seu caso é o de quem oscila entre o ensaio e a ficção pura, e lembro que a sua originalidade talvez esteja na possibilidade de reunir ambas as virtualidades num só texto. Estarei vendo bem? É por isso que eu a encorajaria a cultivar o modo «impressionista» que tanto me agrada nas suas críticas literárias. Não se deixe tentar pelo «raciocinantismo» (de que não consigo desembaraçar-me). Mantenha nos seus ensaios aquela frescura com que reage e o azul do mar, e até aquele género de prosa que não se embaraça com articulados.” (p. 130)

Esta correspondência constitui, então, um documento de uma época, com as suas vicissitudes políticas, económicas e sociais, estéticas, literárias e filosóficas, na Europa e em Portugal, em geral, e da mundividência do intelectual português exilado, naqueles anos sessenta do século XX. Traz mais um contributo para o retrato de uma geração. No entanto, não é este o único benefício da sua leitura; permite uma compreensão maior da obra de António José Saraiva e da sua personalidade, assim como um vislumbre do estilo e da personalidade de Luísa Dacosta. The last, but not the least,  as cartas agora publicadas revelam a importância da amizade e do diálogo fecundo entre os dois Amigos, como esta passagem deixa perceber: “O seu apoio, de você, Luísa, tem-me sido extraordinariamente bom e estimulante. Mas não maldiga nem lamente o tempo que tem gasto a escrever-me. Eu preciso de uma compreensão que vá além das ideias, porque, como digo ao Óscar, estas não são mais que um revestimento provisório, e que a gente deve sempre estar disposto a mudar de uma atitude vital, dentro da qual deve fazer-se a nossa coerência. Não calcula como lhe estou grato pela sua compreensão (que não quer dizer necessariamente concordância), para além da expressão ideológica de que me revisto.” (p. 96)

A fechar estas notas de leitura, destaque-se um apontamento de António José Saraiva sobre o seu tempo e o papel dos intelectuais na realidade então vivida, pela pertinência que parece ter para os depressivos tempos actuais: "A que ritmo bate o coração português? Sabíamo-lo em 1940; não o sabemos hoje. Tudo tem de ser repensado. E, por isso, talvez o dever mais urgente do intelectual português seja o de pensar seriamente a nova realidade, pensar asceticamente, sem concessões de oportunidade, sem considerações que não sejam as do próprio vigor do pensamento. A época é de transformação e desintegração, e, por isso, também de consciencialização de uma situação nova." (p. 91)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Oferecer livros



Vista aérea da Biblioteca de Alexandria 
(fotografia retirada do site oficial)

Em qualquer momento se oferecem livros, mas a época natalícia é especialmente indicada para se presentarem os amigos com estes fantásticos objectos. Todos os leitores o fazem.

Há leitores, todavia, que vão mais longe, e decidem dar os volumes que já não cabem nas suas estantes também às bibliotecas escolares. É um gesto de cultura e de amor aos livros que deve ser reconhecido, pois enriquece aquelas bibliotecas e os seus frequentadores, jovens leitores, a crescer, a abrir horizontes, a aprofundar raízes...

Hoje a generosa oferta foi de G.

Amanhã? Quem os lerá? Quem os multiplicará?

Lisboa, a bela



Hoje o passeio foi pela Baixa. A azáfama pelas ruas, pelas lojas já em saldos. Agradáveis as compras, a caminhada e, em especial, o almoço. À mesa com D.: os pratos lindos ("trouxinha" de bacalhau espiritual com salada a condizer, pão com salmão fumado em muitas e saborosas cores, óptima tarte de maçã com gelado, café e vinho, claro), boa a conversa, o espaço elegante, sem exageros. Bela tarde. Só Lisboa, com este sol de Inverno esplendoroso!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

É Natal


A todos os leitores deste blogue, um Feliz Natal e um Ano Novo cheinho de Alegria!



John Melhuish Strudwick,
Madonna and Child with attendant Angels


"- Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe em soluços:
- Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia e curta é a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança mumurou:
- Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
- Aqui estou."

Eça de Queirós, "Suave milagre" in Contos, Porto, Anagrama, s.d. (colecção Clássicos Anagrama- 22) 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Leituras em tempos contrários

De regresso aos bons livros

Início da leitura de um livro interessante e consolador, nestes tempos tão contrários a qualquer esperança, consolador pela inteligência, pela cultura e pela coerência de uma vida conturbada.

Mário Soares, Um político assume-se: ensaio autobiográfico, político e ideológico, Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011.

