domingo, 23 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

 
A todos os Leitores d' A Matéria dos Livros desejo um Feliz Natal!
 
 
 
 "Os Magos que não chegaram a Belém", com ilustrações de Maria Mendes
in Luísa Dacosta, Natal com Aleluia

Natal (III)



 
 
Os livros são um excelente presente de natal. Que bom dá-los e recebê-los! Ainda mais quando um duende brincalhão troca as voltas, mistura os presentes e, de repente, descobrimos que comprámos um livro para oferecer ao qual faltam as cinco páginas finais (Os Anos, de Virginia Woolf). É sempre bom ler os livros antes de os ofertar... bons hábitos... evitam embaraços... Teve graça!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Poemas de noite


o fim da noite

ela guardava os sentimentos
como um animal ferido que se agarra
à vida por de dentro

e a vai perdendo devagar
enquanto sangra e sofre
emudecendo.

então beijavas-lhe
os seus próprios gemidos, a sua
desolada liberdade, o que no seu

olhar se enevoava.
não lhe peças mais nada,
não lhe digas

mais nada, mas não deixes
que a noite tome conta dela e
dite as suas leis.



meu amor, meu quente marulhar

meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais,
meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar,
percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado,
e és para mim toda a realidade nesse instante.
há roupas, sim, roupas que vais vestindo, algum creme que pões,
uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora
e o sol de inverno a alastrar nas vinhas.

 
Vasco Graça Moura, poesia reunida, Vol. 2, Lisboa, Quetzal, 2012.

Chegada do Inverno

 
 
Primeiro aguaceiro de inverno
Meu nome será:
vagabundo
 
 
Tendo adoecido em viagem
em sonhos vagueio agora
na planície deserta
 
 
 
Matsuo Bashô, O gosto solitário do orvalho, Lisboa, Assírio & Alvim,1986. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Natal (II)

 
 
"Não censures nada do que é humano; tudo é bom, embora não seja bom em todo o lado, nem sempre, nem para todos."(Novalis*)
 
 

 




* Novalis, Fragmentos, Lisboa, Assírio e Alvim, 1986.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Subitamente, a voz o poema

P. M., há tantos anos, longe. Agora a sua voz na letra de um poema de Vasco Graça Moura. Muito belo.


blues da morte de amor (clicar para ouvir)
 

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.







Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

sábado, 15 de dezembro de 2012

Preparação para o Natal (I)



"Como toda a gente sabe, e os meninos melhor que ninguém, o Natal é uma coisa muito velha. O que nem toda a gente sabe é que, no princípio, ele não era pai; nem era velho, e não tinha, portanto, barbas brancas. Assim, quando o menino Jesus nasceu, já todos os meninos punham o sapato na chaminé.
A única diferença era que a chaminé não tinha, como hoje, fogão de gás ou fogareiro. Depois, com o menino Jesus, veio outra diferença: também ele punha o sapatinho, que, por acaso, era uma sandália.
Isso durou pouco? Não, porque o menino Jesus só cresce e se faz homem quando os outros meninos crescem e julgam que se fazem homens. O que, e lá isso é verdade, não acontece  a toda a gente, como os meninos terão muito tempo para ver. Mas isso é já outra história, que os meninos aprenderão, sem que ninguém lhes conte."
 
 
Jorge de Sena, "Razões de o Pai Natal ter barbas brancas" in Vasco Graça Moura, As mais belas histórias de Natal - Antologia, Lisboa, Quetzal, 2008. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

para sempre, isto

 
Max Klinger, Sísifo (1914)


[Não compreendera os motivos da partida. "Pensava que era outra coisa; isto, não." -  dissera, como se a explicação fosse clara. Hoje o absurdo da circunstância e do seu futuro é evidente. Montanhas de "envelopes", rochedo contínuo, pedra, pedras infinitas, brita - tantas metáforas, quando "isto" bastaria.]
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Testes, textos e os bordados das avós

Numa passagem rápida pelos blogues habituais, lê-se o que no Um jeito manso se escreveu sobre o enxoval e os bordados da mãe e das avós, feitos com carinho e esperança. Práticas de outro tempo, que a leitora também recorda, ainda que o contexto e a "época" fossem diversos, eventualmente (o final dos anos 80 não era propício a estas delicadezas). Hoje tais formas de partilhar os afectos ou de construir o futuro parecem muito distantes. Este facto não impede que a memória dessas vivências passadas seja importante para o crescimento afectivo, pelo que os testemunhos ou os textos literários que as revelam devem ser partilhados. Foi o que a leitora fez há uns anos, no curso nocturno. No teste do Módulo I, sobre os textos autobiográficos, usou um excerto do diário de Luísa Dacosta. Foi muito apreciado.
 
Aqui fica.

