sábado, 18 de fevereiro de 2012

Das mulheres e do mundo



Lidas cerca de 150 páginas de um livro muito interessante sobre as mulheres no Ocidente, com destaque para o espaço anglo-saxónico e Portugal:

Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória: O acidentado percurso de algumas mulheres singulares, Lisboa, Quetzal, 2012.

É um ensaio a ler por várias razões: pela fluência da escrita, pela vivacidade da ensaísta, pela variedade e importância da informação, pela pertinência do tema, pois  a conquista de um espaço que seja seu não terminou ainda para muitas mulheres, para a larga maioria, creio. A autora, aliás, alerta para este facto, logo na introdução:

"Estamos a participar numa grandiosa mudança de comportamentos e hábitos, e as mulheres demonstram, com cada vez mais convicção, as suas capacidades e desejos, agarrando oportunidades com energia, inteligência e brilhantismo. Desde a segunda metade do século XX que se fala insistentemente do «Tempo das Mulheres», mas convém que não nos deixemos enganar: tudo o que se conquista não pode ser considerado como certo e perene e, a qualquer momento, forças poderosas - conservadoras, retrógradas - podem fazer reverter esta gloriosa e feliz tendência que dá às mulheres as mesmas hipóteses de escolha que, durante milénios, foram prerrogativa quase exclusiva dos homens." (p.13)


Destaco também, no capítulo sobre as «Mulheres de Letras» - "A ascensão segura das «Mulheres de Letras»" -, uma passagem sobre o Prémio Nobel da Literatura português e as contingências da sua atribuição, que desconsideraram nomes femininos, numa época em que as mulheres se destacam nas letras, seja como escritoras/poetas, seja como leitoras.

"Ao recordar a polémica que envolveu a atribuição do Prémio Nobel a José Saramago, creio bem que, se foi tempo de um português ser agraciado com o dito troféu, este deveria ter sido entregue, na altura, a Agustina Bessa-Luís ou a Sophia de Mello Breyner Andersen. Mas a primeira escreveu sobre a crueldade feminina e a segunda escreveu sobre o profundo e misterioso erotismo feminino, à luz de uma liberdade panteísta que certamente «assustou» a ala conservadora da nossa sociedade. (Recordo-me que a leitura de O Rapaz de Bronze, esse conto «infantil», foi, para mim, uma das chaves para o universo da sexualidade. Com a Sibila de Agustina aprendi o que era ser-se mulher de uma forma interessantemente poderosa e misteriosa.)
A escrira de ambas, cada uma à sua maneira muito particular, é profundamente pagã e nada disto poderia apelar ao julgamento positivo dos senhores da Academia Sueca." (p. 169) 

[Touché!]

É um livro a ler, com muito gosto e proveito. De facto, numa semana em que as mulheres portuguesas foram "aconselhadas" a retornar às lides domésticas e a (re)ocuparem, portanto, o tradicional papel de fadas do lar, é bom relembrar ou conhecer a história que nos trouxe aqui, os nomes e as vidas de muitas mulheres que se destacaram/destacam no seu tempo, dando voz aos anseios e sofrimento de muitas outras, às quais foram/são negados os meios fundamentais para pensarem e para serem livres, ou, simplesmente, contribuindo, com a sua inteligência, cultura e sensibilidade, para o bem-comum e para a melhoria da sociedade. Em qualquer época, e nos dias que correm, em particular, podemos menosprezar e votar ao ostracismo e clausura metade da humanidade? Não me parece. 

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