Do Prefácio:

"De momento, e no seguimento do último livro que publiquei, Elogio da Política, vou apenas descrever-vos o meu itinerário político e ideológico - que vale o que vale; pouco, provavelmente - sujeito às circunstâncias do lugar e do tempo, nesta terra que sempre amei apaixonadamente, Portugal. O mar, a terra, a História, as pessoas, nas suas qualidades e defeitos, a luz e as paisagens, tudo isso me influenciou. Para além dos grandes eventos nacionais e mundiais, que segui com atenção - e em alguns participei - e me marcaram, a língua portuguesa, a única que falo corretamente, e a importância da Lusofonia."

"É uma reflexão sobre esse longo e conturbado caminho, com altos e baixos, acertos e desacertos, vitórias e derrotas, ao serviço do Povo Português, a que me honro de pertencer, que vos ofereço neste livro: uma espécie de autobiografia política e ideológica, orientada por valores humanistas e princípios éticos e políticos, que nunca abandonei." 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Olhar de leitura


(Imagem retirada de A Livreira Anarquista)

Há textos que fazem bem ao ego das Leitoras, como este, encontrado no blogue O Jardim Assombrado:

Namora uma rapariga que lê

"Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)

[Este texto já tinha sido lido nesta sala.]

Um livro nunca acaba



(Retirado da internet)


sábado, 10 de dezembro de 2011

Keep young, beautiful and charming




Annie Lennox - excelente cantora, intérprete fantástica

out of Elsinore


Odilon Redon, Ophelie



"Queen: There is a willow grows askant the brook,
That shows his hoar leaves in the glassy stream,
Therewith fantastic garlands did she make
Of crow-flowers, nettles, daisies, and long purples
That liberal shepherds give a grosser name,
But our cold maids do dead men's fingers call them,
There on the pendent boughs her crownet weeds
Clamb'ring to hang, an envious sliver broke,
When down her weedy trophies and herself
Fell in the weeping brook. Her clothes spread wide,
And mermaid-like awhile they bore her up,
Which time she chanted snatches of old lauds,
As one incapable of her own distress,
Or like a creature native and indued
Unto that element. But long it could not be
Till that her garments, heavy with their drink,
Pulled the poor wretch from her melodious lay
To muddy death."


William Shakespeare, Hamlet: The Tragedy of Hamlet, Pince of Denmark, Cambridge, Cambridge University Press, 1980 (ed. John Dover Wilson).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

You are welcome to Elsinore

Mário Cesariny, grande, grande poeta!



you are welcome to elsinore


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte    violar-nos   tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores vevenosas    portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados,
e entre nós e as palvras, o nosso dever falar


Mário Cesariny, pena capital, Lisboa, Assírio e Alvim, 1982.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Diário de Maria Amélia II



Jacek Yerka, Boudoir


Vêm chegando, uma a uma, em pequenos grupos, todas envoltas nos seus cachecóis de lã, ora lisos, ora de múltiplas cores, nos seus sobretudos aprumados, nas suas calças de mulher ou saias de andar. Vêm chegando, na sua nuvem de perfume e cinzentismo. Vêm chegando e sentam-se a esmo, trocando dizeres, até que o burburinho se desvie para a sala combinada.
Aí, perfilam-se, canetas em riste, cadernos abertos, a prontidão para o apontamento, para a palavra conveniente. Como perder a necessária orientação para o movimento do espanador? Limpar o pó é uma tarefa assaz complexa e importante. Dela depende a harmonia da casa, o uniforme semear de ácaros, o competente brilho, o justo entendimento da escrita na areia, frases em letra de imprensa a duas colunas, o mistério a abrir-se. Mas nem só de poeira se faz a lida. É preciso compor as jarras com as flores que cada uma trará do seu jardim, assegurar que condizem com o lavrado do tapete, garantir que a natureza está no seu devido lugar e na medida certa, q.b. Ah! e as cores, não esquecer o cromatismo e o jogo de contrastes! E o ritmo? Como marcar o ritmo? Foi muito pertinente a intervenção. Máquina de costura, máquina de lavar, passos de chinelo, o crepitar das chamas, nada é esquecido, nada será deixado ao acaso. Até o cantar de galo e o carrinho de linhas têm o seu sítio exacto.
Só a pequena trupe esquipática destoa de tão concertado ambiente. Querem almofadas para espalhar suas cabeleiras, águas horizontais para licenciosos banhos, querem espelhos de fixar medusas e outras excentricidades. No entanto, seja qual for a sua vontade, a tarefa futura já lhes está destinada - contar os espinhos do cacto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Claridade

Para C.