"1980

Janeiro, Matosinhos

 Os malmequeres tinham os olhinhos abertos a furador e as pétalas de um cheio alto, minuciosamente, pespontado à volta. As rosas? De um coração de crivo, muito trabalhado, partia um recorte fino e sinuoso, preenchido a barras de cheio baixo que um ponto arrastado sublinhava. Nas folhas de pé cheio e bainhas assimétricas, o bordado era ainda mais requintado: uma trama axadrezada e ziguezagueante de pontos sobrepostos. Malmequeres e rosas formavam duas hastes entrelaçadas, como mãos que quisessem colher um rosto, e rodeavam um L – de Letícia? De Luz? De Luísa? A letra era almofadada e o crivo entalhava-se-lhe no corpo e na volta, que terminava em volutas, texturadas e nosinhos minúsculos. Uma bainha aberta, larga, geometrizada a bastidor, e quase musical, fazia-lhe uma moldura, nos cantos rematada por um florescer de pétalas, como que colhidas em frágil teia de aranha.
Quando aquele bordado passasse para uma gaveta das filhas, sentiriam quanto era cheio de lágrimas represadas, de frustrações e anseios pisados? Talvez invejassem apenas aquele tempo de ritmo lento, não estilhaçado por empregos e transportes, em que havia tempo para bordar. Mas a ela, que tinha tentado preencher uma grande parte da vida, vazia e solitária, com palavras, o bordado tinha-a comovido sempre. Por causa daquele L premonitório? Por toda aquela beleza, quase clandestina, destinada a passar de gaveta em gaveta? Por todo aquele trabalho que tinha enchido dias vazios?
Qual das mulheres da família o teria bordado? Tinha sido uma daquelas mulheres educadas na resignação, disso tinha a certeza. Mas qual? Todas sem força de arrostar sozinhas o julgamento de uma sociedade que as condenaria. Sem a coragem de abandonar os filhos a mãos mercenárias e sem o furor, ciumento, de Medeia para os matar, porque só isso seria capaz de ferir o coração que as abandonava e lhes traía o leito vazio, onde tinham dado à luz, bordavam. Longamente, bordavam a solidão. Com agulhas, minuciosas, que passavam lentas de um para o outro lado do bastidor, e pontos miúdos, rebatidos e afeiçoados com a unha e o dedal, na clausura provinciana de longos dias e longas noites sem aconteceres, bordavam as horas, a ausência, a longa espera, o abandono, a traição, o desespero – o pensamento a oscilar entre o folhetim e o livro de orações. Mudamente, os lábios cerrados, bordavam a solidão com arte branca que mais encegueia o linho fresco do enxoval, onde tinham deixado a chaga rubra da sua virgindade, entregue. Durante horas, dias, noites, tinham feito surgir aquela beleza no linho, que haviam sonhado toalha para o rosto amado, mesa florida de festa e lhes era sudário, em vida. Queridas vovós!"


   Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005.

domingo, 2 de dezembro de 2012

coisas do escritório

"O seu vestido era uma bandeira, e a sua voz uma serpentina vermelha, tão rápida e tão forte, tão bem lançada, que podia decerto cortar o vento e serrar a chuva, que poderia, em todo o caso, calar com  a sua presença as outras vozes, ali no escritório, cinco minutos antes da saída. Ela, porém, ignorava isso tudo. Porque em tal hora desse mesmo dia sentira-se feliz e continuava a sê-lo nesse instante. Por isso os seus olhos, geralmente tão abertos, de olhar tão grande e incómodo, tão ardente ou tão ressequido, eram olhos doces, e a alegria fizera-os florir num azul novo.
Chegara havia pouco e trazia uma coisa para contar. [...]
 
O homem, porém não a ouviu. Estava a recomendar o que quer que fosse à mulher gorda. E uma carta muito importante devia seguir amanhã mesmo, sem falta, para Londres. Depois saiu e na sala ao lado, onde mandava, houve palavras soltas, uma aqui outra além. Aquele não, por exemplo, e tenho, e um espaço em branco e depois um sussurro e mais três palavras murmuradas, mas que a aragem de uma janela entreaberta trouxe até aos ouvidos dela e lá abandonou: paciência para taradas.
 
[...]
 
E a bandeira e a serpentina eram agora um simples vestido e uma voz incerta.
Quando no dia seguinte souberam, no escritório, que ela fora levada para o hospital por ter de novo procurado a morte, o seu quase-assassino não perdeu a tranquilidade. Era uma daquelas criaturas de consciência discreta ou quase muda ou obediente. Enfim, de consciência boazinha, incapaz de criar problemas ao seu possuidor. E ela, consciência, disse-lhe simplesmente que se uma pessoa tenta suicidar-se por ter ouvido palavras tão inócuas - se é que as ouvira -, essa pessoa é mesmo tarada e não se pensa mais nisso."
 
 
Maria Judite de Carvalho, "Os inocentes", in Além do quadro, Lisboa, O jornal, 1983.
 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Mário de Sá-Carneiro

 

 
Adriana Calcanhoto canta Mário de Sá-Carneiro
 
 
Hoje uma Menina reconheceu o poema de Sá-Carneiro que a professora citava; tinha ouvido Adriana Calcanhoto cantá-lo. Aqui fica a interpretação da artista brasileira, seguida de dois poemas, já apresentados neste blogue.
 
 
 
Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.


Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estlizada,
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina -
Um som opaco me dilui em Rei...

 
Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 
  
                       7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio;
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 
 
[A confiança é um tecido esgarçado; a inconsistência dos fios vem da ambição desmedida e do medo. Do rasteirismo também, já agora. É pena.]

terça-feira, 27 de novembro de 2012

pinotes de não, com gin-tonic


[Em vez de palavras elogiosas, ai-ais de a menina não foi lindinha.]


(Google images)
 
 
Esparsa sua ao desconcerto do mundo
 
Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m'espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só para mim
anda o mundo concertado.
 
 
Luís de Camões, Lírica Completa I, Lisboa, INCM, 1986.
 
 
[A imagem segue muito compostinha, muito sereno-delico-doce; venha a garrafa e o bravo poeta, "ou não fosse ele O'Neill"!]
 
 
(Google Images)
 
 
O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO
 
[...]
 
*
 
 
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
 
Sim
a ratos


Alexandre O'Neill, Poesias Completas: 1951/1986, Lisboa, INCM, 1990.

domingo, 25 de novembro de 2012

Do fim e outras acrobacias


FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por foça ir de burro!

 
Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 


Um chá com Eliza Doolittle

 


My Fair Lady (1964)
 
 
 A leitora está uma Eliza Doolittle do chá, fascinada com os pormenores desse líquido dos deuses, muito mais desejado que a famosa ambrosia. Já sabe dizer a difícil frase: "The rain in Spain stays mainly in the plane."  Assim sendo, partilha mais algumas das informações recebidas no Museu do Oriente, já mencionado neste blogue*.
 
