domingo, 29 de janeiro de 2012

Melancolia dominical

Ao passar pelas casas virtuais acostumadas, encontra-se uma fotografia muito sugestiva, e o pensamento corre para um texto maior da literatura portuguesa: Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro. Aparentemente, fotografia e texto não combinam muito bem, uma vez que este último se centra no despojamento, enquanto o registo fotográfico deixa ver a artificialidade da construção da figura. Todavia, aquele olhar e aquela melancolia que bem evocam a tristeza da Menina e Moça.  Ei-los:


Mario Sorrenti, in Um Jeito Manso 

"Menina e Moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra senão que parece que já havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui eu em aquela terra, mas coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desventura foi a que me fez ser triste ou, pela ventura, a que me fez ser leda. Mas, depois que eu vi tantas coisas trocadas por outras coisas, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.
Escolhi para meu contentamento (se entre tristezas e cuidados há aí algum) vir-me viver a esta monte onde o lugar e a míngua de conversação da gente fosse como já para meu cuidado cumpria, porque grande erro fora, depois de tantos nojos quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que ele não deu a ninguém, estando eu assim só, tão longe de toda a gente e de mim ainda mais longe, donde não vejo senão serras que se não mudam, de um cabo, nunca, e da outra parte, águas do mar que nunca estão quedas, onde cuidava eu já que esquecia à desventura porque ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, não deixámos em mim nada em que pudesse achar lugar nova mágoa; antes de tudo, havia muito tempo, como há, que é povoado de tristezas, e com razão. Mas parece que das desventuras há mudança para outras desventuras, que do bem não a havia para outro bem. E foi assim que, por caso estranho, fui levada em parte onde me foram ante meus olhos apresentadas em coisas alheias todas as minhas angústias, e o meu sentido de ouvir não ficou sem a sua parte de dor."


Bernardim Ribeiro, "Saudades [Menina e Moça]" in Obras de Bernardim Ribeiro, Lisboa, Presença, 2010 (organização, introdução e notas de Helder Macedo e Maurício Matos).

2 comentários:

  1. Ah que bem, que bem, que bem conjugam, que excelente ideia a sua, que palavras tão 'afeiçoadas' à imagem. Parabéns, Leitora, que bem que fica.

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  2. Linda, a palavra 'afeiçoadas'!
    Se imagem e texto se afeiçoam, não posso querer mais.

    Boa semana

    Com sentido de humor, que minguava hoje, no seu blogue.

    Um beijinho

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