sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os homens mais velhos são assim, dizem

"Fora de Jogo
Ter cinquenta anos


A miopia era leve, inconsequente quase. Agrava-se dum dia para o outro, e torna-se um empecilho de todos os instantes. Vai-se, por piada, ao otorrino, que é um amigo, e descobre-se, meio a brincar também, que a audição é perfeitamente normal para um homem de cinquenta anos!
É tudo assim: um nunca mais acabar de insignificantes pequeninas coisas de súbito intransponíveis. Correm-se cem metros para apanhar o comboio, perde-se o comboio e fica-se dobrado em dois, esgazeado, com os bofes de fora e ambas as mãos agarradas ao nó da gravata. Uma constipação leva uma semana a passar, uma dor de cabeça mete-nos na cama, uma sopa de peixe deixa-nos mal dispostos para o resto do dia, e de há muito que as noites deixaram de ser o que eram. Aliás, no vasto capítulo, tão vasto quanto imprevisto, que vai da gastrite à insónia, da cólica renal ao enfarte do miocárdio, para nos atermos apenas ao trivial, não há abrigos que valham e a ameaça é sempre totalmente invisível. A própria caligrafia, que nunca foi grande mostra, piora sem que se perceba porquê, como se também estivesse doente." (p. 328)

"As mulheres, por exemplo, que eram a coisa mais fácil e próxima deste mundo (quem é este gajo aqui, ao meu lado, que tem trinta anos, o sacana, e não tem barriga!), passaram, num abrir e fechar de olhos, para o lado de lá do cais ou da rua ou da vida, já não sei, depende dos dias, deixo-me ficar aqui sem razão nem proveito, sorriso reprimido e cara de parvo, a acenar-lhes adeus e boa viagem... Deixá-lo, há pior, e daí talvez não." (p. 329)


Marcello Duarte Mathias, "Fora de Jogo" in A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001.


Antigamente os homens iam fazer 37 anos, hoje têm cinquenta ou assim, o que não é inconsequente. De facto, a acreditar no sujeito do texto de Marcello Duarte Mathias, esta parece ser uma idade fatídica, assombrada, o umbral de todas as insuficiências masculinas, de que a mais grave, vista de aqui, será a metamorfose da relação com as mulheres, colocadas à distância, do "lado de lá do cais ou da rua ou da vida", merecedoras só de um "sorriso reprimido", de uma "cara de parvo", de um insípido "adeus", e nada mais. Já não bastavam o rosário das doenças e a multiplicação das lamúrias, a tibieza tinha de vir cogular a medida.
O que pode uma mulher fazer com tal afastamento dos sedutores jogos da vida, senão estranhar-se? Ainda mais quando uma educação marcada pela diferença de género fez acreditar que a timidez e a insegurança, relativa a coisas parvas, eram apanágio do feminino. Estranhar-se ou, em alternativa, ter saudades do passado, do tempo dos sorrisos convidativos, das conversas ora provocadoras, ora cariciosas, atraentes sempre, dos olhares acesos, e incendiários, porque não? Ou então reinventar súbitas mãos andantes e jogos de palavras, de mui prazerosa memória.

1 comentário:

  1. O que pode uma mulher fazer...?!

    Tudo.

    Se os homens se deixam ficar tolhidos pela idade, o espaço fica todo aberto às mulheres. Medo de quê? Que achem que é descarada? So what?

    Descaramento com charme e inteligência é um cocktail irrecusável.

    (De resto, tenho para mim que os 50 são uma idade fantástica.)

    Bom sábado.

    (E, portanto, nesta matéria, Leitora, não seja meramente contemplativa.)

    ResponderEliminar