Dissemos atrás que o chá resultava de uma planta, a camellia sinensis, e que se agrupava em seis classes, conforme o processamento das folhas - os chás verde, branco e amarelo, manufacturados sem oxidação, o oolong, com escassa oxidação, o preto, com oxidação, e o pu-erh, por meio de fermentação. Consideremos agora alguns tipos de chá inscritos naquelas classes:
 
Chá verde
 
1- Chá pólvora - seco com calor e enrolado enquanto decorre o processo;
2- Chá Matcha - chá em pó, que se obtem por decocção; é aquele que se usa na cerimónia do chá japonesa;
3- Gyokuro - chá japonês, ao qual por vezes se chama "chá de orvalho", muito elogiado, nomeadamente por Wenceslau de Morais;
4- Sencha - chá japonês padrão;
5- Genmaicha - chá japonês, com arroz tufado;
6- Lung Ching - um dos melhores chás verdes chineses.
 
Chá amarelo
 
1- Produzido na província de Hunan, na China.
 
Chá branco
 
1- Agulhas prateadas - produzido na China.
 
Chá azul ou oolong
 
1- Tung Ting - produzido na ilha Formosa.
 
Chá preto (dito vermelho, na China)
 
1- Pettigalla - chá de Ceilão;
2- Gorreana e Porto Formoso - produzidos nos Açores;
3- Bhooteachang - produzido na Índia;
4- Darjeeling - produzido na Índia (o preferido da leitora);
5- Keemun - chá preto produzido na China (óptimo).
 
Outros (blend)
 
1- Earl Grey - chá preto com óleo essencial de bergamota;
2- Chá de jasmim - chá verde ao qual se incorpora flor de jasmim, aquando do processo de secagem;
3- Pouchong - chá entre verde e oolong, ao qual se junta rosa pouchong
4- Souchong - chá preto de folhas longas;
5- Lapsang Souchong - chá preto de folhas longas fumado.
 
 
No dia 15 de Dezembro, o Dr. Luís Mendonça de Carvalho dará um curso no Museu do Oriente, o qual, desde já, se aconselha, tanto pela qualidade das informações, como pelos dotes comunicativos e sentido de humor do professor/oficiante.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Poemas de amor II

A MEIO PAU

Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
 - as coisas que não dou a qualquer pessoa -
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.

Adélia Prado
 
 
Vasco Graça Moura (org.), 366 poemas que falam de amor, Lisboa, Quetzal, 2003.

Poemas de amor


CANTIGA

Sozinha no bosque
Com meus pensamentos,
Calei as saudades,
Fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua
Que as sombras rasgava,
Nas trémulas águas
Seus raios soltava.

Naquela torrente
Que vai despedida
Encontro assustada
A imagem da vida.

Do peito em que as dores
Já iam cessar,
Revoa a tristeza
E torno a penar.

Marquesa de Alorna
 
Vasco Graça Moura (org.), 366 poemas que falam de amor, Lisboa, Quetzal, 2003.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O Chá: de Oriente para Ocidente

Está patente no Museu do Oriente, em Lisboa, uma interessante exposição sobre o chá, desde as suas origens, na longínqua China, até à sua expansão comercial, social e cultural pelo globo. Esta mostra organiza-se em sete núcleos: “Planta do chá e respectivo cultivo”, “Bules yixing”, “Transporte e comércio”, “Porcelana chinesa de exportação associada ao chá e outros utensílios com ele relacionados (caixas e chávenas de chá em materiais exóticos)”, “O chá na China e no Japão”, "Ambientes associados ao chá (chá na Europa)”, “Serviços de chá em porcelana europeia e prataria portuguesa”.
 
 
 

Na história desta bebida e na evolução do seu consumo, destaca-se o seu papel privilegiado no convívio e nos prazeres delicados tanto das elites, como de outros quadrantes da sociedade.  De facto, se durante os séculos XVII, XVIII e XIX, o consumo de chá era um sinal de prestígio, hoje em dia tal prática democratizou-se, embora matenha ainda vestígios de requinte e de exotismo, seja pelos utensílios usados, seja pela história milenar da bebida, seja simplesmente pela beleza tranquilizadora da preparação do "chá". O prazer de uma pausa no curso dos trabalhos para receber os amigos ou para um momento a sós está acessível a todos, de uma forma simples, basta haver disponibilidade interior.
 
 
 
 
Para além dos aromas e dos sabores, também a contemplação da planta e da sua transformação é fonte de contentamento. Todo o chá consumido resulta de uma mesma planta, a Camellia sinensis (a produção açoreana - Gorreana e Porto Fomoso - é desta espécie), sendo o tipo de folhas usado e o processamento pós-colheita a determinarem a classe de chá que se irá obter: Branco, Verde (o mais comum no Oriente), Azul ou Oolong, Preto e Pu-erh (o único que passa por um processo de fermentação). Estas classes subdividem-se em tipos, que resultam dos seguintes factores: variedade do arbusto, localização geográfica, altitude, clima, solos, colheita, processamento, armazenagem, preparação da bebida e outras condicionantes idiossincráticas.
 
 

 
 
A exposição que está no Museu do Oriente apresenta várias amostras de chá, dá a conhecer a história da produção e comercialização da bebida, e ainda nos mostra os materiais usados nos utensílios de consumo: a cerâmica, a porcelana, a  prata, a  tartaruga das taças, chávenas, bules e outros ou a madeira das mesas próprias, por exemplo. Também não esquece o papel pioneiro de Portugal na divulgação deste produto no Ocidente, quer por acção dos jesuítas, quer por acção de Catarina de Bragança, que prestigiou o consumo de chá na corte inglesa, antes da duquesa de Bedford instituir o "chá das cinco" no século XIX.
 
[As informações e as imagens foram retiradas do site do Museu, do catálogo da exposição, da própria exposição, claro, e do excelente curso "Um Chá no Museu",  ministrado naquele espaço museológico por Luís Mendonça de Carvalho, director do Museu Botânico de Beja.]

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

Leituras (cont.)

