segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Marinha

E porque a poesia satírica muitas vezes anda a par com a poesia erótica (lembremo-nos da famosa antologia de Natália Correia - Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Afrodite: 1965), terminemos este dia com David Mourão-Ferreira, que tão bem soube cantar as mulheres e o amor:


NOCTURNO

O desenho redondo do teu seio
tornava-te mais cálida, mais nua,
quando eu pensava nele... Imaginei-o,
à beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
ornar-te o busto de uma renda leve
e a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
era um convite lúcido às estrelas...

Imaginei-te assim à beira-mar,
só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
no desenho redondo do teu peito...


 
David Mourão-Ferreira, Obra Poética: 1948-1988, Lisboa, Presença, 1997. 

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