terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A beleza nunca acaba

Continua a leitura de Luísa Dacosta. A beleza percorre estas páginas incandescentes. Nunca acaba. Todas as páginas são a ler e reler, sendo os Prefácios dos seus livros especialmente belos. Eis um exemplo:


(capa da 1ª edição, com um pormenor de um pastel de Maria Mendes)


"[...] O perfume dos lilases, atingido aquele limiar de dor, que não sabemos mais se é física se é mental, apunhalava-a na tarde, naquela casa, outra. Não já a de outrora, onde se mirara no espelho das aparências. Arrogante, segura, vestida apenas da nudez da sua grácil adolescência, sem precisar de asas-braços para cantar a vida. O espelho devolvia-lhe, então, o seu corpo-lira, as suas formas de fruto enxuto, onda e concha, libertas na luz nocturna, que envolvia a sua carne de lua, amassada com azeitona. Um corpo de hastes e ramagens, fonte e braço de água. Margem de seda - longuilínea e breve - tão apetecida! Como era simples o alfabeto do corpo e que fácil amá-lo: as formas, a textura, o odor secreto, o sabor salino e canela, o rumor latejante! Os cabelos, movimento na aragem da tarde ou algas de suor, nos ombros da noite. Mas como tocar e sentir, sob a mão, os soluços de sombra e a fragilidade nua e informe do ser? Tão fácil acalmar as sedes do corpo e tão difíceis as outras! O seu fogo estava para além do seu ventre, cavado, capaz de floração, as suas nascentes muito para lá das fissuras, labiais, do corpo. Havia nela sombras mais densas do que as do púbis ou mesmo que as do sol negro dos seus cabelos. Claridades mais luminosas do que a água batida pela luz. O rio das suas pernas era um curso limitado, mas a sua alma tinha caudais de sede, mais ansiedade e inquietação do que as do simples desejo. Coisas sem nome, que apelavam ao caldeamento e à fusão, mais ao êxtase do que ao orgasmo. O que era o amanhecer, lunar, das colinas do seio, comparado às profundidades, nocturnas, do que estava para além dos sentidos: as dormências do que não sabemos pelo olhar e pela metáfora e são tumultuar obscuro? E depois, como decidir, era a sede dela que ele bebia, ou a sua própria sede que acalmava e procurava estancar? O «outro» existe realmente ou somos ainda nós? [...]"


Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005 (1ª edição: Lisboa, Quimera, 1992).

3 comentários:

  1. Quase excessivas, quase insuportavelmente belas, estas palavras.

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  2. Lindo. Não conheço. Fiquei com vontade de conhecer

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  3. Fico contente por terem gostado. Luísa Dacosta é uma escritora pouco lida, mas de muitíssima qualidade. Vale a procurar os seus livros.

    Boa sexta-feira!

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