A leitora andou adoentada. Seria mal do corpo, seria mal do espírito, não o sabe; o certo é que melhora a olhos vistos. Foram os comprimidos, as ampolas cogitum, os recentes raios de sol?  Tudo é possível, mas tenho para mim que foram aqueles pachos de leituras que Ela lhe aplicou.

 
O encontro com o emplastro curativo
 

Flanava pela livraria, quando:
 
- Olha esta capa, tão gira! É mesmo o teu estilo, vais gostar. Leva.




Dito e feito. O livro, de um salto, encarrapitou-se no molho e veio para casa. Tem sido aplicado com parcimónia, mas o perfume vai tomando conta da casa, do corpo, da alma. Um indefinível aroma a alfazema, rosmaninho, tomilho, uma tisana de S. Martinho, o santo da partilha, uma temperatura no coração...


Noutro tom e noutro registo, pode afirmar que este foi um dos melhores e mais interessantes romances que leu nos últimos tempos. José Riço Direitinho, do qual só tinha lido o conto "Nasci a cheirar a tomilho" (A casa do fim, 1992), é um escritor excelente, a descobrir e a ler, ler muitas vezes.

Aqui se divulga o parágrafo inicial deste livro agora reeditado pela Quetzal (a primeira edição é da Asa: 1994), seguido de um depoimento do autor ao programa Ler mais, ler melhor.

"Depois de se ter deitado com um homem, lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem. De maneira que nos dois meses seguintes à noite em que encontrou na eira uma maçaroca de milho-rei, não acreditou que estivesse grávida, mas que a ausência do sangue se devesse a qualquer desarranjo, ou a ter olhado para dentro do forno enquanto o pão crescia."

 
José Riço Direitinho, Breviário das más inclinações, Lisboa, Quetzal, 2011.
 
 

sábado, 10 de novembro de 2012

Leituras...

 



Estranho, o universo de Ana Teresa Pereira. Acabada a leitura de O Lago, é esta a impressão maior; e a lembrança do conto "The Oval Portrait", de Edgar Allan Poe.
 
Um excerto, ao acaso, quando a história ainda vai no início, e as personagens apenas em aproximação:
 
"A peça era quase incompreensível. Estivera duas horas a vaguear no nevoeiro, de olhos vendados. Talvez fosse sempre assim, mesmo depois da última representação.
Pensou nas outras peças dele. Vira uma delas representada, e comprara o texto, que podia ser lido como uma novela. As longas descrições das personagens e dos cenários.
- Ele escreve como se não soubesse o fim das suas histórias...
Passou a mão pelos olhos. Havia devoção naquele pensamento, e ela não queria sentir devoção por ninguém. Sentia-se atraída por ele, mas isso não era grave. O cabelo preto e os olhos azuis, e o sotaque irlandês, e uma certa tristeza... pensou que gostaria de ir para a cama com ele. Uma ou duas vezes. Mais seria perigoso.
Nessa noite sonhou com ele." (p. 33)
 
 
Ana Teresa Pereira, O Lago, Lisboa, Relógio d'Água, 2011.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Carta de um homem livre ao seu antigo senhor


 É conhecido o apreço da leitora por correspondência, pelo que foi uma boa surpresa encontrar a citação desta carta no blogue Âncoras e Nefelibatas e a referência a outro blogue dedicado, precisamente, à divulgação de cartas "merecedoras de uma audiência mais vasta" - Letters of Note -, do qual se transcreveu esta resposta de um homem livre ao seu antigo senhor.
 
 
 
In August of 1865, a Colonel P.H. Anderson of Big Spring, Tennessee, wrote to his former slave, Jourdon Anderson, and requested that he come back to work on his farm. Jourdon — who, since being emancipated, had moved to Ohio, found paid work, and was now supporting his family — responded spectacularly by way of the letter seen below (a letter which, according to newspapers at the time, he dictated).

Rather than quote the numerous highlights in this letter, I'll simply leave you to enjoy it. Do make sure you read to the end.

UPDATE: Head over to Kottke for a brief but lovely little update about the later years of Jourdon and family.

(Source: The Freedmen's Book; Image: A group of escaped slaves in Virginia in 1862, courtesy of the Library of Congress.)
Dayton, Ohio,

August 7, 1865

To My Old Master, Colonel P.H. Anderson, Big Spring, Tennessee

Sir: I got your letter, and was glad to find that you had not forgotten Jourdon, and that you wanted me to come back and live with you again, promising to do better for me than anybody else can. I have often felt uneasy about you. I thought the Yankees would have hung you long before this, for harboring Rebs they found at your house. I suppose they never heard about your going to Colonel Martin's to kill the Union soldier that was left by his company in their stable. Although you shot at me twice before I left you, I did not want to hear of your being hurt, and am glad you are still living. It would do me good to go back to the dear old home again, and see Miss Mary and Miss Martha and Allen, Esther, Green, and Lee. Give my love to them all, and tell them I hope we will meet in the better world, if not in this. I would have gone back to see you all when I was working in the Nashville Hospital, but one of the neighbors told me that Henry intended to shoot me if he ever got a chance.

I want to know particularly what the good chance is you propose to give me. I am doing tolerably well here. I get twenty-five dollars a month, with victuals and clothing; have a comfortable home for Mandy,—the folks call her Mrs. Anderson,—and the children—Milly, Jane, and Grundy—go to school and are learning well. The teacher says Grundy has a head for a preacher. They go to Sunday school, and Mandy and me attend church regularly. We are kindly treated. Sometimes we overhear others saying, "Them colored people were slaves" down in Tennessee. The children feel hurt when they hear such remarks; but I tell them it was no disgrace in Tennessee to belong to Colonel Anderson. Many darkeys would have been proud, as I used to be, to call you master. Now if you will write and say what wages you will give me, I will be better able to decide whether it would be to my advantage to move back again.

