sábado, 7 de janeiro de 2012

da identidade portuguesa

Leitura do Jornal de Letras. A figura central desta edição é Eduardo Lourenço, Prémio Pessoa. Sobre ele, e sobre o seu pensamento relativamente à identidade portuguesa, escreve Guilherme d'Oliveira Martins:

"No fundo, para o português uma identidade confinada não faz sentido. Ganhamos sempre que recebemos e dessa hospitalidade resultam perenidade e riqueza. Por isso mesmo, Eduardo Lourenço compreendeu melhor do que ninguém que em 1578-80 a figura central não foi D. Sebastião, mas Camões (com toda a sua riqueza épica e lírica), e que, ao modo de Vieira, o Desejado nunca poderia ser um morto ou um vencido, mas teria de ser alguém vivo - e, mais do que D. João IV, deveria ser o povo heterogéneo e difícil de interpretar, que deseja viver livre, com apego às viagens pelas Sete Partidas (talvez uma nova diáspora), à imagem e semelhança do Infante D. Pedro, duque de Coimbra (exemplo europeu e universalista), com uma alma pelo mundo repartida. Assim, a heterodoxia inconformista do escritor (discípulo à sua maneira, mas indiscutível, de Montaigne) considera a saudade fora da clausura do saudosismo, partindo das raízes antigas (D. Duarte, Nunes do Leão, Francisco Manuel e os românticos) e de Pascoaes (cujo talento enaltece) e chegando à fulgurante heteronomia de Fernando Pessoa."


Guilherme d'Oliveira Martins, "A Paixão das Ideias: Interrogador de Labirintos...", Jornal de Letras Artes e Ideias, 28/12/2011.

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