sábado, 7 de janeiro de 2012

A Ilha dos Amores

Para reflectir, com vista à compreensão de Os Lusíadas, estes recortes de um excelente texto de Vítor Manuel de Aguiar e Silva:

"[...] Na Ilha dos Amores, nos seus esponsais simbólicos com as ninfas e com Tétis, alcançam o apogeu da sua ascensão divinificatória os «barões assinalados» que acabavam de perfazer um dos grandes ciclos - não o ciclo supremo, como adiante diremos - da missão ecuménica do povo português. [...]"

"Nesta perspectiva, a empresa dos descobrimentos e o seu clímax, a viagem de Vasco da Gama em demanda da Índia, constituem a continuação, o prolongamento e a glorificação de uma hsitória que, desde há muito, vinha sendo urdida e de que tinham sido, eram e seriam agentes os guerreiros, os nautas, os missionários, os mártires e os sábios cujas figuras perpassam, quer sob a forma de narrativa, quer sob a forma de profecia, nos cantos de Os Lusíadas. E assim recobra plenitude de significado o próprio título do poema, pois o herói exaltado é efectivamente a totalidade concreta e orgânica de uma comunidade, visionada e glorificada na inconsútil urdidura do seu destino histórico, e não tão-somente cantada na crónica avulsa dos seus heróis e dos seus feitos. "  [Esta passagem foi retirada de uma citação mais longa que Aguiar e Silva faz de um estudo seu anterior a este - "Significado e estrutura de Os Lusíadas", Lisboa, 1972.]

"A missão ecuménica deste povo eleito, cumprida ao longo dos séculos por obscuros obreiros e por claros heróis, não culmina nem se esgota com a glorificação proporcionada aos mareantes lusitanos na Ilha dos Amores. O ciclo supremo dessa missão, coroamento e revelação cabal do sentido da história da comunidade lusíada, realizar-se-ia, segundo vaticina e anela Camões, num futuro próximo, quando el-rei D. Sebastião efectivasse enfim, em plenitude, o ideal cruzadístico que animou e guiou, como autêntica superestrutura ideológica, o Estado e o escol intelectual da Nação portuguesa no século de Quinhentos:"

"No texto de Os Lusíadas, este ciclo supremo do destino de Portugal apenas poderia figurar como desejo e profecia; no texto do acontecer histórico, escrito seis anos após a publicação da edição príncipe da epopeia, ficou assinalado como uma tragédia nacional... Os germes da decadência vinham corroendo desde há muito a grandeza material e moral da Pátria lusíada. Camões, embora comungando ardorosamente nesse sonho de cruzada e de império que soçobrou nos areais de Alcácer-Quibir, permanecia de mente bem lúcida para se dar conta, angustiosamente, dos sinais de decadência que estigmatizavam já o corpo e a alma da Nação."

Vítor Manuel de Aguiar e Silva, "Função e Significado do Episódio da «Ilha dos Amores» na Estrutura de Os Lusíadas" in Camões: Labirintos e Fascínios, Lisboa, Cotovia, 1994.

3 comentários:

  1. A qualidade e a riqueza dos excertos que partilha connosco acrescenta sempre valor ao conhecimento que pensávamos ter sobre os temas.

    São escolhas sempre pouco vulgares e de uma sobriedade culta. A vinda aqui é, por isso, sempre um prazer cheio de agradáveis imprevistos.

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  2. Fiquei embevecida com os eleogios! Ainda bem que gostou. Neste início do segundo período, estudamos "Os Lusíadas", que é, de facto, uma obra-prima. Gostaria que este estudo não fosse acrítico e que os Meninos aprendessem sobre a si e sobre a sua cultura. Conseguiremos?

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  3. Consegue, claro. Tem que tornar o texto empolgante, mostrar que em tempos houve um homem, danado de humano, corajoso, briguento, apaixonado, que tinha um jeito notável para pôr em verso as suas ideias.

    Tem que deixar que os seus meninos vibrem, se empolguem com as palavras de alguém que cantou os feitos, que antes de lusitano usava a palavra ilustre, que cantava amores fantásticos.

    Eu, em tempos idos, odiei porque tudo aquilo não passava de gramática, dividir orações, coisas estranhas, com o sujeito de um lado, o verbo do outro e queria lá eu saber disso.

    Hoje acho que a gramática é importantíssima mas tem que vir a seguir ao amor pela coisa. Primeiro tem que se gostar mesmo.

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