As to my freedom, which you say I can have, there is nothing to be gained on that score, as I got my free papers in 1864 from the Provost-Marshal-General of the Department of Nashville. Mandy says she would be afraid to go back without some proof that you were disposed to treat us justly and kindly; and we have concluded to test your sincerity by asking you to send us our wages for the time we served you. This will make us forget and forgive old scores, and rely on your justice and friendship in the future. I served you faithfully for thirty-two years, and Mandy twenty years. At twenty-five dollars a month for me, and two dollars a week for Mandy, our earnings would amount to eleven thousand six hundred and eighty dollars. Add to this the interest for the time our wages have been kept back, and deduct what you paid for our clothing, and three doctor's visits to me, and pulling a tooth for Mandy, and the balance will show what we are in justice entitled to. Please send the money by Adams's Express, in care of V. Winters, Esq., Dayton, Ohio. If you fail to pay us for faithful labors in the past, we can have little faith in your promises in the future. We trust the good Maker has opened your eyes to the wrongs which you and your fathers have done to me and my fathers, in making us toil for you for generations without recompense. Here I draw my wages every Saturday night; but in Tennessee there was never any pay-day for the negroes any more than for the horses and cows. Surely there will be a day of reckoning for those who defraud the laborer of his hire.

In answering this letter, please state if there would be any safety for my Milly and Jane, who are now grown up, and both good-looking girls. You know how it was with poor Matilda and Catherine. I would rather stay here and starve—and die, if it come to that—than have my girls brought to shame by the violence and wickedness of their young masters. You will also please state if there has been any schools opened for the colored children in your neighborhood. The great desire of my life now is to give my children an education, and have them form virtuous habits.

Say howdy to George Carter, and thank him for taking the pistol from you when you were shooting at me.

From your old servant,

Jourdon Anderson.
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Apologia do fracasso

T. e os seus títulos sugestivos - "Apologia do fracasso" -, a partir de José Castello, no blogue Literatura na Poltrona. Num balanço da vida, o que se destacaria: a correnteza dos êxitos ou o rosário dos fracassos? É chegada a hora do dito balanço? Stendhal sugere os cinquenta, idade a que ainda não chegou, mas a década caminha para essa fronteira...
 
Até lá, fiquemos na companhia do escritor francês:
 
" Sentei-me nos degraus de San Pietro e aí me deixei ficar uma ou duas horas com esta ideia a trabalhar-me: «Vou fazer cinquenta anos, já era tempo de me conhecer. Quem fui, quem sou eu, na verdade muito embaraçado me sinto em dizê-lo. "
 
"Quem fui eu, então? Não o sei dizer. A que amigo, por mais esclarecido que seja, me será dado perguntá-lo? Nem mesmo o senhor Fior(i) me poderia dar um parecer. A que amigo terei eu dito uma palavra sequer sobre os meus desgostos de amor?
E, dizia eu para comigo nessa manhã, o que há de singular e triste em tudo isto é que o prazer que fruí das minhas vitórias (como eu então, com a cabeça cheia de coisas militares, as designava) não equivale nem a metade do profundo infortúnio que colhi das minhas derrotas."
 
"À noite, ao regressar, bastante entediado, do serão em casa do embaixador, disse para comigo: devia começar a escrever a minha vida, talvez que quando, daqui a uns dois ou três anos, chegar ao fim, consiga saber o que fui, se alegre se triste, se um homem de espírito se um parvo, se um homem de coragem ou um medroso, e, finalmente, feliz ou infeliz, e talvez possa dar o manuscrito a ler a di Fiori.
Sorriu-me essa ideia. Pois sim, mas aquela horrível profusão de Eu e de Mim! Chega para pôr de mau humor o mais benévolo dos leitores. O Eu e o Mim acabariam por ser, com as devidas distâncias, como M. de Chateaubriand, esse rei dos egotistas.
De je mis avec mois tu fais la récidive... (1)
lembro-me deste verso todas as vezes que leio uma página sua.
É verdade que também se pode escrever, usando a terceira pessoa, ele fez, ele disse. Mas então como se há-de testemunhar o que se passa no íntimo, na alma de cada um? É sobretudo a este respeito que gostaria de saber a opinião de di Fiori."
 
 
Stendhal, Vida de Henry Brulard, Porto, Inova, s.d. (tradução de Luiza Neto Jorge e António Ramos Rosa)

As aulas e os textos

A Mensagem não empolga, mas aqui e ali surgem estes poemas, estas palavras cheias de beleza.



 
Dulce Pontes, "O Infante"
 
 
 
I
 
O INFANTE
 
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
 
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se aterra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
 
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
 
 
Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa, Ática, 1979.
 


domingo, 4 de novembro de 2012

Vox populi

Jeanloup Sieff, "Les petites dalles", 1984


- Até tens coisas giras, mas são muito velhas.
- O quê?!
- Sim. Quantos anos tem esse casaco?
- ...
- Ah! Compraste alguma coisa depois de eu nascer?
- ?!...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

[Água morrente]


Meus olhos apagados,
Vede a agua cahir.
Das beiras dos telhados,
Cahir, sempre cahir.

Das beiras dos telhados,
Cahir, quasi morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogae-vos
Na vã tristeza ambiente.
Cahi e derramae-vos
Como a agua morrente.

 
Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).
 
 
[A beleza, um bálsamo para estes dias cansados.]

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dia de Finados

MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais
A tua face será pura e limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

 
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética II, Lisboa, Caminho, 1995.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Basta olhar, ouvir, ler (inclusive os programas de Português)

Mário de Carvalho,  em entrevista ao Jornal de Letras (nº 1097, de 17 a 30 de outubro de 2012) - Maria Leonor Nunes, "Mário de Carvalho: A batalha das palavras":

"As pessoas perderam a distância crítica, o sentido da comparação, da ironia, da metáfora, a dimensão das palavras, da sombra que projetam. Não sei se perderam, se lhes foi roubado."
 
