segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O caminho da imortalidade

Janeiro inicia-se com Os Lusíadas. Não podíamos começar melhor, no ano dito da máxima crise. Assim, aqui fica um excerto das reflexões do poeta, no final do Canto IX, quando os marinheiros aportam à Ilha dos Amores e recebem o amoroso Prémio, reflexões estas que indicam o caminho a seguir, com vista à grandeza dos Homens e do Reino. Depois, esse excelente filme de Manoel de Oliveira que é Non ou a Vã Glória de Mandar (1990), de que se ressalva a cena inicial, com aquela árvore antiga e imponente (símbolo de Portugal?).

Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Llhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses imortais,
Indígetes, Heróis e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-lo sem o ter,
Que possuí-los sem os merecer.

Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes não dem o dos pequenos,
Ou vos vesti nas armas rutilantes,
Contra a lei dos imigos Sarracenos:
Fareis os Reinos grandes e possantes,
E todos tereis mais e nenhum menos:
Possuireis riquezas merecidas,
Com as honras que ilustram tanto as vidas.

E fareis claro o Rei que tanto amais,
Agora c'os conselhos bem cuidados,
Agora co'as espadas, que imortais
Vos farão, como os vossos já passados:
Impossibilidades não façais,
Que quem quis, sempre pôde; e numerados
Sereis entre os Heróis esclarecidos
E nesta Ilha de Vénus recebidos.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Porto, Figueirinhas, 1978, Canto IX, estrofes 92-95 (edição de António José Saraiva).



Manoel de Oliveira, Non ou a Vã Glória de Mandar

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