domingo, 19 de fevereiro de 2012

Confluências e muitas queixas


Uma passagem muito interessante, do recente livro de Helena Vasconcelos, sobre a mulher portuguesa e a sua proverbial falta de tempo, sintoma, afirmo, do conflito insanável, pelo menos para uma geração nascida antes de 1974, entre uma organização social "tradicional" e um modo de vida mais moderno, origem de contraditórias e inconciliáveis exigências, de sofrimento, de sentimentos de culpa, de remorsos e ressentimentos vários, etc.

"Quando as mulheres se queixam - e com razão - de que acumulam tarefas e que a «falta de tempo» é um inimigo constante que contraria as suas legítimas ambições e desejos, é possível - e isto é apenas uma hipótese - que isso aconteça porque a dinâmica das suas vidas, que evoluiu e se modificou consideravelmente, não está em consonância com a estrutura de base, com as «fundações» da arquitetura familiar, onde se perpetuam rituais, hábitos e tiques que pertenceram a organizações sociais muito diferentes e distantes no tempo. Em Portugal ainda são muitas as mulheres que assumem um grande número de tarefas ao mesmo tempo e, diga-se a verdade, têm grande dificuldade em delegá-las. Há mulheres que acreditam piamente que elas e só elas podem - ou têm capacidade de - tomar conta das crianças, ir buscá-las e levá-las às atividades extracurriculares, ouvir-lhes as queixas e as confidências, para além de dar jantares em casa, tratar dos cozinhados e da cozinha, arranjarem-se bem para receber as pessoas, fazer compras para elas e para o resto da família, tratar dos pais ou familiares enfermos ou com problemas de toda a ordem e estarem nos seus escritórios ou outros postos de tarbalho com a cabeça fria e a funcionar em pleno. Na maior parte das vezes não conseguem manter uma agenda, chegar a horas a reuniões, atravessar as cidades de ponta a ponta para fazer face aos pedidos - e por vezes exigências - dos filhos e de outras pessoas, dizem não ter muitas vezes apetência para o sexo e, no geral, queixam-se muito.
Quando as mulheres se lamentam de falta de tempo é porque continuam a desempenhar, em termos estereotipados, os papéis de «esposas», de mães, de donas de casa (desesperadas, a maior parte delas) e, simultaneamente, assumem outras tarefas, trabalham, estudam, investigam, tomam parte na vida cívica e política, acumulam funções sem contar com o tempo de lazer e divertimento a que, obviamente, têm direito." (pp. 115-117)


Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória, Lisboa, Quetzal, 2012.

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