"Estou convencido de que não é inocente o que se tem feito. Quando amputamos durante anos, no Secundário, o conhecimento da História e dos nossos textos clássicos, estamos a retirar capacidade de compreensão da língua e até a empobrecer o contexto. Porque os pensamentos, os conceitos fazem-se com palavras. Quanto menor for o domínio vocabular, menos acesso temos à realidade e ao pensamento. E há quem esteja interessado nisso. Nos primeiros tempos de Salazar, os professores, na sua maioria republicanos, foram substituídos por regentes escolares, que ensinavam a ler, escrever e contar e, na verdade, pensava-se que, quanto muito, era isso que os portugueses deviam saber. O que se passa agora? O consumidor precisa de ler Camões e Os Lusíadas, a mitologia? Não. Basta que conheça o vocabulário elementar que lhe permita compreender um anúncio. A pobreza, a miséria vocabular, em que estão encurralados e enclausurados os portugueses é da mesma natureza do ler, escrever e contar que Salazar entendia que bastava para o povo."

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

"A Ideia do Fim"

Maravilhosa poesia, a de Maria do Rosário Pedreira. Os três livros anteriores já os conhecia, agora debruço-me sobre o quarto, o último de Poesia Reunida (2012) - "A Ideia do Fim". Aqui deixo dois poemas da secção III:
 
 
 
Quando chegaste, eu já tinha a morte
dentro do meu sono; e só por isso não
sentia a pedra do coração nem o corpo
quase quase tão frio. Tu não notaste
 
que os corvos negros carpiam já sobre
o meu telhado - e ninguém te disse que
eu estava a morrer, porque só eu sabia
que desistir é coisa de um momento.
 
Juram, porém, que ouviste o sangue
cansar-se nas minhas veias e as larvas
estrebucharem rente à terra; e que então
afirmaste, sem dominar um grito, que o
quarto te cheirava absurdamente a flores.
 
Não me contaram se chamaste por mim,
se pela morte. Mas fui eu que acordei.
 
 
 
 
Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só
 
o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante
 
que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:
 
se ainda não sabias, és muito bem-vindo.
 
 
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2012.

A poesia, o amor e a morte

  
 
 
"a minha poesia está sempre um bocadinho associada a momentos piores da minha vida e funcionou sempre um pouco de uma forma terapêutica" (MRP)
 
 

sábado, 13 de outubro de 2012

untitled


Vem a morte dizer-me segredos ao
ouvido. Avisa-me da dor, ou quer
levar-me mais cedo para me poupar?

 
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2012.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O esplendor de Portugal



João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela (1989)
 
 
Que difícil dar Os Lusíadas, neste outono, quando a tropa fandanga não arreda. Onde estão a gloriosa praia, os heróis e as caravelas de outrora? Só se descortinam estes dizeres e este porto, à volta da cidade triste e do seu rio esverdeado. 

Ela não bebe, cita



 
 
 
Poema em linha reta
 
 
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
 
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
 
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
 
 
Álvaro de Campos, Poesias, Lisboa, Ática, 1986.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Doença


"Este relato comoveu Rossetti. Troçou de Lizzie e ela sorriu para o chão. Revelava os primeiros sintomas da doença, a paixão pela arte."


Hélia Correia, Adoecer, Lisboa, Relógio d'Água, 2010.
 


sábado, 6 de outubro de 2012

Adoecer


Início da leitura de Adoecer, de Hélia Correia. Um deslumbramento.

"Gravaram os seus nomes num dos troncos. Porém a casca, resistindo, não deixou que as letras se inscrevessem limpidamente. Ficou um sofrimento vegetal, uma ferida a escorrer sobre um  borrão. Eles não repararam. Estavam antes de todos os sinais do romantismo, antes de toda a construção mental. O lodo cintilava-lhes nos fatos como cintilam coisas funerárias. Mas esses dados da melancolia não encontravam quem os entendesse. [...]"
 
 
Hélia Correia, Adoecer, Lisboa, Relógio d'Água, 2010.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

na biblioteca

 
(da net, algures, fica pelo insólito e pela oportunidade da imagem)

Leitora caída? Não, numa sessão de Pilates na Biblioteca.
...vários noticiários depois...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ledo engano


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus olhos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.


Luís de Camões, Os Lusíadas, Porto, Figueirinhas, 1978 (org. de António José Saraiva).


[Posta em sossego só porque se enganava, que a sua condição era de desassossego sem fim. Tais quimeras só a ela convenciam e às ervinhas, como se sabe.]

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Parece-me bem...

 Anacreonte

Três fragmentos deste poeta jónico, do século VI a.C.:


4- Beber de um trago (fr. 356 PMG)

Vá lá, ó rapaz, traz-me
uma taça, para que eu beba
de um trago. Põe dez medidas
de água e cinco de vinho,
para que novamente eu faça de bacante,
mas sem insolência.
Vá lá então: assim com este
barulho e com esta gritaria
não bebamos à maneira da Cítia,
mas bebamos moderadamente
no meio de belos cantos.


19- Coxas (fr. 407 PMG)

Oferece-me, meu querido,
as tuas coxas tão esbeltas.


26- Amor potável (fr. 450 PMG)

Bebendo amor.

 
 
Poesia Grega: de Álcman a Teócrito, Lisboa, Cotovia, 2006 (organização, tradução e notas de Frederico Lourenço).

A arte de amar

Ovídio oferece os seus ensinamentos a homens e mulheres, para que todos possam viver os prazeres do amor. No Livro III, dirigindo-se às damas, alerta para a veloz passagem do tempo e para a necessidade de aproveitarem o momento, irrepetível; alerta, igualmente, para a necessidade de cuidarem da beleza, que raras terão sem defeito, bem como da elegância do porte e do modo de estar. Neste ponto, assinala a vantagem de uma mulher culta, que muito ganha em conhecer os poetas: Calímaco, Anacreonte, Safo, Menandro, Propércio, Galo, Tíbulo, Varrão, Virgílio e o próprio Ovídio.
 
[Esta leitora, ciosa do conhecimento poético, assustou-se com a súbita ignorância visível no seu espelho. Aí está a borbulha da rudeza - de todos, apenas reconhece Safo, Virgílio e Ovídio!]
 