Às vezes, reparamos no correr vivo e humano dos dias...
Se a cerrada névoa obscurecia tudo, hoje a ingenuidade e o movimento do aprender clarearam a paisagem. Fez-se sentir uma temperatura amena e boa.

Eis que surgem pedidos inesperados: a selecção de excertos do conto "O Homem", de Sophia de Mello Breyner Andresen. Aqui fica.

"A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana."

"Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. [...] No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.
Como contar o seu gesto?
Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta."

"Agora eu penso no que poderia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas."

"Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:
- Pai, Pai, por que me abandonaste?
Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começava a prova do último suplício: o silêncio de Deus."

"Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas."


Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Homem" in Contos Exemplares, Porto, Figueirinhas, 1991(24ª edição).


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Corpo Recusado - Magnífico livro (aqui, um excerto)

"Exercícios de Imaginação

- Tu, porquê tu?
- E por que não eu? Em que falto eu ao teu sonho?
- Em nada. Só que nunca imaginei haveres de ser tu a doer-me, nem que vinha de tão longe a tua ausência.
- Afinal não para um encontro...
- Bem o sei, contento-me em respirar-te, em saber-te, longe...
- Cada vez mais longe...
- Perto, cada vez mais perto, uma vez que de longe o sabemos.
- Desde sempre?
- Desde sempre...


[...]


- A tua boca sabe a laranja, é um fruto de mil sabores.
- É o teu desejo que tem mil papilas...
- Não, não, é a minha boca que só existe na tua. Só na tua se abre e se sente.
- Por isso sou a tua margem, sem ti não tenho inquietas marés.
- Um dia esquecer-me-ás...
- E como é possível perder um sonho, tecido dia-a-dia?
- O tempo se encarregará de destecê-lo... Um dia virá em que os teus dedos já não saberão o toque breve e frio da minha boca... Um dia virá em que não saberei mais a tua timidez, quase sem gestos... não saberei mais. Ter-te-ei perdido para sempre. Para sempre.
- E quando será esse quando?
- Ambos temos o poder da destruição, um de nós o fará nascer.
- Tu?
- Tu."

Luísa Dacosta, Corpo Recusado, Porto, Figueirinhas, 1985.

Queixa

Não é o frio do Inverno, não é o cansaço;
são os meus braços vazios, as veias exangues...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vozes amadas - da poesia trovadoresca aos cantares populares

O primeiro poema é uma cantiga de amigo, uma das mais belas; as quadras também cantam o amor e os seus perigos, e desafios, pois então!


Sedia-m'eu na ermida de San Simion
e cercaron-mi as ondas, que grandes son:
     eu atendend'o meu amigo,

     eu atendend'o meu amigo!

Estando na ermida ant'o altar,
(e) cercaron-mi as ondas grandes do mar:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi as ondas, que grandes son,
non ei (i) barqueiro, nen remador:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi as ondas do alto mar,
non ei (i) barqueiro, nen sei remar:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

Non ei i barqueiro, nen remador,
morrerei fremosa no mar maior:

      eu atendend'o meu amigo,
      eu atendend'o meu amigo!
    
Non ei (i) barqueiro, nen sei remar,
morrerei fremosa no alto mar:

      eu atendend'o meu amigo,
      eu atendend'o meu amigo!

Mendinho

Alexandre PInheiro Torres, Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, Porto, Lello & Irmãos Editores, 1987.



Estimo e estimarei,
sentada numa almofada,
a fiar continhas de ouro,
salta cá, minha esposada!


Uma quarta de sabão
pra lavar o coração.
Uma faquinha amarela
para cortar a goela.


O meu amor é José
e eu queria um Joaquim.
Com tanto home no mundo
algum há-de ser pra mim.


(Luísa Dacosta)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Diário de Maria Amélia


(Eduardo Mãos-de-Tesoura - imagem retirada da internet)


É tão bom rapaz, tão bonito! Aquele olhar carente, a necessitar da nossa ajuda. Sim, pois, só nós ambas e duas o podemos compreender, se o aguardamos de há tanto tempo, desde que, meninas ainda, bordávamos sonhos, às escondidas. Quem mais? Temos de ver o que está para além, sim, de considerar todo o contexto, para o ajudarmos a ter sucesso. Tão jovem, tão promissor, tão querido, basta-lhe o nosso auxílio generoso, é evidente. A ausência de diálogo, a escassez de afecto. Ai, coitadinho!

Diz-me, espelho meu, estou linda, não estou? Este corte fica-me mesmo bem, não fica? Sou mais bonita do que ela, não sou? Hã?... Vejam bem isto, quer uma pessoa ajudar, ser boa, e depois, zás, ISTO! 

[Foge, foge, Menino, que te querem matar!]