terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A palavra aos clássicos

Aos Meninos e Meninas do Presente
Palavras doloridas e um herói


Lidas as estâncias finais de Os Lusíadas, ficam estes versos tão contemporâneos:

Nô mais, Musa, nô mais que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
D'ua austera, apagada e vil tristeza.

(Canto X, est. 145)


Outro tempo, a mesma crise, um retrato de um príncipe do passado: O Infante D. Henrique:

"A simpatia e a grandeza dos homens, como foi o infante D. Henrique, não está propriamente, pois, no carácter ou na individualidade: está na empresa a que se devotaram. E como o plano do infante era verdadeiro e fecundo; como a sua ideia de um Portugal novo, destacando-se da Espanha e estendendo-se, pelos confins de Marrocos, África em fora, a limites indeterminados nas regiões desconhecidas do mundo, provou afinal ser uma realidade, devemos-lhe, nós portugueses, uma segunda pátria; e deve-lhe a civilização europeia uma das suas três ou quatro conquistas fundamentais. É isso o que faz dele um herói, na mais nobre acepção da palavra, apesar das sombras que por vezes lhe escurecem a vida, e de não se lhe encontrar beleza, nem o encanto humano que distinguem outros filhos de D. João I." (p. 114-115)

Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Lisboa, Verbo Clássicos, 2006.

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