Mas a leitura prossegue, e registam-se estas avisadas palavras, especialmente úteis para as tímidas:
 
"É-vos útil a multidão, ó mulheres formosas;
conduzi muitas vezes os passos errantes para além dos vossos portais.
Muitas ovelhas procura a loba, para filar uma só presa,
e a ave de Júpiter persegue, em seu voo, muitas aves;
dê-se também a mulher formosa a ver ao povo;
de entre tantos, talvez haja um que ela seduza;
em todos os lugares deve ela permanecer, empenhada em agradar,
e entregar-se, de alma inteira, aos seus encantos.
O acaso tem a sua força em toda a parte; atira sempre o anzol;
nas águas onde menos esperas haverá peixe.
Muitas vezes, em vão vagueiam os cães por montanhas frondosas,
e cai na armadilha, sem ninguém fazer nada, o veado.
Que esperança teria Andrómeda, presa ao rochedo, menos
do que poderem as suas lágrimas encantar alguém?
É nas exéquias de um homen que se encontra, muitas vezes, um homem; ir
de cabelos desgrenhados e sem conter o pranto, eis o que fica bem."
 
Muitos outros conselhos contém este livro, interessantes todos, tanto para elas como para eles. A ler até ao fim.
 
Ovídio, A Arte de Amar, Lisboa, Cotovia, 2006 (tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André). 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Leitura - Maria Gabriela Llansol


Na edição de 22 de Agosto do Jornal de Letras, João Barrento escreve um texto de divulgação das Quartas Jornadas Llansolianas, em que reflecte sobre a publicitação da obra da escitora. Das ideias explanadas no artigo, destaco esta: todo o texto carece de interpretação, sendo que, como afirma João Barrento, "interpretar é aqui um gesto instável e aberto, e sempre à espera de ser refeito, que vê este texto como construção textual e ideativa contínua e única, numa Obra que é um rio de escrita em que cada texto abre para outros, os prolonga e se prolonga neles."
 
Quanto à forma de ler esta Obra, o ensaísta dá-nos orientações que também nos ajudam a interpretar outros textos literários:
 
"A simples leitura "minha" não basta, todo o texto pede o complemento da interpretação, porque nenhum texto está para além dela - pela simples razão de que é isso que o faz viver no(s) tempo(s), e porque nenhum texto humano é sagrado, muito menos o de Llansol, que se queria, e era, humana, demasiado humana, também nas suas fraquezas e nos seus excessos."
 
"Neste caso, a interpretação não pode pretender fugir àquilo a que alguns chamam "ranço académico" para cair na prática ainda pior, e insuportável, de produzir textos críticos pretensamente "poéticos", ecoando o texto primeiro, repetindo-o à exaustão, como tantas vezes vem acontecendo."
 
Deste artigo, não se pode depreender que se desprezam as leituras pessoais desta Obra ou de qualquer outra; elas têm o seu lugar na longa vida dos textos, mas o papel do crítico, ou de outros com responsabilidade, é de outra índole e exigência, pois que dele se espera um "serviço", como se lê no último parágrafo:
 
"É ingenuidade, e um mau serviço prerstado à literatura (e neste caso não tenho qualquer problema em falar de "serviço"), partir do princípio de que "as pessoas" descobrem por si o que vale a pena ler, e saberão escolher, esmagadas como estão pela propaganda, essa sim, do inútil. Elas simplesmente não "escolherão" se as obras não estiverem disponíveis, não poderão escolher o que ler se ninguém se esforçar por manter vivo um autor. É cómodo dizer "quem sentir falta que leia", e deixar apagar de vez a luzinha que mal se vê no meio de tanto fogo-de-artifício. Neste mundo implacável e insensível alguém tem de acender luzes de cores diferentes das dominantes, sob pena de nos deixarmos afundar num mar de fogos-fátuos e lantejoulas." 
 
 
[Estas palavras deveriam ser lidas várias vezes ao dia por autores de programas escolares, formadores de professores, professores e educadores em geral. ]

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Leituras transversais


Nem a propósito, saiu este mês um estudo muito interessante sobre as criadas:
 
Inês Brasão, O tempo das criadas: a condição servil em portugal (1940-1970), Lisboa, Tinta da China, 2012.
 
Lê-se na introdução: "Rica em metáforas políticas sobre a definição do valor de um indivíduo a partir do seu lugar de nascimento, a criada da casa era julgada pela desobediência, preguiça, sujidade e mania, para referir apenas os atributos mais incisivos. Com uma violência simbólica acrescida, dois exemplos negativos de mulheres apareciam associados com frequência: o da mulher "tolerada" e o da "criada de servir"."
 
(Lembrei-me de um romance autobiográfico lido no início do verão. Estão lá. Falava-se delas, mas com tal distância e desconhecimento, que impressionava.)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Linguagem (Eu/Tu)


"É na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito; porque só a linguagem funda realmente na sua realidade, que é a do ser, o conceito de «ego»."
 
"A consciência de si só é possível se se tomar conhecimento de si por contraste. Eu só utilizo eu ao dirigir-me a alguém, que na minha alocução será um tu. É esta condição de diálogo que é constitutiva da pessoa, pois implica que, reciprocamente, eu me torne tu na alocução daquele que por sua vez se designa por eu. [...] A linguagem só é possível porque cada locutor se coloca como sujeito remetendo para si mesmo, como eu, no seu discurso. Por isso, eu instituo uma outra pessoa, aquela que, por muito exterior que  seja a «mim», se torna o meu eco ao qual digo tu e que me diz tu."
 
