Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

"A veia no pulso (e o vidro que não corta)"


Mozart, Requiem


(O texto que segue estava guardado na gaveta das recordações; veio a lume por causa do título da entrada de hoje do blogue Ana Vidigal. Magnífico título. E por causa desse homem que tem povoado as páginas de Um jeito manso. Um homem sedutor, daqueles homens elegantes, confiantes e gentis que agradam às mulheres, sejam elas advogadas, sofisticadas esposas, economistas, tresmalhadas professoras, jovens médicas ou ___________ poetisas. 
Foi precisamente uma oficiante da palavra que confiou à leitora algumas páginas do diário de uma paixão, convertida em ausência e pranto.)



Cristal de Murano

Um excerto de diário confiado às amigas:

[...]

Héstia e Perséfone, duas deusas que dizem de mim. Onde o homem que as olhasse, as reconhecesse, as desabrochasse? Encontrei-o, na casa da fantasia. Tenho tanta pena de que não seja real! Quero tanto a sua existência que me é quase impossível acreditar que não me possa ser abraço, corpo, amante! É só ausência, falta. Bati à sua porta, disse-me que não; vim para casa com o seu retrato. Ainda o conservo nas mãos. Vejo-o nas paredes, no ar... As minhas mãos cresceram; são azuis e grossas as artérias...
Sufoco. O desejo estrangula-me. O sangue na garganta. Asfixia. Como socorrer-me? Enrolo-me na terra ensanguentada, contorço-me; guinchos, balidos, nenhuma palavra para cobrir a nudez...

Morrer pode ser real.


2 comentários:

  1. O que posso eu dizer, Leitora, perante um tão belo texto...?

    Fico até com vontade de materializar o meu CEO para o dar de presente à 'oficiante da palavras'. Quem sabe um dia?

    Parabéns pela ideia, bela beleza do texto.

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  2. Ainda bem que gostou. Obrigada pelas palavras elogiosas.

    Bom domingo.

    O que significa a sigla CEO?

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