domingo, 5 de fevereiro de 2012

Da necessidade da beleza e de uma nova imaginação

Bastam os títulos, para a náusea se instalar. São assim as folhas que nos trazem as notícias e as reflexões sobre o dia-a-dia. Precisamos de outra Europa, de outra ordem mundial e de novas formas de pensar e dizer. Precisamos de uma imaginação nova, de palavras novas, de palavras-antídoto. Como  estas de Luísa Dacosta, retiradas de um livro dito para a infância:


- Não sei... Só sei que invejo a tua sorte, estrelinha! – suspirou a menina. – Daqui vês a Terra apertada no anel, movente, das águas. Não há nada mais belo, nem mais vasto que o mar!
- Como te enganas! Estou aqui há milhares de anos e posso dizer-te que mais vasto que o oceano é o sofrimento dos homens...
- Como pode isso ser?! – perguntou, afligida, a menina.
- O egoísmo tornou-os tão alheios e isolados que um rosto se tornou uma parede para outro rosto. [...] Aqui, não me chegam os perfumes da Terra, nem a mutação, colorida das estações. Daqui, o teu planeta é habitado por gritos e banhado por um oceano de lágrimas...
- Com toda a beleza da Terra?!
- Com toda a beleza da Terra – confirmou a estrela. – A beleza é igualada pelo sofrimento e é ele que a torna tão necessária, frágil e preciosa.
- Porquê?! Porquê?! Explica-me, estrelinha, para ver se entendo!
- Os homens deixaram-se dominar pelas máquinas que inventaram. Tornaram-se peixes e pássaros monstruosos, criaram astros artificiais. Mas não aprenderam a viver, lado a lado. E o oceano das lágrimas cresce sem cessar.
- É terrível o que me dizes. Já chorei algumas vezes – confessou a menina – mas, agora é como habitar uma lágrima. Como poderão os homens reencontrar o caminho da felicidade?
- Quem me dera sabê-lo!... Talvez precisem de uma nova imaginação, uma imaginação que não seja mecânica como a que os tornou poderosos, mas lhes secou o coração, entendes?

Luísa Dacosta, A Menina Coração de Pássaro, Porto, Asa, 2002.

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