 
Émile Benveniste, O Homem na Linguagem, Lisboa, Arcádia, 1978.

domingo, 26 de agosto de 2012

Nova Iorque


 Fritz Lang, Metropolis (1927)
 
 
New York, New York
(versão da famosa canção de Frank Sinatra, no filme de Steve McQueen, Shame - 2011) 
 
 
 
Lê-se no Púlico 2, de hoje, na crónica de Paulo Varela Gomes:
 
"Poucos portugueses da chamada classe média têm hoje oportunidade de viajar até Nova Iorque e as pinturas de que me ocupo aqui, embora amplamente ilustradas na internet, ganham em ser vistas no local porque são obras de grande dimensão. Paciência." (PVG, "Cartas de Ver: O fim da História")
 
Sem paciência, só impotência, lemos estas verdades, tanto mais incomodativas quanto Nova Iorque não é apenas uma cidade onde estão museus e obras de arte fantásticas. Nova Iorque é a cidade, símbolo da realização humana, da diversidade, e lugar onde toda a imaginação é possível.
Os espaços urbanos, a metrópole em particular, sempre foram lugares de liberdade e de amplificação do convívio e das potencialidades do homem, apesar das suas misérias e contradições; agora esta expansão está vedada a um número crescente de pessoas. Involuímos. Aqui estamos, condenados à tacanhez, à pequenez, a sermos "pobretes e alegretes", a regressarmos à velha casa de família, lá, "na aldeia mais portuguesa de portugal".
 
 
(yeaak)*
 
 
 
* trad.: vómito
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Da gentileza

 



Não sou dos que guardam
sentimentos de rancor. Tenho
uma alma gentil.


Safo
 
 
Albano Martins; O essencial de Alceu e Safo, Lisboa, INCM, 1986.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

da identidade e outras aproximações


Jean Sibelius

O calor abrasa, a letargia reflexiva instala-se. No regaço do Verão, manifesta-se uma nova ordem mental e uma vontade de mergulhar nas mais diversas águas: no mar, nos livros, nas vozes de ontem e de sempre, nos ritmos naturais, em toda a matéria que nos constitui, a nós e à natureza. As elevadas temperaturas parece que fundem os contrários, apaziguando a percepção da identidade.
Quem sou eu? - essa pergunta essencial - já não origina a fragmentação, mas sim a reunião do diverso: sou a voz da poesia, da manselinha voz, à voz viúva, grácil, que se exila na escuridão tranquila; sou a voz do vento que desfolha mágoas; sou a arrebatadora voz do mar que me leva para os longes; sou o eco sedutor, sou a respiração da terra. Sou a serenata que embala. Sou esta que aqui vem regularmente e sou a outra, a do corpo de afectos e de sangue, sou um nó rítmico, ponto de confluência do cosmos e da ínfima célula, e também de bits, já agora.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Temperamentos



Albrecht Durer, Melancolia (1514)


Às vezes não é uma questão de a vida ser boa ou má, é somente uma questão de temperamento. Uns são mais introspectivos e pessimistas, outros mais alegres e abertos ao exterior. Não temos de ser todos positivos, dinâmicos, sociáveis, pelo menos não sempre. A uns quantos coube em sorte esticarem o sofrimento para lá do razoável e gostarem de contemplar o lado escuro dos dias. Que fazer? Esperemos que também possam ver a plena luz do sol e deliciarem-se com isso, mesmo que precisem de um empurrãozinho ou de umas palavras amigas.


Os antigos, que reconheciam a continuidade existente entre o espírito e a matéria, o corpo, a natureza e o cosmos, desenvolveram a doutrina dos quatro humores, que evoluiu para doutrina dos quatro temperamentos, de que se apresenta uma brevíssima síntese nos dois quadros seguintes. Assinale-se que desde cedo as várias designações de temperamentos conheceram significações distintas, pois tanto podiam indicar estados patológicos, como meras aptidões constitutivas dos indivíduos.


   
Temperamento

 Elemento

 Temperatura

 Fluído

 Corpo

 Estação

 Colérico

 fogo

 quente e seco

 bílis amarela

 fígado

 Verão

 Sanguíneo

 ar

 quente e húmido

 sangue

 coração

 Primavera

 Fleumático

 água

 frio e húmido

 fleuma (linfa)

 vasos linfáticos e gânglios

 Inverno

 Melancólico

 terra

 frio e seco

 bílis negra

 baço

 Outono



Temperamento

Planeta

Características

Colérico

Marte

Irascível e impetuoso, ardente, rápido

Sanguíneo

Júpiter

Dado ao convívio e à sociabilidade, sedutor, alegre

Fleumático

Vénus (lua)

Preguiçoso, tímido, sem rancores, calmo

Melancólico

Saturno

Triste, solitário, controlado, capacidade de entrega e dedicação



O termo Melancolia tanto designava uma doença como uma maneira de ser, actualmente prefere-se falar de Depressão quando se trata de uma situação patológica, mas o significado ambíguo não mudou. Ontem como hoje, aconselhava-se o médico a lutar contra a natureza desconfiada do melancólico, a moderar o seu furor e a lembrá-lo das coisas que amava; sugeria-se um discurso sensato e agradável; o consumo de vinhos perfumados, claros e leves, o convívio com a música e outras artes, a companhia dos amigos eram igualmente considerados benéficos; o melancólico devia, também, evitar as tensões mentais, mas a actividade sexual era recomendada, ainda que com moderação. Claro está que a linha agressiva não esteve ausente das tentativas de curar estes seres; de facto, os medicamentos, as purgas, sangrias e flagelações não foram esquecidos. Nos alvores do século XXI, continuamos a ver receituários de ansiolíticos e antidepressivos ou prescrições de actividade física e deleitosa, a par do aconselhamento de acções com vista ao conhecimento e aceitação de si e do mundo. Ler e escrever blogues será também um remédio...

Tendo em vista o tratamento da depressão e da ansiedade, ou tão só do cansaço de viver, recordam-se dois livros de medicina, que não se incluem nos ditos "livros de auto-ajuda":

- Frida Ergas, Viver sem stress, com o método sofrológico, Lisboa, Europa América, 2001.

- David Servan-Schreiber, Guérir le stress, l'anxiété et la dépression sans médicaments ni psychanalyse, Paris, Robert Laffont, 2003.