segunda-feira, 26 de março de 2012

Apetece

Às vezes apetece, hoje, por exemplo. Mário Cesariny, magnífico poeta.




XIV


hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros


ora êste foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a molesa foi dormir


preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na  hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado


Sem Jeito Para o Negócio



Mário Cesariny, manual de prestidigitação, Lisboa, Assírio & Alvim, 1980.

2 comentários:

  1. boa maneira de nos esclarecer sobre um suicídio.
    poema melancólico? macabro? existencialista? de humor? surrealista ou não? algo para figurar no cadaver exquisito? etc etc
    Tambem é certo que 99% dos poetas não sabem de negócios e que a poesia quase não vende, ou seja, não rende.
    e sem duvida que cesariny era um bom poeta.

    ResponderEliminar
  2. Humor negro?

    Tenho a ideia de que o humor negro é apanágio dos melhores e que evita a estricnima ou outras armas. Cesariny é um mestre também deste tipo de humor, por vezes tão desconcertante.

    Ainda bem que gostou.

    ResponderEliminar