APELO
Atravessa os campos da noite
e vem.
A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.
Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.
Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.
Atravessa os campos da noite
e vem.
Nunca vieste
quando o desejo
fazia um entalhe de sofrimento e apelo
na polpa, madura, do dia.
Nunca vieste
quando um golpe de luar
abria ao lado do meu corpo
um lençol, fresco, para acolher-te.
A tua boca não prendeu
a flor dos meus lábios.
Nunca calei no teu beijo
a indizível palavra.
Nunca vieste.
Respirei-te no sonho.
A morte terá o teu rosto desconhecido.
Luísa Dacosta, A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto, Asa, 2002.
Que beleza, que belos poemas!
ResponderEliminarAinda bem que gostou.
ResponderEliminarTenhauma boa quarta-feira!